🇨🇩 RDC, RECURSOS, TECNOLOGIA E SOBERANIA:
QUANDO A TERRA É AFRICANA, MAS PARTE DO CONHECIMENTO AINDA VEM DE FORA
UMA LEITURA AFROCENTRADA E CRÍTICA DO PC2G-RDC
Por SABIDO KATA INCHINADU BRABU
INTRODUÇÃO — NÃO BASTA TER A RIQUEZA DEBAIXO DOS PÉS
Existe uma frase repetida tantas vezes que quase perdeu a força:
“África é rica em recursos naturais.”
Sim.
Mas essa frase, sozinha, explica muito pouco.
Porque possuir recursos naturais não é a mesma coisa que possuir poder sobre esses recursos.
Uma coisa é ter cobalto.
Outra coisa é dominar a geologia que permite localizar e avaliar esse cobalto.
Outra é possuir os equipamentos utilizados para estudá-lo.
Outra é possuir a tecnologia necessária para extraí-lo.
Outra é refiná-lo.
Outra é transformá-lo industrialmente.
Outra é fabricar componentes.
E outra, ainda mais acima na cadeia, é possuir empresas, patentes, investigação, financiamento, mercados e tecnologia capazes de transformar uma matéria-prima num produto de elevado valor.
É precisamente por isso que aquilo que está atualmente a acontecer na República Democrática do Congo merece ser analisado para além das manchetes.
No dia 5 de outubro de 2026, a RDC lançou oficialmente o Programa de Cartografia Geofísica Aerotransportada e Geológica da República Democrática do Congo, conhecido pela sigla PC2G-RDC.
O programa terá duração prevista de 36 meses.
Oito aeronaves serão mobilizadas.
Serão recolhidos dados magnéticos, radiométricos, gravimétricos e eletromagnéticos.
O objetivo declarado é aumentar significativamente o conhecimento científico do subsolo congolês e fornecer ao Estado melhores instrumentos para orientar exploração, investimento e decisões relativas aos recursos naturais.
É um projeto importante.
É também uma oportunidade extraordinária para colocar uma pergunta muito maior:
QUEM POSSUI O CONHECIMENTO NECESSÁRIO PARA CONHECER A RIQUEZA AFRICANA?
1. PRIMEIRO, OS FACTOS
Antes da crítica, é necessário estabelecer claramente aquilo que sabemos.
O PC2G-RDC é uma iniciativa congolesa.
Não se trata simplesmente de uma empresa estrangeira que decidiu sobrevoar o Congo à procura de minerais.
O projeto está inserido numa política do Estado da República Democrática do Congo.
A coordenação técnica cabe ao Service Géologique National du Congo — SGN-C — instituição ligada ao Ministério das Minas.
O financiamento é assegurado pelo Fonds Minier pour les Générations Futures — FOMIN.
A execução operacional especializada foi entregue à Xcalibur Multiphysics Group SL, empresa espanhola especializada em geofísica aérea e cartografia.
Esta distinção é fundamental.
O PROJETO É CONGOLÊS.
A EMPRESA ESPECIALIZADA CONTRATADA PARA EXECUTAR PARTE CENTRAL DO TRABALHO É ESTRANGEIRA.
São duas verdades que podem existir ao mesmo tempo.
E uma análise afrocentrada séria não precisa de esconder nenhuma delas.
2. O QUE VÃO FAZER OS OITO AVIÕES?
Durante 36 meses, oito aeronaves deverão participar na recolha de grandes quantidades de informação geofísica.
Entre as técnicas anunciadas encontram-se:
MAGNETOMETRIA.
RADIOMETRIA.
GRAVIMETRIA.
ELETROMAGNETISMO.
Em linguagem simples, os aviões transportam instrumentos capazes de medir determinadas propriedades físicas da Terra.
Esses dados ajudam os especialistas a compreender melhor as estruturas geológicas existentes debaixo da superfície.
Mas existe aqui uma precisão extremamente importante.
UM MAPA GEOFÍSICO NÃO É UM MAPA DO TESOURO.
Uma anomalia identificada num levantamento não significa automaticamente:
“Aqui existe uma mina de cobalto.”
Também não significa:
“Aqui encontrámos ouro.”
Os dados precisam de ser processados, interpretados e relacionados com conhecimento geológico.
Depois podem ser necessários trabalhos no terreno, análises geoquímicas, amostragens, sondagens e outras formas de investigação.
Portanto, quando falamos deste programa, devemos evitar a imagem simplista de oito aviões a voar sobre o Congo e a revelar instantaneamente onde estão escondidos os minerais.
O que está a ser construído é algo diferente e, estrategicamente, talvez ainda mais importante:
UMA BASE DE CONHECIMENTO SOBRE O SUBSOLO.
3. DADOS TAMBÉM SÃO RIQUEZA
Aqui começa a dimensão política e económica da questão.
Durante muito tempo, quando falávamos da riqueza africana, pensávamos apenas naquilo que conseguíamos tocar.
Ouro.
Diamantes.
Cobre.
Cobalto.
Petróleo.
Gás.
Urânio.
Bauxita.
Manganês.
Fosfatos.
Mas no século XXI existe outra forma de riqueza:
DADOS.
Saber onde está determinado recurso é informação.
Conhecer a estrutura geológica de uma região é informação.
Conhecer profundidade, extensão, características e possíveis anomalias é informação.
Possuir arquivos geológicos organizados é informação.
Possuir especialistas capazes de interpretar esses dados é conhecimento.
E conhecimento altera relações de poder.
Imaginemos dois lados sentados numa mesa de negociação.
Um possui tecnologia, geólogos, modelos geofísicos, décadas de dados e capacidade financeira.
O outro sabe apenas que “provavelmente existe alguma coisa debaixo da terra”.
Formalmente, ambos podem negociar.
Materialmente, não chegam à mesa com o mesmo poder informacional.
É precisamente por isso que um serviço geológico nacional forte é tão importante.
O próprio diretor-geral do SGN-C apresentou a instituição como o braço científico do Estado para o conhecimento do subsolo.
A sua função inclui adquirir, centralizar, tratar, arquivar, interpretar e disponibilizar informação geológica e mineira.
Isso significa que a soberania mineral começa muito antes da escavadora.
Começa no conhecimento.
4. CONHECER ANTES DE CONCEDER
Existe uma ideia central neste programa que merece atenção.
Um Estado deve conhecer aquilo que possui antes de decidir em que condições permite a sua exploração.
Parece óbvio.
Mas economicamente é fundamental.
Se não conhecemos adequadamente aquilo que possuímos, como avaliamos uma concessão?
Como estimamos potencial?
Como definimos prioridades?
Como avaliamos propostas?
Como construímos uma política industrial?
Como decidimos quais minerais devem ser considerados estratégicos?
Como negociamos?
O conhecimento geológico reduz parte dessa assimetria.
Não elimina todos os problemas.
Não impede automaticamente corrupção.
Não garante contratos justos.
Não cria automaticamente indústria.
Não garante que a população beneficie.
Mas fornece uma ferramenta que pode aumentar a capacidade institucional do Estado.
Segundo as autoridades congolesas, o programa deverá contribuir para elevar a cobertura geocientífica do país de 22,27% para 46,1%.
É preciso interpretar corretamente esse número.
46,1% NÃO SIGNIFICA QUE 46,1% DO TERRITÓRIO TENHA JAZIDAS MINERAIS.
Significa que a cobertura de conhecimento geocientífico deverá aumentar.
Esta distinção é essencial para não transformar ciência em propaganda.
5. A PERGUNTA AFROCENTRADA
Agora podemos chegar ao centro desta reflexão.
Se o projeto pertence ao Congo…
Se o território pertence ao Congo…
Se os recursos pertencem ao Congo…
Se o financiamento vem de uma instituição congolesa…
Por que razão uma empresa espanhola ocupa uma posição tecnológica tão importante na execução?
A resposta mais simples é:
porque a empresa possui experiência, equipamentos, tecnologia e capacidade operacional especializada.
Mas uma análise afrocentrada não deve terminar nessa resposta.
Deve começar aí.
Porque a pergunta seguinte é:
POR QUE RAZÃO ESSA CAPACIDADE NÃO EXISTE AINDA, EM ESCALA SUFICIENTE, DENTRO DO PRÓPRIO CONGO OU DE ÁFRICA?
Essa pergunta não deve ser entendida como ataque à Espanha.
Também não precisa de ser entendida como ataque à Xcalibur.
A questão estrutural é africana.
Onde estão as nossas grandes empresas continentais de geofísica aérea?
Onde estão os nossos fabricantes de sensores?
Onde estão os nossos sistemas tecnológicos proprietários?
Onde estão os centros africanos capazes de competir globalmente em processamento e interpretação geofísica?
Onde está o capital africano destinado a criar essas empresas?
Onde estão os programas universitários ligados diretamente a essas necessidades estratégicas?
Onde estão as políticas industriais capazes de transformar estudantes africanos de geologia, física, engenharia, informática e matemática nos proprietários das tecnologias que África precisará amanhã?
6. A XCALIBUR NÃO VENDE APENAS AVIÕES A VOAR
É importante compreender isto.
A capacidade de uma empresa deste género não reside simplesmente em possuir aeronaves.
A própria Xcalibur apresenta-se como uma empresa de integração de geodados e opera tecnologias especializadas de geofísica aérea.
Entre as suas capacidades encontram-se eletromagnetismo aéreo, gravimetria, magnetometria, radiometria, processamento, interpretação e gestão de dados.
Alguns dos seus sistemas são tecnologias proprietárias.
E esta palavra deve chamar imediatamente a nossa atenção:
PROPRIETÁRIAS.
Porque existe uma diferença fundamental entre:
UTILIZAR TECNOLOGIA
e
POSSUIR TECNOLOGIA.
Uma pessoa pode aprender a operar uma máquina.
Isso não significa que saiba fabricá-la.
Pode aprender a interpretar os dados produzidos por um sistema.
Isso não significa que detenha a propriedade intelectual desse sistema.
Pode receber formação num software.
Isso não significa que possua o código, a patente ou o direito de desenvolver livremente aquela tecnologia.
Pode trabalhar ao lado de especialistas estrangeiros durante três anos.
Isso não significa automaticamente que, no quarto ano, consiga reproduzir toda a operação autonomamente.
É aqui que a discussão sobre transferência tecnológica se torna absolutamente central.
7. TRANSFERÊNCIA DE COMPETÊNCIAS NÃO É AUTOMATICAMENTE TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA
Estes dois conceitos são frequentemente misturados.
Mas não são necessariamente a mesma coisa.
TRANSFERÊNCIA DE COMPETÊNCIAS pode significar:
formação de técnicos;
aprendizagem de procedimentos;
interpretação de dados;
operação de determinados equipamentos;
capacitação de geólogos;
formação de investigadores;
aprendizagem de software;
experiência de campo;
gestão de projetos.
Tudo isso é valioso.
Mas TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA, num sentido mais profundo, pode envolver:
acesso ao funcionamento dos sistemas;
capacidade de manutenção;
engenharia;
produção de componentes;
desenvolvimento de software;
propriedade intelectual;
investigação e desenvolvimento;
adaptação local das tecnologias;
produção local;
capacidade de criar uma geração seguinte da tecnologia sem depender do fornecedor original.
Portanto, quando ouvimos a expressão “transferência de competências”, não devemos automaticamente concluir que o Congo receberá toda a tecnologia da empresa.
Isso seria ir além das informações publicamente disponíveis.
As fontes consultadas confirmam que o PC2G-RDC atribui importância à formação e à transferência de competências para geólogos, investigadores, técnicos e estudantes congoleses.
Isso é concreto.
Isso deve ser reconhecido.
Mas não encontrei, nas informações públicas consultadas, detalhes suficientes que permitam afirmar que a propriedade intelectual das tecnologias proprietárias da Xcalibur será transferida para instituições congolesas.
São coisas diferentes.
E precisamente por isso devemos fazer perguntas.
8. O QUE SIGNIFICARIA UMA VERDADEIRA TRANSFERÊNCIA TECNOLÓGICA?
Imaginemos que durante 36 meses especialistas congoleses trabalham lado a lado com equipas internacionais.
Ao fim do programa, como avaliamos o sucesso?
Apenas pelo número de quilómetros quadrados cartografados?
Pelo número de mapas produzidos?
Pelo número de anomalias identificadas?
Ou também devemos perguntar:
Quantos geofísicos congoleses foram formados?
Quantos técnicos?
Quantos estudantes?
Quantas horas de formação prática?
Em que tecnologias?
Com que nível de autonomia?
As universidades congolesas terão acesso aos dados?
Os investigadores congoleses poderão utilizá-los?
Existirá infraestrutura computacional no Congo para processá-los?
Os dados brutos ficarão arquivados em instituições congolesas?
O país terá cópias integrais?
Quem administrará as bases de dados?
Quem poderá autorizar acesso?
Quem fará manutenção dos sistemas?
Existirá formação para manutenção?
Haverá aquisição de equipamentos para instituições congolesas?
Algum componente poderá futuramente ser produzido localmente?
Serão criados laboratórios permanentes?
Haverá bolsas?
Haverá programas universitários?
Haverá investigação conjunta?
Haverá participação de empresas congolesas?
Ao fim de 36 meses, uma equipa congolesa conseguiria executar parte substancial de uma nova campanha sem contratar exatamente o mesmo pacote externo?
Estas são perguntas de soberania tecnológica.
9. O TESTE DOS 36 MESES
É fácil inaugurar um projeto.
É fácil fotografar aviões.
É fácil fazer discursos.
O teste verdadeiro começa quando o projeto termina.
Daqui a 36 meses, devemos perguntar:
O QUE FICOU?
Ficaram apenas mapas?
Ou ficaram especialistas?
Ficaram apenas relatórios?
Ou ficaram laboratórios?
Ficaram apenas dados?
Ou ficou capacidade de processá-los?
Ficou apenas experiência individual?
Ou essa experiência foi institucionalizada?
Ficou apenas conhecimento sobre o subsolo?
Ou ficou também conhecimento sobre COMO produzir conhecimento sobre o subsolo?
Esta última diferença é enorme.
Porque receber um mapa é receber um resultado.
Aprender a produzir o mapa é adquirir uma capacidade.
Aprender a construir a tecnologia que produz o mapa é subir ainda mais na cadeia.
É precisamente essa progressão que deveria orientar uma estratégia africana de longo prazo.
10. COOPERAÇÃO NÃO É O PROBLEMA
Uma perspectiva afrocentrada não precisa defender isolamento.
Nenhum país moderno produz sozinho absolutamente tudo aquilo de que necessita.
Os Estados Unidos cooperam.
A China coopera.
A Alemanha coopera.
O Japão coopera.
A Coreia do Sul coopera.
A Índia coopera.
Países compram equipamentos estrangeiros, contratam empresas estrangeiras, estabelecem parcerias e recebem investimento internacional.
Portanto, a questão não pode ser simplesmente:
“Existe uma empresa estrangeira?”
A pergunta mais inteligente é:
QUAL É A NATUREZA DA RELAÇÃO?
Existe transferência de competências?
Existe aprendizagem?
Existe participação local?
Existe controlo nacional dos dados?
Existe desenvolvimento institucional?
Existe formação?
Existe criação de empresas locais?
Existe capacidade para reduzir progressivamente a dependência?
Existe estratégia industrial?
Ou existe apenas uma relação permanente de cliente e fornecedor?
Esta diferença é decisiva.
COOPERAÇÃO PODE CONSTRUIR AUTONOMIA.
DEPENDÊNCIA REPRODUZ A NECESSIDADE DE COOPERAÇÃO NAS MESMAS CONDIÇÕES PARA SEMPRE.
11. O PERIGO DA DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA
Imaginemos um país que possui uma enorme riqueza mineral.
Esse país precisa de empresas estrangeiras para:
mapear;
explorar;
financiar;
extrair;
transportar;
refinar;
certificar;
transformar;
fabricar;
comercializar.
Nesse cenário, podemos continuar a dizer que o minério pertence formalmente ao país.
Mas precisamos reconhecer que grande parte das capacidades necessárias para transformar esse minério em poder económico encontra-se noutros lugares.
É isso que torna a questão tecnológica tão importante.
Soberania não é apenas possuir juridicamente.
Soberania é possuir capacidade de decisão.
E capacidade de decisão depende também de capacidade técnica.
12. A HISTÓRIA ECONÓMICA AFRICANA NÃO COMEÇOU ONTEM
Não podemos analisar esta situação como se África tivesse entrado no mercado mundial em 2026.
Existe uma história.
Durante o período colonial, economias africanas foram profundamente reorganizadas em função das necessidades externas.
Infraestruturas foram frequentemente concebidas para ligar zonas produtoras aos portos.
Culturas agrícolas foram orientadas para exportação.
Minerais eram extraídos e enviados para centros industriais exteriores.
O continente fornecia matéria-prima.
Outros lugares concentravam grande parte da transformação industrial.
A independência política alterou juridicamente a soberania dos Estados africanos.
Mas as estruturas económicas não desapareceram automaticamente no dia em que uma bandeira colonial foi substituída por uma bandeira nacional.
Esta é uma das questões centrais da descolonização económica:
COMO TRANSFORMAR SOBERANIA POLÍTICA EM CAPACIDADE ECONÓMICA REAL?
13. DE CABRAL À QUESTÃO TECNOLÓGICA
Amílcar Cabral compreendeu profundamente que libertação não podia ser reduzida à simples substituição de administradores.
A libertação exigia capacidade de um povo conduzir o seu próprio desenvolvimento histórico.
Transportada para o século XXI, esta questão ganha uma dimensão tecnológica.
Porque hoje uma nação pode possuir:
bandeira,
hino,
parlamento,
governo,
fronteiras reconhecidas,
e ainda assim depender profundamente de sistemas tecnológicos externos para funções estratégicas.
A dependência contemporânea nem sempre usa uniforme colonial.
Pode aparecer como:
licença de software;
patente;
consultoria;
infraestrutura digital;
satélite;
equipamento especializado;
plataforma de dados;
serviço financeiro;
máquina industrial;
algoritmo;
sensor;
tecnologia proprietária.
Por isso, descolonização económica no século XXI também precisa significar:
CAPACIDADE CIENTÍFICA.
CAPACIDADE TECNOLÓGICA.
CAPACIDADE INDUSTRIAL.
14. FANON E A ARMADILHA DA BANDEIRA SEM TRANSFORMAÇÃO
Frantz Fanon alertou para as limitações de uma independência que não transforma profundamente estruturas económicas e sociais.
Aplicar Fanon mecanicamente a qualquer contrato moderno seria simplista.
Mas a pergunta que a sua obra nos obriga a manter viva continua relevante:
O QUE MUDA MATERIALMENTE PARA O POVO?
Um projeto de cartografia pode ser tecnicamente excelente.
Pode produzir dados extraordinários.
Pode aumentar conhecimento.
Pode atrair investimento.
Mas, numa perspectiva de desenvolvimento africano, ainda precisamos perguntar:
Como esse conhecimento chegará à economia real?
Como contribuirá para empregos?
Como fortalecerá instituições?
Como ajudará empresas congolesas?
Como alimentará universidades?
Como poderá apoiar industrialização?
Como poderá aumentar capacidade de negociação?
Como poderá beneficiar gerações futuras?
Porque ciência sem estratégia económica pode produzir informação que outros acabam por transformar em valor.
15. O CONGO NÃO PODE SER APENAS UMA GEOLOGIA
Existe uma tendência histórica perigosa na maneira como o mundo fala da RDC.
O país aparece frequentemente reduzido aos seus minerais.
COBALTO.
COBRE.
COLTAN.
OURO.
LÍTIO.
Como se o Congo fosse um enorme depósito geológico habitado acidentalmente por seres humanos.
Mas um país não é uma mina.
O Congo é população.
É cultura.
É conhecimento.
É juventude.
É universidades.
É trabalhadores.
É agricultores.
É engenheiros.
É investigadores.
É artistas.
É empresários.
É história.
É futuro.
Portanto, a pergunta não deve ser apenas:
“O que existe debaixo da terra congolesa?”
Também precisamos perguntar:
“O que estamos a construir acima dela?”
16. O MINERAL NÃO É O PRODUTO FINAL
Este é um dos maiores problemas na discussão pública sobre recursos africanos.
Falamos frequentemente do valor de um mineral como se todo o valor económico estivesse contido na pedra.
Não está.
Tomemos o cobre.
Extrair cobre cria valor.
Refinar cria mais uma etapa.
Transformá-lo em fios cria outra.
Produzir componentes elétricos acrescenta outra.
Fabricar motores acrescenta outra.
Integrar esses motores em máquinas acrescenta outra.
Desenvolver tecnologia baseada nesses produtos acrescenta outra.
Distribuição, marcas, serviços e propriedade intelectual acrescentam outras.
O mesmo raciocínio vale para diferentes minerais.
Portanto:
MATÉRIA-PRIMA ≠ CADEIA DE VALOR COMPLETA.
É por isso que industrialização africana importa tanto.
17. TER COBALTO NÃO É O MESMO QUE TER UMA INDÚSTRIA DE BATERIAS
A RDC ocupa uma posição extraordinariamente importante na produção mundial de cobalto.
Mas possuir um mineral estratégico não significa automaticamente dominar as indústrias que utilizam esse mineral.
Entre a extração e um produto tecnológico acabado existem:
refinação;
química;
engenharia;
investigação;
fábricas;
propriedade intelectual;
logística;
capital;
normas;
certificação;
mercados.
Quanto mais etapas uma economia consegue realizar internamente ou regionalmente, maior tende a ser a oportunidade de capturar valor, desenvolver competências e criar ecossistemas industriais.
É aqui que a discussão sobre cartografia se liga à discussão sobre industrialização.
Conhecer o recurso é o início.
Não pode ser o fim.
18. DADOS AFRICANOS DEVEM FORTALECER INSTITUIÇÕES AFRICANAS
Uma das questões mais importantes deste projeto é o destino dos dados.
O SGN-C tem precisamente a missão institucional de adquirir, centralizar, processar, arquivar, interpretar e disponibilizar informação geológica e mineira.
Isso é estratégico.
Porque os dados produzidos num projeto desta dimensão não devem existir apenas como ficheiros técnicos entregues no final de um contrato.
Precisam tornar-se memória científica nacional.
Precisam ser preservados.
Atualizados.
Cruzados com novos estudos.
Utilizados por investigadores.
Utilizados pelo Estado.
Utilizados na formação.
Utilizados para melhorar futuras decisões.
Uma instituição nacional forte transforma um projeto de três anos numa capacidade que pode durar décadas.
19. A UNIVERSIDADE DEVE ENTRAR NA EQUAÇÃO
Se queremos falar seriamente de transferência de tecnologia, precisamos falar de universidades.
Não existe soberania científica sem formação.
Não existe indústria tecnológica sem engenheiros.
Não existe geofísica nacional sem geofísicos.
Não existe autonomia de dados sem especialistas em informática, matemática, estatística, sistemas de informação geográfica e inteligência artificial.
O PC2G-RDC prevê formação de estudantes, técnicos, investigadores e geólogos congoleses.
Isso abre uma oportunidade.
Mas a formação precisa ser pensada como início de uma política maior.
Os estudantes formados precisam encontrar:
laboratórios;
emprego;
projetos;
equipamentos;
financiamento para investigação;
carreiras científicas;
empresas nacionais capazes de utilizar as suas competências.
Caso contrário, podemos formar excelentes especialistas que depois serão obrigados a trabalhar para empresas estrangeiras simplesmente porque não existe ecossistema local capaz de absorver o seu conhecimento.
20. TRANSFERIR COMPETÊNCIA PARA QUÊ?
Esta pergunta parece estranha, mas é essencial.
Formar pessoas sem construir instituições pode produzir apenas indivíduos qualificados.
Uma estratégia nacional precisa transformar competências individuais em capacidade coletiva.
Um geólogo formado é importante.
Cem geólogos são melhores.
Mas cem geólogos distribuídos por universidades, serviço geológico, laboratórios e empresas nacionais, com equipamentos, financiamento e projetos próprios, representam algo muito maior:
UMA CAPACIDADE NACIONAL.
Portanto, a transferência de competências deve estar ligada a uma estratégia institucional.
21. DA FORMAÇÃO À APROPRIAÇÃO DO CONHECIMENTO
Podemos imaginar uma escada.
PRIMEIRO NÍVEL:
um especialista estrangeiro faz tudo.
SEGUNDO NÍVEL:
um técnico local observa.
TERCEIRO NÍVEL:
o técnico local recebe formação.
QUARTO NÍVEL:
o técnico local opera o equipamento.
QUINTO NÍVEL:
o especialista local interpreta os resultados.
SEXTO NÍVEL:
a instituição local gere o sistema.
SÉTIMO NÍVEL:
empresas locais fornecem partes do serviço.
OITAVO NÍVEL:
investigadores locais adaptam a tecnologia.
NONO NÍVEL:
empresas e universidades locais desenvolvem tecnologia própria.
DÉCIMO NÍVEL:
o país exporta conhecimento e serviços para outros países.
A verdadeira questão é:
ATÉ ONDE QUEREMOS SUBIR?
22. DE CLIENTE A PRODUTOR
África não pode permanecer eternamente apenas consumidora de tecnologia.
Hoje compra.
Amanhã precisa adaptar.
Depois produzir.
Depois inovar.
E finalmente exportar.
Esse processo aconteceu em diferentes formas noutras regiões do mundo.
Países que hoje possuem grandes capacidades industriais também importaram tecnologia em fases anteriores do seu desenvolvimento.
A diferença esteve frequentemente na existência de políticas destinadas a transformar importação em aprendizagem.
É isso que deve ser discutido no contexto africano.
23. UMA EMPRESA ESTRANGEIRA NÃO É AUTOMATICAMENTE UM INIMIGO
É importante dizer isto claramente.
Uma análise afrocentrada séria não precisa transformar qualquer estrangeiro num inimigo.
A Xcalibur é uma empresa contratada para prestar um serviço especializado.
A crítica não precisa ser:
“Por que existem espanhóis?”
A crítica mais profunda é:
“Como utilizar esta relação para que o Congo saia tecnologicamente mais forte do que entrou?”
Esta pergunta muda tudo.
Porque deixa de ser uma discussão emocional sobre nacionalidade e passa a ser uma discussão estratégica sobre capacidade.
24. O MELHOR CONTRATO NÃO É APENAS O QUE ENTREGA O SERVIÇO
Num projeto desta natureza, o sucesso não deveria ser medido apenas por:
prazo;
custo;
quantidade de dados;
área coberta;
qualidade dos mapas.
Também deveria ser medido por:
competências transferidas;
especialistas formados;
instituições fortalecidas;
infraestrutura deixada no país;
capacidade local criada;
participação de universidades;
participação empresarial congolesa;
continuidade científica depois do contrato.
Porque o melhor legado de uma empresa estrangeira não deveria ser criar necessidade de outro contrato idêntico.
Deveria ser contribuir para que, no futuro, uma parcela cada vez maior do trabalho possa ser feita pelo próprio país.
25. TECNOLOGIA PROPRIETÁRIA: O PONTO DIFÍCIL
Aqui encontramos um dos maiores limites da transferência tecnológica.
Empresas privadas vivem, em parte, do conhecimento que possuem.
Patentes.
Software.
Sensores.
Métodos.
Processos.
Segredos comerciais.
Propriedade intelectual.
Não é realista imaginar que uma empresa entregue automaticamente todo esse património simplesmente porque assinou um contrato de serviços.
É precisamente por isso que Estados precisam negociar estrategicamente.
Transferência tecnológica não acontece apenas por boa vontade.
Precisa ser desenhada.
Contratada.
Medida.
Acompanhada.
Institucionalizada.
26. O QUE PODERIA SER NEGOCIADO?
Sem afirmar que estas medidas fazem parte do contrato atual — porque não temos documentação pública suficiente para dizer isso — podemos identificar aquilo que seria estrategicamente interessante para qualquer Estado africano num projeto semelhante:
programas obrigatórios de formação;
metas quantificadas de especialistas nacionais;
estágios técnicos;
programas universitários;
laboratórios conjuntos;
acesso integral aos dados produzidos;
formação em processamento;
formação em interpretação;
capacitação em manutenção;
participação de fornecedores locais;
bolsas de investigação;
publicações científicas conjuntas;
transferência de metodologias;
desenvolvimento conjunto de ferramentas;
infraestrutura permanente.
Isto transforma “conteúdo local” numa política de aprendizagem.
27. O CONHECIMENTO NÃO PODE SAIR NO MESMO AVIÃO
Esta talvez seja a metáfora central de todo o artigo.
Durante 36 meses, os aviões vão sobrevoar o Congo.
Vão recolher informação.
Vão produzir conhecimento.
Quando os aviões partirem, uma pergunta precisa permanecer:
O CONHECIMENTO FICA?
Se ficam apenas mapas, alguma coisa foi ganha.
Se ficam mapas e especialistas, ganhámos mais.
Se ficam mapas, especialistas, laboratórios e capacidade institucional, ganhámos muito mais.
Se dessa experiência nascerem empresas congolesas capazes de executar trabalhos semelhantes no futuro, então começamos realmente a alterar a estrutura.
28. UMA VISÃO PAN-AFRICANA
E por que pensar apenas nacionalmente?
A RDC não precisa construir tudo sozinha.
África possui universidades.
Possui empresas.
Possui engenheiros.
Possui geólogos.
Possui centros de investigação.
Possui capital.
Possui diferentes experiências nacionais.
Uma estratégia pan-africana poderia ligar essas capacidades.
Imagine consórcios africanos de geofísica.
Empresas de diferentes países trabalhando juntas.
Universidades partilhando laboratórios.
Programas continentais de formação.
Fundos africanos financiando tecnologia africana.
Especialistas congoleses trabalhando em Angola.
Especialistas angolanos trabalhando no Congo.
Investigadores sul-africanos formando equipas com congoleses, ganeses, nigerianos, quenianos e senegaleses.
A integração africana não precisa existir apenas em discursos políticos.
Pode existir na engenharia.
29. DE “RECURSOS AFRICANOS” PARA “CADEIAS AFRICANAS DE VALOR”
Talvez precisemos mudar a linguagem.
Em vez de perguntar apenas:
“Que recursos África possui?”
Perguntemos:
“Que cadeias de valor África controla?”
Porque é aí que a diferença aparece.
Possuir matéria-prima é importante.
Mas controlar:
pesquisa,
dados,
financiamento,
extração,
processamento,
transformação,
fabricação,
logística,
tecnologia,
marcas,
mercados,
é outra dimensão de poder económico.
30. O PC2G-RDC COMO TESTE
É demasiado cedo para declarar este projeto um sucesso ou um fracasso.
Acabou de começar.
Seria intelectualmente desonesto fingir que sabemos hoje exatamente quais serão os resultados daqui a três anos.
Mas podemos estabelecer critérios desde já.
Ao fim dos 36 meses, devemos perguntar:
A cobertura geocientífica aumentou conforme previsto?
Os dados são de qualidade?
O SGN-C está mais forte?
Quantos especialistas foram formados?
Que competências foram efetivamente transferidas?
Que instituições tiveram acesso à formação?
Que capacidade tecnológica permanece?
Que universidades participaram?
Que empresas congolesas participaram?
Que conhecimento foi institucionalizado?
Como os dados serão utilizados?
O Congo estará numa posição melhor para executar futuros projetos?
Estas perguntas permitirão avaliar a dimensão real do legado.
31. NÃO CONFUNDIR NACIONALISMO COM SOBERANIA
Podemos colocar uma bandeira congolesa num equipamento estrangeiro.
Isso não transforma o equipamento em tecnologia congolesa.
Podemos colocar uma bandeira africana numa mina.
Isso não significa que toda a cadeia de valor seja africana.
Soberania precisa ser material.
Precisa aparecer na capacidade.
Na ciência.
Na engenharia.
Na indústria.
No financiamento.
Nas instituições.
Nos dados.
Nas empresas.
32. A JUVENTUDE CONGOLESA É A VERDADEIRA RESERVA ESTRATÉGICA
O Congo possui minerais extraordinários.
Mas existe uma riqueza ainda maior:
as pessoas.
Um mineral é finito.
Conhecimento pode multiplicar-se.
Uma jazida acaba.
Uma universidade pode formar gerações.
Uma mina fecha.
Uma instituição científica pode continuar.
Por isso, se quisermos pensar verdadeiramente nas “gerações futuras”, não basta guardar dinheiro proveniente dos minerais.
É preciso investir esse dinheiro na capacidade intelectual das gerações futuras.
FORMAR.
INVESTIGAR.
INOVAR.
INDUSTRIALIZAR.
33. O FOMIN E A IDEIA DE FUTURO
O próprio nome Fonds Minier pour les Générations Futures contém uma ideia poderosa.
GERAÇÕES FUTURAS.
Mas o que deixamos às gerações futuras?
Dinheiro?
Minerais ainda não explorados?
Infraestrutura?
Ou conhecimento?
O melhor fundo para as gerações futuras talvez seja aquele que ajuda a transformar riqueza mineral temporária em capacidade humana permanente.
Porque os recursos do subsolo podem acabar.
O conhecimento adquirido através deles pode continuar a produzir riqueza.
34. DO SUBSOLO À SALA DE AULA
Cada mapa produzido pelo PC2G-RDC deveria ter uma segunda vida.
Não apenas nos ministérios.
Também nas universidades.
Nos centros de investigação.
Na formação de geólogos.
Na formação de engenheiros.
Na formação de especialistas em SIG.
Na ciência de dados.
Na inteligência artificial aplicada às geociências.
Na modelação.
Na investigação mineral.
O dado público, quando corretamente protegido e administrado, pode tornar-se matéria-prima científica.
35. O NOVO RECURSO ESTRATÉGICO É O CONHECIMENTO
No século passado, perguntávamos:
Quem possui petróleo?
Hoje precisamos acrescentar:
Quem possui semicondutores?
Quem possui inteligência artificial?
Quem possui satélites?
Quem possui dados?
Quem possui patentes?
Quem possui capacidade computacional?
Quem possui tecnologia energética?
Quem possui sensores?
Quem possui ciência?
Isso não diminui a importância dos minerais.
Pelo contrário.
Mostra que minerais são apenas uma parte de um sistema tecnológico muito maior.
36. ÁFRICA NÃO PODE SER APENAS O PRIMEIRO ELO
Se desenharmos a cadeia económica de muitos recursos, encontramos algo parecido:
ÁFRICA:
extração.
FORA DE ÁFRICA:
processamento,
transformação,
tecnologia,
produto,
marca,
financiamento,
distribuição.
Esta estrutura precisa mudar.
Não significa que absolutamente tudo tenha de ser produzido dentro de cada país africano.
Isso seria economicamente irrealista.
Significa que o continente precisa ocupar muito mais etapas de maior valor.
37. A SOBERANIA NÃO SE DECLARA — CONSTRÓI-SE
Nenhum discurso cria engenheiros.
Nenhum slogan cria laboratórios.
Nenhuma bandeira cria sensores.
Nenhum hino cria software.
Nenhuma denúncia, sozinha, cria indústria.
Soberania tecnológica exige investimento paciente.
Durante anos.
Décadas, se necessário.
Exige:
educação;
investigação;
capital;
infraestrutura;
política industrial;
compras públicas estratégicas;
parcerias;
transferência de conhecimento;
proteção de determinadas capacidades;
competição;
cooperação continental.
38. A CRÍTICA PRECISA PRODUZIR UMA ALTERNATIVA
É fácil dizer:
“A empresa é espanhola.”
Muito mais difícil é responder:
“Como fazemos para que daqui a quinze anos exista uma empresa congolesa capaz de competir com ela?”
É essa segunda pergunta que interessa.
Precisamos de transformar indignação em estratégia.
Se queremos tecnologia africana, precisamos formar quem vai criá-la.
Precisamos financiar quem vai desenvolvê-la.
Precisamos comprar serviços dessas empresas quando começarem.
Precisamos permitir que errem, aprendam, melhorem e cresçam.
Nenhuma indústria tecnológica nasce gigante.
39. DA TRANSFERÊNCIA À COCRIAÇÃO
Existe ainda um nível superior à transferência de tecnologia:
COCRIAÇÃO.
Transferência pressupõe que alguém possui e transmite.
Cocriação significa desenvolver juntos.
Universidades congolesas e empresas internacionais poderiam, por exemplo, trabalhar em investigação conjunta.
Engenheiros locais poderiam adaptar tecnologias às condições específicas do território.
Problemas congoleses poderiam gerar soluções congolesas.
Essas soluções poderiam depois ser exportadas.
Nesse momento, África deixa de ser apenas local de aplicação de tecnologia.
Torna-se local de invenção.
40. A PERGUNTA FINAL NÃO É “QUEM VEIO?”
Portanto, quando olhamos para os aviões da Xcalibur sobre o Congo, a pergunta mais importante não deveria ser simplesmente:
“Por que veio uma empresa espanhola?”
A pergunta deveria ser:
“QUANDO ELA PARTIR, O CONGO ESTARÁ MAIS CAPAZ DE FAZER POR SI PRÓPRIO AQUILO QUE HOJE PRECISA CONTRATAR?”
Se a resposta futura for sim, a cooperação pode ter contribuído para construir soberania.
Se a resposta for não, então daqui a alguns anos estaremos novamente perante a mesma situação:
terra africana,
recursos africanos,
dinheiro africano,
mas dependência tecnológica externa.
CONCLUSÃO — A TERRA É AFRICANA, MAS O FUTURO DEPENDE DAQUILO QUE CONSTRUÍMOS SOBRE ELA
O lançamento do PC2G-RDC pode representar um passo importante para a República Democrática do Congo.
O país precisa conhecer melhor o seu território.
Precisa de dados.
Precisa de ciência.
Precisa reduzir incertezas.
Precisa fortalecer a capacidade do Estado de avaliar aquilo que possui.
Nada disso deve ser diminuído.
Mas uma visão afrocentrada obriga-nos a olhar além dos 36 meses.
O verdadeiro sucesso não será apenas oito aviões terem voado.
Não será apenas milhares de dados terem sido recolhidos.
Não será apenas um novo mapa ter sido produzido.
O verdadeiro sucesso será o que permanecer depois.
CONHECIMENTO.
ESPECIALISTAS.
INSTITUIÇÕES.
INFRAESTRUTURA.
DADOS SOB CONTROLO CONGOLÊS.
CAPACIDADE DE INTERPRETAÇÃO.
CAPACIDADE DE NEGOCIAÇÃO.
EMPRESAS.
CIÊNCIA.
TECNOLOGIA.
Porque transferência de competências deve ser uma ponte.
Não um destino.
A primeira etapa pode ser aprender a utilizar tecnologia estrangeira.
A segunda deve ser dominar o conhecimento.
A terceira deve ser adaptar.
A quarta deve ser desenvolver.
A quinta deve ser produzir.
E um dia, África deve chegar ao ponto em que países de outros continentes também contratem empresas africanas para cartografar os seus territórios.
Aí teremos invertido a lógica.
Não através de slogans.
Através de capacidade.
Não através de isolamento.
Através de conhecimento.
Não através da rejeição automática da cooperação.
Através de cooperação que produza autonomia.
A questão nunca foi simplesmente expulsar o estrangeiro.
A questão é deixar de precisar eternamente que o estrangeiro faça por nós aquilo que podemos aprender, desenvolver e fazer por nós próprios.
A TERRA É AFRICANA.
OS RECURSOS SÃO AFRICANOS.
OS DADOS SOBRE ESSA TERRA DEVEM FORTALECER ÁFRICA.
O CONHECIMENTO DEVE FICAR EM ÁFRICA.
OS JOVENS AFRICANOS DEVEM SER FORMADOS.
AS INSTITUIÇÕES AFRICANAS DEVEM SER FORTALECIDAS.
A TECNOLOGIA DEVE SER APRENDIDA, ADAPTADA E, CADA VEZ MAIS, PRODUZIDA EM ÁFRICA.
OS MINERAIS DEVEM ALIMENTAR TAMBÉM A INDUSTRIALIZAÇÃO AFRICANA.
E A RIQUEZA DO SUBSOLO DEVE SER TRANSFORMADA EM CAPACIDADE ACIMA DO SOLO.
PORQUE UM POVO NÃO É SOBERANO APENAS QUANDO É DONO DA TERRA.
É SOBERANO QUANDO POSSUI CONHECIMENTO SUFICIENTE PARA DECIDIR O QUE FAZER COM ELA.
41. DA TRANSFERÊNCIA DE COMPETÊNCIAS À SOBERANIA TECNOLÓGICA
Chegamos agora a uma questão que merece ser aprofundada.
Quando um Estado africano contrata uma empresa estrangeira para executar um trabalho altamente especializado, existem pelo menos duas maneiras de olhar para essa relação.
Na primeira, o Estado compra um serviço.
A empresa chega.
Executa.
Entrega.
Recebe.
Parte.
Na segunda, o Estado compra o serviço, mas utiliza simultaneamente o contrato como instrumento de aprendizagem.
A empresa chega.
Executa.
Especialistas nacionais acompanham.
Técnicos são formados.
Universidades participam.
Instituições absorvem metodologias.
Equipamentos permanecem ou novas capacidades são adquiridas.
Dados ficam sob controlo nacional.
Conhecimento é institucionalizado.
Empresas locais entram progressivamente na cadeia.
E quando o contrato termina, o país não regressa exatamente ao ponto onde estava antes.
ESTA DIFERENÇA É FUNDAMENTAL.
Porque contratar tecnologia estrangeira não é necessariamente dependência.
DEPENDÊNCIA EXISTE QUANDO, DEPOIS DE ANOS DE CONTRATOS, CONTINUAMOS INCAPAZES DE REALIZAR AS MESMAS FUNÇÕES SEM CONTRATAR NOVAMENTE A MESMA CAPACIDADE EXTERNA.
42. TRANSFERÊNCIA NÃO É UMA PALAVRA MÁGICA
“Transferência de tecnologia” tornou-se uma expressão utilizada frequentemente em grandes projetos internacionais.
Mas precisamos ter cuidado.
Colocar essa expressão num comunicado não significa automaticamente que tecnologia esteja realmente a ser transferida.
É necessário perguntar:
O QUÊ?
PARA QUEM?
DURANTE QUANTO TEMPO?
COM QUE PROFUNDIDADE?
COM QUE DIREITOS?
COM QUE EQUIPAMENTOS?
COM QUE RESULTADOS MENSURÁVEIS?
Uma formação de duas semanas pode ser chamada transferência de competências.
Um estágio de seis meses também.
A entrega de manuais técnicos também pode ser apresentada como capacitação.
Mas nenhuma dessas coisas, isoladamente, significa que um país adquiriu autonomia tecnológica.
A transferência precisa ser avaliada pela capacidade criada depois dela.
43. SABER OPERAR NÃO É SABER PRODUZIR
Imaginemos um equipamento geofísico extremamente sofisticado.
Um técnico congolês pode aprender a operá-lo perfeitamente.
Isso é uma competência real.
Mas ainda existem diferentes níveis de domínio.
Ele sabe utilizar.
Sabe calibrar?
Sabe reparar?
Sabe substituir componentes?
Sabe compreender a arquitetura do sistema?
Sabe modificar o software?
Sabe construir um equipamento semelhante?
Sabe desenvolver uma versão melhor?
A instituição onde trabalha possui peças?
Possui documentação?
Possui laboratório?
Possui engenheiros?
Possui orçamento para continuar?
É aqui que percebemos que soberania tecnológica possui camadas.
44. UTILIZAR, MANTER, ADAPTAR, PRODUZIR, INOVAR
Podemos organizar essas camadas desta maneira:
UTILIZAR.
O primeiro nível.
Aprender a utilizar corretamente uma tecnologia existente.
MANTER.
Ser capaz de diagnosticar problemas, reparar equipamentos e garantir continuidade operacional.
ADAPTAR.
Modificar sistemas e metodologias às necessidades locais.
PRODUZIR.
Construir localmente parte ou a totalidade dos equipamentos e sistemas necessários.
INOVAR.
Criar novas tecnologias.
Cada nível representa um aumento de autonomia.
Uma estratégia africana séria precisa saber em que nível está e para qual pretende avançar.
45. O CONGO NÃO PRECISA COMEÇAR PELO ÚLTIMO DEGRAU
Seria absurdo exigir que a RDC produzisse imediatamente todos os sensores, aeronaves, sistemas computacionais e tecnologias necessárias para uma campanha geofísica desta dimensão.
Nenhuma transformação industrial funciona assim.
O importante é estabelecer uma trajetória.
Hoje:
CONTRATAR + APRENDER.
Amanhã:
CONTRATAR + PARTICIPAR.
Depois:
PARTICIPAR + PRODUZIR PARTE.
Mais tarde:
LIDERAR + PRODUZIR + EXPORTAR.
A soberania tecnológica não precisa nascer completa.
Precisa ter direção.
46. O PERIGO DE APRENDER SEM RETER
Existe outro problema.
Um país pode formar excelentes profissionais e continuar dependente.
Como?
Através da fuga de competências.
Imaginemos que dezenas de jovens congoleses recebem formação de alto nível.
Depois do programa, não existem salários competitivos.
Não existem laboratórios.
Não existem equipamentos.
Não existem projetos.
Não existem carreiras científicas.
Não existem empresas nacionais capazes de contratá-los.
O que acontece?
Alguns podem abandonar o setor.
Outros podem emigrar.
Outros podem acabar contratados precisamente pelas empresas estrangeiras que dominam o mercado.
Nesse cenário, o país financiou ou facilitou a formação, mas não conseguiu transformar competência individual em capacidade nacional.
Por isso, formação precisa caminhar juntamente com retenção.
47. FORMAR SEM CRIAR EMPREGO TECNOLÓGICO É CONSTRUIR PARA OS OUTROS
Esta frase pode parecer dura.
Mas precisa ser discutida.
África forma milhares de jovens altamente qualificados.
Engenheiros.
Médicos.
Investigadores.
Programadores.
Cientistas.
Geólogos.
Depois, muitas economias não conseguem oferecer condições suficientes para utilizar plenamente essas competências.
Os países que recebem esses profissionais beneficiam do investimento humano realizado anteriormente.
Por isso, uma política de transferência tecnológica precisa incluir uma política de emprego tecnológico.
48. A TRANSFERÊNCIA DEVE CHEGAR ÀS INSTITUIÇÕES
Se dez pessoas aprendem alguma coisa, existe conhecimento individual.
Se esse conhecimento é incorporado numa instituição, começa a existir memória coletiva.
É preciso criar procedimentos.
Documentação.
Arquivos.
Bases de dados.
Formadores nacionais.
Programas de formação.
Laboratórios.
Equipas permanentes.
Assim, quando uma pessoa se reforma, muda de emprego ou sai do país, o conhecimento não desaparece com ela.
SOBERANIA NÃO PODE DEPENDER DE UMA ÚNICA PESSOA.
49. FORMAR OS FORMADORES
Uma das formas mais poderosas de transferência de competências é formar pessoas capazes de formar outras.
Imaginemos que um especialista estrangeiro forma vinte especialistas congoleses.
Se esses vinte apenas utilizarem aquilo que aprenderam, temos vinte profissionais.
Mas se cada um deles conseguir formar vinte novos profissionais, começamos a construir uma escola nacional.
O conhecimento multiplica-se.
É assim que transferência se transforma em ecossistema.
50. O PAPEL DO SGN-C DEPOIS DOS AVIÕES
Por isso, o papel do Service Géologique National du Congo não termina quando os levantamentos terminarem.
Na realidade, pode tornar-se ainda mais importante.
Porque alguém precisa:
guardar os dados;
validá-los;
interpretá-los;
atualizá-los;
cruzá-los com novos estudos;
garantir segurança;
administrar acessos;
transformá-los em conhecimento útil para o Estado.
O avião recolhe informação.
A instituição transforma essa informação em memória estratégica.
51. UM SERVIÇO GEOLÓGICO FORTE É UMA INSTITUIÇÃO DE SOBERANIA
Quando pensamos em soberania, imaginamos frequentemente exército, fronteiras, moeda ou governo.
Mas existem instituições menos visíveis que também são fundamentais.
Serviços geológicos são um exemplo.
Um Estado precisa saber:
que geologia possui;
que água subterrânea possui;
que riscos geológicos existem;
que recursos podem existir;
como o território está estruturado.
Sem conhecimento territorial, uma parte da soberania permanece praticamente cega.
52. OS DADOS NÃO DEVEM SER UMA CAIXA-PRETA
Outra pergunta essencial:
Em que formato os dados serão entregues?
Dados brutos?
Dados processados?
Modelos interpretados?
Metadados?
Documentação técnica?
Software necessário para leitura?
Protocolos?
Estas diferenças importam.
Receber apenas um produto final é diferente de possuir todo o percurso que permite compreender como esse produto foi produzido.
Um Estado deve evitar depender eternamente de uma caixa-preta tecnológica onde coloca dados de um lado e recebe resultados do outro sem dominar suficientemente o processo.
53. SOBERANIA DIGITAL E SOBERANIA MINERAL ENCONTRAM-SE
Hoje, geologia também é digital.
Grandes volumes de dados precisam ser armazenados.
Processados.
Visualizados.
Modelados.
Protegidos.
Isso significa que a soberania mineral está cada vez mais ligada à soberania digital.
Onde ficam os servidores?
Quem administra?
Que software é utilizado?
Existem licenças estrangeiras indispensáveis?
O país consegue abrir e processar os seus próprios dados sem depender continuamente de fornecedores externos?
Existe cópia segura dentro do território?
Quem possui acesso administrativo?
São questões que parecem informáticas.
Mas são também questões geopolíticas.
54. DADOS ESTRATÉGICOS EXIGEM GOVERNANÇA
Defender controlo africano dos dados não significa esconder toda a informação.
Ciência beneficia de partilha.
Investidores precisam de informação.
Universidades precisam de acesso.
Empresas precisam de determinados dados para avaliar projetos.
A questão é existir uma política clara.
Que dados são públicos?
Que dados são estratégicos?
Quem pode acessá-los?
Em que condições?
Que informação precisa ser protegida?
Que informação deve ser disponibilizada para estimular investigação?
Soberania não significa fechar.
Significa decidir.
55. NÃO ENTREGAR O FUTURO EM TROCA DO PRESENTE
Países ricos em recursos enfrentam frequentemente uma pressão enorme por receitas imediatas.
O governo precisa de dinheiro hoje.
A população precisa de emprego hoje.
Infraestruturas precisam ser construídas hoje.
Isso pode levar a decisões que privilegiam ganhos rápidos.
Mas minerais estratégicos obrigam a pensar em décadas.
Uma tonelada extraída hoje nunca poderá ser extraída novamente amanhã.
Portanto, cada tonelada deveria ajudar a construir alguma capacidade duradoura.
Escolas.
Hospitais.
Infraestruturas.
Indústria.
Ciência.
Tecnologia.
Capital humano.
56. TRANSFORMAR RECURSOS FINITOS EM CAPACIDADES RENOVÁVEIS
Este deveria ser um princípio fundamental.
MINERAIS SÃO FINITOS.
CONHECIMENTO PODE RENOVAR-SE.
Se utilizarmos riqueza mineral para construir conhecimento, transformamos algo que acaba em algo que pode continuar.
Uma mina pode funcionar vinte anos.
Uma universidade pode funcionar durante séculos.
Uma jazida pode esgotar-se.
Uma empresa tecnológica pode continuar inovando.
Um depósito mineral não se reproduz.
Conhecimento pode multiplicar-se de geração em geração.
57. O MAIOR ERRO SERIA REPETIR O MODELO EXTRATIVO COM TECNOLOGIA MAIS MODERNA
África não precisa simplesmente de minas mais modernas.
Precisa de economias mais complexas.
Podemos utilizar drones.
Inteligência artificial.
Satélites.
Sensores.
Máquinas automatizadas.
Mas se a estrutura continuar sendo:
EXTRAIR → EXPORTAR MATÉRIA-PRIMA → IMPORTAR PRODUTO CARO,
modernizámos a ferramenta sem transformar suficientemente a economia.
58. DO MAPA GEOLÓGICO AO PLANO INDUSTRIAL
Os dados produzidos pelo PC2G-RDC não deveriam servir apenas para descobrir novas oportunidades mineiras.
Também podem alimentar uma reflexão industrial.
Se sabemos melhor aquilo que possuímos, podemos perguntar:
Que indústrias podem ser desenvolvidas?
Que minerais podem ser processados localmente?
Que infraestruturas seriam necessárias?
Que competências precisam ser formadas?
Que energia seria necessária?
Que cadeias regionais poderiam ser criadas?
Que parcerias fariam sentido?
O mapa geológico pode tornar-se uma peça de um mapa industrial.
59. A DIFERENÇA ENTRE EXTRAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
Uma mina pode aumentar o PIB.
Mas desenvolvimento é mais complexo.
Precisamos observar:
emprego;
salários;
tributação;
fornecedores locais;
infraestrutura;
formação;
tecnologia;
encadeamentos industriais;
impacto ambiental;
transformação local;
capacidade institucional.
Uma economia pode extrair enormes quantidades de recursos e ainda apresentar fraca diversificação produtiva.
Por isso, mineração precisa ser instrumento de desenvolvimento, e não substituir o desenvolvimento.
60. O CONTEÚDO LOCAL PRECISA SER MAIS DO QUE RESTAURAÇÃO E TRANSPORTE
Quando grandes projetos anunciam “conteúdo local”, precisamos perguntar que conteúdo.
Às vezes, empresas locais ficam responsáveis por:
alimentação;
limpeza;
segurança;
transporte;
serviços básicos.
Essas atividades também geram empregos e são importantes.
Mas se toda a engenharia, tecnologia, análise, software, equipamentos e funções de maior valor permanecerem estrangeiras, a participação local fica concentrada nos níveis inferiores da cadeia.
Conteúdo local estratégico significa também:
ENGENHARIA LOCAL.
CIÊNCIA LOCAL.
SOFTWARE LOCAL.
GESTÃO TÉCNICA LOCAL.
FORNECEDORES TECNOLÓGICOS LOCAIS.
61. O CONGO PRECISA DE EMPRESAS CONGOLESAS QUE UM DIA POSSAM CONCORRER
Esta deveria ser uma ambição.
Não necessariamente amanhã.
Mas deve existir.
Empresas congolesas de:
geologia;
geofísica;
cartografia;
drones;
sensores;
dados;
software geocientífico;
engenharia mineira;
manutenção;
processamento mineral.
No início, serão pequenas.
Talvez trabalhem como subcontratadas.
Depois podem assumir projetos maiores.
Mais tarde podem competir regionalmente.
Finalmente podem exportar serviços.
62. COMPRAS PÚBLICAS PODEM CONSTRUIR INDÚSTRIA
O Estado é um comprador poderoso.
Quando contrata serviços, pode simplesmente comprar o produto mais conveniente.
Ou pode utilizar parte do poder de compra para desenvolver capacidade nacional, respeitando qualidade, segurança e eficiência.
Pode exigir:
participação local;
formação;
parcerias;
estágios;
fornecedores nacionais;
metas progressivas.
Isso precisa ser bem desenhado.
Proteção sem exigência pode criar empresas fracas.
Competição sem política industrial pode impedir empresas jovens de nascer.
É necessário equilíbrio.
63. NÃO PRECISAMOS INVENTAR TUDO DO ZERO
Autonomia não significa reinventar cada parafuso.
África pode comprar tecnologia.
Licenciar.
Fazer joint ventures.
Criar parcerias.
Adquirir empresas.
Investir em investigação conjunta.
Enviar estudantes.
Atrair diáspora.
Contratar especialistas.
A questão é utilizar todas essas ferramentas para construir capacidade interna.
64. A DIÁSPORA AFRICANA É TAMBÉM UMA RESERVA DE CONHECIMENTO
Milhares de cientistas, engenheiros e técnicos africanos trabalham no exterior.
Isso não precisa ser visto apenas como perda.
Pode tornar-se rede.
Programas de retorno temporário.
Investigação conjunta.
Mentoria.
Investimento.
Criação de empresas.
Ensino remoto.
Projetos universitários.
A diáspora pode funcionar como ponte tecnológica entre África e centros internacionais de conhecimento.
65. PAN-AFRICANISMO TAMBÉM É PARTILHAR LABORATÓRIOS
Pan-africanismo não pode viver apenas nos discursos sobre unidade.
Unidade precisa tornar-se infraestrutura.
Um país não possui determinado laboratório?
Pode utilizar um centro regional.
Outro possui experiência em determinada tecnologia?
Pode formar especialistas dos países vizinhos.
Outro desenvolveu software?
Pode adaptá-lo para utilização continental.
É assim que integração se torna material.
66. POR QUE CADA PAÍS PRECISA FAZER TUDO SOZINHO?
Não precisa.
Esse é precisamente um dos argumentos mais fortes para integração africana.
Algumas tecnologias exigem enormes investimentos.
Em vez de quarenta ou cinquenta países criarem estruturas duplicadas, certas capacidades podem ser regionais.
Centros africanos de excelência em:
geofísica;
sensores;
satélites;
inteligência artificial;
mineração;
metalurgia;
baterias;
energia;
engenharia.
Cada país participa.
Cada país forma especialistas.
Todos ganham escala.
67. A ZONA DE COMÉRCIO LIVRE PRECISA SER TAMBÉM UMA ZONA DE PRODUÇÃO
A integração comercial africana será limitada se servir apenas para circular produtos produzidos noutros continentes.
O objetivo maior precisa ser produzir mais dentro do continente.
Criar cadeias regionais.
Um país fornece matéria-prima.
Outro refina.
Outro fabrica componentes.
Outro monta produtos.
Outro desenvolve software.
Outro fornece financiamento.
Assim, o continente começa a funcionar como sistema económico integrado.
68. O COBALTO CONGOLÊS PODE ALIMENTAR UMA CADEIA AFRICANA
Em vez de imaginar que toda a cadeia precisa ficar exclusivamente dentro da RDC, podemos pensar continentalmente.
A RDC possui enorme capacidade mineral.
Outros países possuem diferentes capacidades industriais.
A integração pode permitir divisão estratégica do trabalho.
O objetivo não precisa ser:
“TUDO NO CONGO.”
Pode ser:
“UMA PARTE MUITO MAIOR DO VALOR EM ÁFRICA.”
69. SOBERANIA AFRICANA NÃO É ISOLAMENTO AFRICANO
Precisamos repetir isto porque é importante.
Não queremos construir muros em torno do continente.
Queremos negociar com o mundo.
Europa.
Ásia.
Américas.
Oriente Médio.
Todos.
Mas queremos negociar a partir de maior capacidade.
Parceria entre desiguais pode existir.
Mas quanto maior a capacidade africana, maior a possibilidade de negociar melhores condições.
70. QUEM PRECISA MAIS DE QUEM?
Existe uma narrativa segundo a qual África precisa do mundo.
É verdade.
África participa numa economia global e necessita de comércio, conhecimento, capital e tecnologia.
Mas o mundo também precisa de África.
Precisa de minerais.
Mercados.
Trabalhadores.
Energia.
Rotas.
Território.
Parcerias.
Essa interdependência deveria aumentar o poder negocial africano.
Mas recursos só se transformam em poder de negociação quando existe organização.
71. RECURSOS SEM ESTRATÉGIA PODEM SER UMA FRAQUEZA
Ter algo que todos desejam parece automaticamente uma vantagem.
Mas não necessariamente.
Se existem:
instituições fracas;
informação limitada;
corrupção;
divisão política;
falta de capacidade técnica;
dependência financeira;
um recurso estratégico pode atrair competição externa sem produzir desenvolvimento proporcional.
Portanto:
RECURSOS + INSTITUIÇÕES + CONHECIMENTO + ESTRATÉGIA = PODER.
Recursos sozinhos não bastam.
72. O MAPA NÃO DECIDE A POLÍTICA
O PC2G-RDC pode produzir excelentes mapas.
Mas mapas não tomam decisões.
Pessoas tomam.
Instituições tomam.
Governos tomam.
Portanto, melhorar conhecimento geológico precisa caminhar com melhor governação.
Transparência.
Capacidade regulatória.
Fiscalização.
Planeamento.
Combate à corrupção.
Proteção ambiental.
Participação das comunidades.
Caso contrário, podemos saber perfeitamente onde está a riqueza e continuar administrando-a mal.
73. AS COMUNIDADES NÃO PODEM SER INVISÍVEIS NO MAPA
Um mapa geofísico mostra características do subsolo.
Mas sobre esse subsolo vivem pessoas.
Existem aldeias.
Cidades.
Agricultura.
Rios.
Florestas.
História.
Cultura.
Territórios comunitários.
Qualquer estratégia mineral precisa lembrar que aquilo que aparece como “bloco”, “concessão” ou “anomalia” num computador corresponde a um espaço real habitado.
74. SOBERANIA MINERAL TAMBÉM É RESPONSABILIDADE
Defender que África controle os seus recursos não significa defender exploração sem limites.
Se uma empresa africana destruir um rio africano, o dano continua sendo africano.
Se um Estado africano deslocar injustamente comunidades africanas, a bandeira do responsável não torna a injustiça aceitável.
Afrocentrismo não pode significar substituir exploração estrangeira por exploração local.
Precisa significar colocar o desenvolvimento e a dignidade dos povos africanos no centro.
75. A QUESTÃO AMBIENTAL NÃO É UM LUXO EUROPEU
África sofrerá profundamente com degradação ambiental.
Água contaminada.
Solos degradados.
Desflorestação.
Poluição.
Perda de biodiversidade.
Doenças.
Portanto, exigir industrialização não significa abandonar proteção ambiental.
Significa desenvolver capacidade para explorar recursos com maior responsabilidade e transformar mais valor localmente.
76. TECNOLOGIA PODE REDUZIR IMPACTOS — SE A POSSUÍRMOS
Melhor conhecimento geológico pode permitir decisões mais precisas.
Tecnologia pode ajudar a monitorizar operações.
Satélites podem acompanhar desflorestação.
Sensores podem monitorizar água.
Drones podem fiscalizar áreas.
Dados podem aumentar transparência.
Mais uma vez, tecnologia não é apenas uma questão de produtividade.
Também é uma ferramenta de soberania ambiental.
77. QUEM CONTROLA A MEDIÇÃO CONTROLA PARTE DA VERDADE
Se apenas uma empresa possui os equipamentos para medir poluição, dependemos dela.
Se apenas uma empresa possui os modelos para avaliar reservas, dependemos dela.
Se apenas uma empresa possui os dados, dependemos dela.
Instituições públicas precisam possuir capacidade independente de verificar.
Porque regular aquilo que não conseguimos medir é extremamente difícil.
78. A CIÊNCIA É UMA INFRAESTRUTURA DE ESTADO
Estradas são infraestrutura.
Portos são infraestrutura.
Energia é infraestrutura.
Mas ciência também é infraestrutura.
Laboratórios.
Universidades.
Bases de dados.
Observatórios.
Centros de cálculo.
Serviços geológicos.
Institutos de metrologia.
Tudo isso sustenta um Estado moderno.
79. NÃO EXISTE INDUSTRIALIZAÇÃO SEM METROLOGIA E PADRÕES
Quando falamos de produzir tecnologia, esquecemos frequentemente elementos invisíveis.
Medição.
Calibração.
Certificação.
Normas.
Controle de qualidade.
Uma indústria sofisticada precisa saber medir com enorme precisão.
Portanto, transferência tecnológica precisa também construir essas capacidades.
80. O FUTURO SERÁ DECIDIDO TAMBÉM NOS LABORATÓRIOS
Durante muito tempo, imaginámos poder africano principalmente em termos políticos ou militares.
No século XXI, uma parte enorme do poder nasce em laboratórios.
Novos materiais.
Baterias.
Inteligência artificial.
Biotecnologia.
Semicondutores.
Energia.
Robótica.
Satélites.
O continente que apenas fornece os minerais para esses laboratórios continuará ocupando uma posição inferior na cadeia.
81. DO COBALTO À PATENTE
Existe uma longa distância económica entre uma tonelada de minério e uma patente tecnológica.
O minério possui valor.
Mas uma tecnologia protegida por propriedade intelectual pode gerar receitas repetidamente.
É por isso que economias baseadas em conhecimento conseguem capturar enorme valor sem necessariamente possuir todos os recursos naturais utilizados nos produtos.
África precisa aprender esta lição.
82. A PROPRIEDADE INTELECTUAL TAMBÉM É PODER
Patentes.
Software.
Desenhos industriais.
Processos.
Algoritmos.
Marcas.
Estas são formas de propriedade que não ficam debaixo da terra.
Mas podem valer fortunas.
Uma política africana de recursos precisa ligar mineração a investigação.
Não basta perguntar:
“Quanto minério exportámos?”
Também:
“Quantas tecnologias desenvolvemos a partir dele?”
83. UNIVERSIDADES NÃO PODEM SER ILHAS
A investigação precisa dialogar com indústria.
Estudantes de geologia precisam trabalhar com dados reais.
Engenheiros precisam resolver problemas reais.
Empresas precisam financiar investigação.
O Estado precisa criar missões tecnológicas.
Quando universidade, Estado e indústria trabalham completamente separados, conhecimento demora mais a transformar-se em capacidade produtiva.
84. O PC2G-RDC PODE SER UMA SALA DE AULA GIGANTE
Imagine oito aeronaves operando durante 36 meses.
Isso representa uma oportunidade extraordinária de aprendizagem.
Cada fase pode ser utilizada pedagogicamente:
planeamento de voo;
instalação de sensores;
calibração;
aquisição de dados;
controle de qualidade;
processamento;
modelação;
interpretação;
gestão de bases de dados.
Se estudantes e técnicos congoleses participarem profundamente, o próprio projeto torna-se uma escola prática.
85. DOCUMENTAR É TRANSFERIR
Todo conhecimento adquirido deveria ser documentado.
Em francês.
Quando apropriado, também em línguas nacionais para materiais de divulgação e educação.
Manuais.
Cursos.
Vídeos.
Procedimentos.
Casos de estudo.
Bases de exercícios.
Assim, a experiência não desaparece quando o projeto termina.
86. A FORMAÇÃO PRECISA SER MEDIDA
Não basta dizer:
“Formámos técnicos.”
Quantos?
Em quê?
Durante quanto tempo?
Que competências adquiriram?
Foram avaliados?
Conseguem trabalhar autonomamente?
Quantos continuam empregados depois?
Estas informações deveriam fazer parte da avaliação pública do projeto.
87. METAS DE TRANSFERÊNCIA SÃO TÃO IMPORTANTES COMO METAS DE CARTOGRAFIA
Se existe uma meta de cobertura territorial, também poderiam existir metas de capacidade humana.
Por exemplo, sem afirmar que estas sejam metas atuais do PC2G-RDC:
número de geólogos formados;
número de técnicos certificados;
número de estudantes envolvidos;
número de formadores nacionais;
número de laboratórios equipados;
número de projetos de investigação derivados.
Aquilo que medimos torna-se mais fácil de acompanhar.
88. O CONTRATO TERMINA. A POLÍTICA NÃO.
Trinta e seis meses passam rapidamente.
Mas uma política geocientífica nacional precisa durar décadas.
Quando este programa terminar, deveria existir imediatamente uma fase seguinte.
Atualização.
Investigação.
Exploração científica.
Formação.
Desenvolvimento tecnológico.
Caso contrário, existe o risco de produzir uma fotografia geológica extraordinária e depois deixá-la envelhecer.
89. O CONHECIMENTO GEOLÓGICO PRECISA SER ATUALIZADO
Ciência não termina num mapa.
Novos dados aparecem.
Novas técnicas são desenvolvidas.
Novos minerais tornam-se estratégicos.
Novos modelos são construídos.
Portanto, capacidade nacional significa conseguir continuar o trabalho.
90. DEPOIS DE 36 MESES, QUEM LEVANTA O PRÓXIMO AVIÃO?
Esta é uma pergunta simbólica.
Não significa que todos os aviões precisem ser congoleses imediatamente.
Significa:
Quem planeia a próxima campanha?
Quem define os parâmetros?
Quem supervisiona?
Quem interpreta?
Quem controla os dados?
Qual percentagem do trabalho consegue ser realizada por especialistas nacionais?
Se essa percentagem aumentar progressivamente, existe aprendizagem.
91. E DEPOIS DE DEZ ANOS?
A visão precisa ir além do contrato.
Imaginemos 2036.
O Congo poderia possuir:
um SGN-C tecnologicamente muito mais forte;
centenas de especialistas formados;
centros universitários de geofísica;
empresas congolesas especializadas;
infraestrutura nacional de dados geológicos;
laboratórios;
programas de investigação;
capacidade regional de prestação de serviços.
Isso não acontecerá automaticamente.
Precisa ser objetivo.
92. E SE O CONGO UM DIA CARTOGRAFAR OUTROS PAÍSES?
Essa seria uma mudança histórica interessante.
Hoje, uma empresa espanhola participa na cartografia do Congo.
Amanhã, por que não uma empresa congolesa ganhar um contrato para cartografar território noutro continente?
Parece distante?
Todas as grandes empresas tecnológicas começaram em algum momento.
A diferença é existir ambição acompanhada de investimento.
93. ÁFRICA PRECISA PASSAR DE MERCADO PARA PRODUTOR
O continente é frequentemente apresentado como “o próximo grande mercado”.
Mas ser mercado significa que alguém quer vender-nos alguma coisa.
A ambição deve ser maior.
ÁFRICA COMO PRODUTORA.
ÁFRICA COMO INVENTORA.
ÁFRICA COMO EXPORTADORA DE TECNOLOGIA.
ÁFRICA COMO PROPRIETÁRIA DE EMPRESAS GLOBAIS.
94. A JUVENTUDE NÃO PRECISA APENAS DE EMPREGOS — PRECISA DE SETORES
Criar mil empregos num projeto é positivo.
Criar um setor económico capaz de empregar milhares de pessoas durante décadas é muito mais poderoso.
Por isso, cada grande projeto deveria perguntar:
Que setor local pode nascer daqui?
95. UMA CAMPANHA GEOFÍSICA PODE GERAR UM ECOSSISTEMA
Aviação especializada.
Manutenção.
Eletrónica.
Software.
Geologia.
Geofísica.
Cartografia.
Drones.
Inteligência artificial.
Armazenamento de dados.
Cibersegurança.
Formação.
Investigação.
Existe uma cadeia inteira em torno de um projeto que, à primeira vista, parece apenas “oito aviões a mapear o território”.
96. O DINHEIRO AFRICANO PRECISA FINANCIAR CAPACIDADE AFRICANA
Se instituições africanas financiam grandes projetos, uma parte estratégica desse dinheiro deveria ajudar a desenvolver empresas e competências africanas.
Não significa excluir empresas internacionais.
Significa utilizar cada despesa também como oportunidade de aprendizagem.
97. O CAPITAL TAMBÉM PRECISA SER DESCOLONIZADO
Uma empresa tecnológica precisa de financiamento.
Equipamentos são caros.
Investigação é cara.
Certificação é cara.
Entrar num mercado dominado por empresas experientes é difícil.
Sem capital paciente, empresas africanas podem nunca passar da fase inicial.
Fundos soberanos.
Bancos de desenvolvimento.
Fundos mineiros.
Mercados de capitais.
Investidores privados.
Todos podem desempenhar um papel.
98. NÃO EXISTE SOBERANIA TECNOLÓGICA SEM ASSUMIR RISCO
Investir em tecnologia significa aceitar que alguns projetos falharão.
Se financiarmos apenas aquilo que já funciona perfeitamente, nunca criaremos algo novo.
Países tecnologicamente avançados investiram enormes quantidades em investigação cujos resultados não eram garantidos.
África precisa também criar espaço para experimentação.
99. A CIÊNCIA NÃO PODE DEPENDER APENAS DO RETORNO IMEDIATO
Um laboratório pode levar anos para produzir retorno económico.
Uma universidade pode formar pessoas durante décadas antes de uma inovação revolucionária aparecer.
Políticas públicas precisam compreender horizontes longos.
Minerais podem financiar precisamente esse tipo de investimento.
100. CHEGAMOS À QUESTÃO CENTRAL
Depois de cem pontos de reflexão, podemos resumir o problema numa frase:
A VERDADEIRA RIQUEZA NÃO É APENAS AQUILO QUE ESTÁ DEBAIXO DA TERRA.
É A CAPACIDADE DE UM POVO COMPREENDER, TRANSFORMAR E UTILIZAR ESSA RIQUEZA PARA CONSTRUIR O SEU PRÓPRIO FUTURO.
O PC2G-RDC importa porque aumenta conhecimento sobre o subsolo.
Mas o seu legado histórico dependerá também do conhecimento que deixar acima do solo.
101. A TRANSFERÊNCIA TECNOLÓGICA PRECISA TER UM DESTINO
Transferir para quê?
Para que o Congo possa contratar menos capacidade externa no futuro.
Para que possa negociar melhor.
Para que possa formar outros africanos.
Para que possa criar empresas.
Para que possa inovar.
Para que possa transformar recursos em indústria.
Esse é o destino.
102. NÃO QUEREMOS TROCAR UMA DEPENDÊNCIA POR OUTRA
Existe um risco importante no debate contemporâneo africano.
Criticar dependência de antigos parceiros e simplesmente substituí-los por novos parceiros.
Mudar Europa por China.
China por Estados Unidos.
Estados Unidos por Rússia.
Ou qualquer outra combinação.
Isso pode alterar relações geopolíticas.
Mas não necessariamente altera a estrutura de dependência.
A pergunta não é apenas:
“COM QUEM TRABALHAMOS?”
É:
“O QUE APRENDEMOS, CONTROLAMOS E PRODUZIMOS DEPOIS DA PARCERIA?”
103. MULTIPOLARIDADE SÓ AJUDA SE ÁFRICA SOUBER NEGOCIAR
Um mundo com vários centros de poder pode aumentar opções africanas.
Mais parceiros podem significar mais concorrência.
Mais financiamento.
Mais possibilidades.
Mas possuir opções não garante bons resultados.
É preciso estratégia continental e nacional para utilizar essa competição em benefício próprio.
104. O MELHOR PARCEIRO É AQUELE QUE AJUDA A REDUZIR A NECESSIDADE DE DEPENDER DELE
Este princípio deveria orientar muitas negociações tecnológicas.
Uma parceria verdadeiramente transformadora deixa capacidade.
Uma relação puramente dependente deixa uma fatura para o próximo contrato.
105. ÁFRICA PRECISA NEGOCIAR CONHECIMENTO
Durante décadas, negociações concentraram-se em:
royalties;
impostos;
participações;
empregos;
infraestrutura.
Tudo isso continua importante.
Mas precisamos acrescentar:
CONHECIMENTO.
FORMAÇÃO.
PATENTES.
INVESTIGAÇÃO.
DADOS.
TECNOLOGIA.
CAPACIDADE INDUSTRIAL.
106. CADA CONTRATO ESTRATÉGICO DEVERIA TER UMA PERGUNTA
“O QUE O NOSSO PAÍS SABERÁ FAZER DEPOIS DESTE CONTRATO QUE NÃO SABIA FAZER ANTES?”
Se a resposta for “nada”, perdemos uma oportunidade.
Se a resposta for significativa, começamos a transformar contratos em instrumentos de desenvolvimento.
107. A SOBERANIA NÃO SIGNIFICA FAZER TUDO SOZINHO
Voltamos a esta ideia porque ela protege a análise contra simplificações.
Nem Espanha faz tudo sozinha.
Nem China.
Nem Estados Unidos.
Nem Japão.
Cadeias tecnológicas são internacionais.
Soberania significa possuir capacidades suficientes para não estar completamente vulnerável à decisão de outros.
108. INTERDEPENDÊNCIA É DIFERENTE DE DEPENDÊNCIA
INTERDEPENDÊNCIA:
eu preciso de ti e tu precisas de mim.
DEPENDÊNCIA:
eu preciso de ti muito mais do que tu precisas de mim.
A política económica africana precisa transformar relações de dependência em relações de interdependência cada vez mais equilibradas.
109. COMO AUMENTAR ESSA INTERDEPENDÊNCIA?
Produzindo aquilo que outros precisam.
Não apenas minerais.
Também:
tecnologia;
serviços;
conhecimento;
produtos industriais;
software;
engenharia;
propriedade intelectual.
Quanto mais África oferece ao mundo para além da matéria-prima, maior o seu poder económico.
110. O CONGO POSSUI UMA OPORTUNIDADE HISTÓRICA
A transição energética mundial aumentou atenção sobre determinados minerais.
Isso cria riscos.
Mas também cria oportunidades.
O Congo pode simplesmente aumentar extração.
Ou pode utilizar esta conjuntura para exigir e construir mais transformação, formação, infraestrutura e indústria.
A janela não ficará aberta para sempre.
111. TECNOLOGIAS MUDAM
Hoje determinado mineral é estratégico.
Amanhã uma nova química pode reduzir a sua importância.
É outro motivo para não depender eternamente da exportação de uma matéria-prima.
Conhecimento adapta-se.
Uma economia diversificada adapta-se.
Uma economia dependente de um único recurso sofre mais quando a tecnologia muda.
112. INDUSTRIALIZAR É TAMBÉM PREPARAR O PÓS-MINÉRIO
Um dia determinadas minas fecharão.
O que existirá depois?
Se existirem apenas buracos no solo, o modelo falhou.
Se existirem cidades, universidades, empresas, infraestrutura, especialistas e indústria, parte da riqueza mineral terá sido convertida em desenvolvimento duradouro.
113. O VERDADEIRO FUNDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS
Voltemos ao nome FOMIN.
Gerações futuras.
O melhor presente para uma geração futura não é apenas uma conta bancária.
É também capacidade.
Uma criança congolesa que hoje entra na escola pode, daqui a vinte anos, ser engenheira de uma empresa tecnológica congolesa criada a partir das competências acumuladas por projetos como este.
Isso é transformar mineração em futuro.
114. AFROCENTRISMO É COLOCAR O INTERESSE AFRICANO NO CENTRO DA ANÁLISE
Uma leitura afrocentrada não significa negar conhecimento produzido fora de África.
Não significa odiar estrangeiros.
Não significa afirmar que tudo aquilo que vem de fora é mau.
Significa começar a pergunta a partir do interesse dos povos africanos.
Este contrato fortalece capacidade africana?
Este investimento cria valor africano?
Esta tecnologia produz aprendizagem africana?
Este recurso melhora a vida africana?
Esta parceria aumenta autonomia?
É esse o centro.
115. O CRITÉRIO NÃO É A COR DE QUEM EXPLORA
Se amanhã uma empresa africana explorar trabalhadores africanos, destruir comunidades e retirar riqueza sem produzir desenvolvimento, isso não se torna aceitável por ser africana.
O objetivo não é apenas africanizar os proprietários.
É transformar a estrutura.
116. SOBERANIA PARA QUEM?
Também precisamos fazer uma pergunta incómoda.
Quando dizemos:
“O Congo deve controlar os seus recursos”,
quem é “o Congo”?
O governo?
As elites?
As empresas?
Ou o povo?
Soberania nacional sem benefício social pode transformar-se apenas em concentração interna de poder.
117. A RIQUEZA PRECISA CHEGAR À POPULAÇÃO
Escolas.
Hospitais.
Água.
Energia.
Habitação.
Transportes.
Emprego.
Formação.
Segurança.
O objetivo final da soberania económica não é possuir estatísticas bonitas.
É melhorar vidas.
118. TECNOLOGIA AFRICANA SEM JUSTIÇA SOCIAL NÃO É SUFICIENTE
Podemos imaginar uma África tecnologicamente poderosa e profundamente desigual.
Isso também não deveria ser o objetivo.
Desenvolvimento precisa combinar capacidade produtiva com dignidade humana.
119. O POVO PRECISA COMPREENDER O QUE ESTÁ A SER FEITO
Projetos científicos desta dimensão não deveriam permanecer incompreensíveis para a população.
Comunicação pública importa.
Explicar:
o que os aviões estão a medir;
o que podem descobrir;
o que não podem afirmar;
quanto tempo levará;
como os dados serão usados.
Isso reduz rumores e aumenta literacia científica.
120. A CIÊNCIA TAMBÉM PRECISA FALAR LÍNGUAS AFRICANAS
Se todo o conhecimento técnico existir apenas em línguas herdadas da administração colonial, uma barreira permanece.
Não significa abandonar francês, inglês ou português, que são úteis na ciência internacional.
Significa também desenvolver terminologia científica nas línguas africanas.
Um continente torna o conhecimento verdadeiramente seu quando consegue ensiná-lo, discuti-lo e recriá-lo através das suas próprias realidades linguísticas.
121. DESCOLONIZAR O CONHECIMENTO NÃO SIGNIFICA REJEITAR A CIÊNCIA
Pelo contrário.
Significa apropriar-se dela.
Aprender.
Questionar.
Produzir.
Contribuir.
A ciência não pertence a um continente.
Mas a capacidade científica está distribuída de maneira profundamente desigual.
É essa desigualdade que precisamos combater.
122. UM JOVEM CONGOLÊS DEVE PODER OLHAR PARA ESSES AVIÕES E VER UMA PROFISSÃO
Não apenas uma máquina estrangeira.
Deve poder pensar:
“Eu posso ser geofísico.”
“Eu posso ser engenheiro aeronáutico.”
“Eu posso desenvolver sensores.”
“Eu posso programar sistemas de processamento.”
“Eu posso criar uma empresa.”
“Eu posso ensinar isto.”
Esse imaginário também é desenvolvimento.
123. REPRESENTAÇÃO CIENTÍFICA IMPORTA
Quando jovens africanos veem apenas especialistas estrangeiros associados à alta tecnologia, uma mensagem silenciosa pode ser transmitida:
“A tecnologia vem de fora.”
Precisamos quebrar essa associação.
Tecnologia também pode nascer em Kinshasa.
Lubumbashi.
Dakar.
Accra.
Nairobi.
Lagos.
Kigali.
Luanda.
Praia.
Maputo.
Joanesburgo.
Adis Abeba.
Cairo.
E em qualquer outro lugar onde conhecimento receba investimento.
124. NÃO EXISTE INCAPACIDADE AFRICANA NATURAL
Existe história.
Existe desigualdade de investimento.
Existe acesso desigual a capital.
Existe infraestrutura insuficiente.
Existem sistemas educacionais com dificuldades.
Existem escolhas políticas.
Nada disso é biologia.
Nada disso é destino.
Capacidade constrói-se.
125. O EXEMPLO DE OUTRAS REGIÕES MOSTRA ISSO
Países que hoje exportam tecnologia foram, em diferentes momentos, importadores.
Aprenderam.
Adaptaram.
Investiram.
Criaram empresas.
Formaram engenheiros.
Desenvolveram universidades.
O estatuto de importador de tecnologia não precisa ser permanente.
126. A PERGUNTA É SE EXISTE VONTADE DE MUDAR DE POSIÇÃO
Se aceitarmos eternamente:
“Nós temos minerais, eles têm tecnologia”,
transformamos uma situação histórica numa suposta lei natural.
Não existe razão para essa divisão ser eterna.
127. A TECNOLOGIA DE AMANHÃ PODE SER AFRICANA
Mas não será porque escrevemos essa frase.
Será porque investimos hoje.
Em crianças.
Escolas.
Matemática.
Ciências.
Universidades.
Investigação.
Empresas.
Laboratórios.
Capital.
Infraestrutura.
128. OS 36 MESES DEVEM SER O COMEÇO, NÃO O FIM
Quando o último voo do PC2G-RDC pousar, a história não deveria terminar.
Deveria começar outra etapa.
Dados transformados em investigação.
Investigação em conhecimento.
Conhecimento em política.
Política em indústria.
Indústria em emprego.
Emprego em desenvolvimento.
Desenvolvimento em maior soberania.
129. O INDICADOR MAIS IMPORTANTE
Talvez daqui a alguns anos devamos perguntar apenas isto:
“SE AMANHÃ O CONGO PRECISAR DE FAZER UMA NOVA CAMPANHA, CONSEGUE FAZER MAIS POR SI PRÓPRIO DO QUE CONSEGUIA EM 2026?”
Se sim, houve progresso de capacidade.
Se não, precisamos perguntar porquê.
130. E DEPOIS FAZER A MESMA PERGUNTA EM 2036
Porque soberania é progressiva.
2026:
determinada capacidade.
2030:
mais.
2036:
muito mais.
2046:
talvez empresas congolesas entre as referências internacionais do setor.
Nada impede isso exceto ausência de estratégia, investimento e continuidade.
131. UM PROJETO PODE SER UMA SEMENTE
Talvez seja essa a melhor maneira de olhar para o PC2G-RDC.
Não como solução final.
Como semente.
O mapa é uma semente.
Os dados são sementes.
A formação é uma semente.
A experiência é uma semente.
Mas sementes precisam de solo institucional.
Financiamento.
Continuidade.
Caso contrário, não crescem.
132. O QUE NÃO DEVEMOS FAZER
Não devemos transformar este projeto em propaganda cega.
Também não devemos transformá-lo automaticamente numa narrativa de exploração estrangeira.
Ambas as posições seriam demasiado simples.
A realidade é mais interessante.
Existe uma iniciativa congolesa importante.
Existe financiamento congolês.
Existe coordenação institucional congolesa.
Existe uma empresa estrangeira altamente especializada.
Existe formação prevista.
Existe uma oportunidade de transferência de competências.
E existe uma questão estrutural maior sobre dependência tecnológica africana.
Podemos reconhecer tudo ao mesmo tempo.
133. CRÍTICA NÃO SIGNIFICA DESTRUIR O PROJETO
Criticar pode significar exigir que ele seja ainda melhor.
Mais formação.
Mais transparência.
Mais participação local.
Mais conhecimento retido.
Mais integração universitária.
Mais capacidade futura.
Essa é uma crítica construtiva e afrocentrada.
134. NÃO PERGUNTAMOS “POR QUE CONTRATARAM?”
PERGUNTAMOS:
“O QUE O CONGO VAI CONSTRUIR A PARTIR DAQUILO QUE CONTRATOU?”
Esta é uma pergunta muito mais poderosa.
135. A EMPRESA ESTRANGEIRA DEVE SER UMA PONTE, NÃO UMA MULETA PERMANENTE
Uma ponte permite atravessar.
Uma muleta permanente significa que nunca recuperámos capacidade suficiente para caminhar.
A cooperação tecnológica ideal deve ajudar o parceiro local a avançar.
136. O OBJETIVO NÃO É ZERO EMPRESAS ESTRANGEIRAS
Mesmo uma África industrializada continuará trabalhando com empresas estrangeiras.
Assim funciona a economia mundial.
O objetivo é outra coisa:
CAPACIDADE AFRICANA SUFICIENTE PARA ESCOLHER.
Escolher quando contratar.
Escolher com quem.
Escolher em que condições.
Escolher o que fazer internamente.
Escolher aquilo que é estratégico manter sob controlo nacional ou continental.
ISSO É PODER.
137. QUANDO NÃO TEMOS ALTERNATIVA, NÃO NEGOCIAMOS DA MESMA FORMA
Se existe apenas uma empresa capaz de fazer aquilo de que precisamos, o nosso poder é limitado.
Se possuímos capacidade interna e várias alternativas externas, negociamos de maneira diferente.
Capacidade tecnológica também é poder negocial.
138. O CONHECIMENTO REDUZ ASSIMETRIA
Imagine uma negociação mineira onde apenas o investidor possui especialistas capazes de avaliar os dados.
Agora imagine outra onde o Estado possui equipas igualmente qualificadas.
A conversa muda.
É por isso que formação não é apenas educação.
É poder económico.
139. CADA GEOLOGISTA FORMADO AUMENTA CAPACIDADE NACIONAL
Cada engenheiro.
Cada técnico.
Cada cientista de dados.
Cada investigador.
Mas apenas se existirem instituições capazes de utilizar essa competência.
140. O OBJETIVO FINAL É UM ECOSSISTEMA
Não apenas indivíduos.
Não apenas um ministério.
Não apenas uma empresa.
Um ecossistema:
ESTADO.
UNIVERSIDADES.
EMPRESAS.
CENTROS DE INVESTIGAÇÃO.
CAPITAL.
TRABALHADORES.
DIÁSPORA.
PARCEIROS INTERNACIONAIS.
Todos conectados a uma estratégia.
141. A ÁFRICA DO FUTURO NÃO DEVE ESCONDER-SE DO MUNDO
Deve entrar no mundo com mais força.
Não pedir isolamento.
Pedir capacidade.
Não rejeitar tecnologia estrangeira.
Aprendê-la e superá-la quando possível.
Não rejeitar investimento.
Negociá-lo.
Não rejeitar comércio.
Subir na cadeia de valor.
142. A SOBERANIA MAIS FORTE É AQUELA QUE NÃO PRECISA GRITAR
Quando um país possui engenheiros, empresas, capital, instituições e tecnologia, não precisa repetir diariamente que é soberano.
A capacidade demonstra.
143. DO SLOGAN À FÁBRICA
“ÁFRICA PARA OS AFRICANOS” pode ser um poderoso princípio político e histórico.
Mas economicamente precisa traduzir-se em:
fábricas;
laboratórios;
universidades;
bancos;
empresas;
infraestrutura;
investigação;
tecnologia.
Caso contrário, fica apenas no discurso.
144. MARCUS GARVEY E A CAPACIDADE ECONÓMICA
Uma das dimensões mais fortes do pensamento de Marcus Garvey foi a importância atribuída à organização económica e à capacidade de um povo construir instituições próprias.
Transportada para o presente, essa lógica obriga-nos a pensar para além da propriedade simbólica.
Não basta dizer:
“O cobalto é nosso.”
Precisamos poder dizer:
“O conhecimento também.”
“A engenharia também.”
“A empresa também.”
“A patente também.”
“A fábrica também.”
“O produto final também.”
145. CABRAL E A REALIDADE CONCRETA
Amílcar Cabral insistia na necessidade de partir da realidade concreta.
A realidade concreta de 2026 é esta:
a RDC possui enorme riqueza mineral.
Está a investir num programa importante para melhorar conhecimento geocientífico.
Uma empresa espanhola possui capacidade especializada necessária à execução.
O programa prevê formação e transferência de competências.
Portanto, a tarefa não é inventar uma realidade que ainda não existe.
É transformar a realidade existente.
146. FANON E A RESPONSABILIDADE DA GERAÇÃO
Cada geração recebe determinadas condições.
Não escolhe completamente o mundo que herda.
Mas escolhe aquilo que tenta construir com ele.
Esta geração africana herdou fronteiras, economias, instituições e relações internacionais moldadas por uma história complexa.
A questão não é passar a eternidade descrevendo a herança.
É transformá-la.
147. NÃO ESQUECER O PASSADO — MAS CONSTRUIR O FUTURO
Conhecer colonialismo é necessário para compreender estruturas atuais.
Mas memória sem projeto transforma-se em prisão.
A história deve explicar.
Depois precisa orientar ação.
Se sabemos como dependências foram construídas, podemos pensar como desmontá-las.
148. A DESCOLONIZAÇÃO DO SÉCULO XXI SERÁ TAMBÉM TECNOLÓGICA
No século XX, a grande batalha era soberania política formal.
No século XXI, existem novas fronteiras:
dados.
tecnologia.
finanças.
energia.
informação.
inteligência artificial.
propriedade intelectual.
Quem depende completamente dos outros nessas áreas possui uma soberania limitada na prática.
149. O PC2G-RDC É PEQUENO PERANTE ESSA QUESTÃO — E AO MESMO TEMPO SIMBÓLICO
São oito aviões.
Trinta e seis meses.
Um programa geofísico.
Mas dentro dele existe uma pergunta continental:
ÁFRICA SERÁ APENAS O TERRITÓRIO ONDE A TECNOLOGIA É APLICADA OU TAMBÉM O LUGAR ONDE A TECNOLOGIA É CRIADA?
150. A RESPOSTA AINDA ESTÁ A SER ESCRITA
Não existe destino inevitável.
Podemos continuar exportando matéria-prima durante mais cem anos.
Ou podemos utilizar recursos atuais para financiar uma transformação.
A escolha é política.
Económica.
Educacional.
Científica.
151. O QUE DEVEMOS OBSERVAR DURANTE OS 36 MESES
A população, jornalistas, investigadores e instituições deveriam acompanhar:
execução dos levantamentos;
qualidade dos dados;
formação realizada;
participação congolesa;
integração universitária;
gestão dos dados;
resultados científicos;
utilização futura.
Não para atacar o projeto.
Para garantir que o seu potencial seja aproveitado.
152. TRANSPARÊNCIA PROTEGE O PRÓPRIO PROJETO
Quanto mais informações públicas existirem sobre resultados, formação e capacidade criada, mais fácil será avaliar sucesso.
Transparência permite distinguir crítica séria de rumores.
153. NÃO CONFUNDIR SEGREDO COM SOBERANIA
Alguns dados podem precisar de proteção.
Mas esconder tudo da sociedade também pode favorecer má gestão.
É necessário equilíbrio entre segurança estratégica e prestação de contas.
154. CONHECIMENTO PÚBLICO PODE CRIAR EMPRESAS
Quando dados adequados são disponibilizados de maneira organizada, investigadores e empresas podem desenvolver novos serviços.
Mapas.
Modelos.
Software.
Aplicações.
Análises.
Isso pode estimular inovação.
155. UMA BASE DE DADOS PODE VALER MAIS DO QUE PARECE
Décadas de informação geológica organizada constituem um ativo nacional.
É conhecimento acumulado.
Uma empresa pode desaparecer.
Um contrato pode terminar.
Uma base científica bem administrada permanece.
156. O ESTADO PRECISA SABER MAIS DO QUE O INVESTIDOR SOBRE O SEU PRÓPRIO TERRITÓRIO
Talvez este seja um dos objetivos mais importantes.
Não necessariamente saber tudo.
Mas possuir capacidade suficiente para verificar aquilo que lhe é apresentado.
Um Estado que depende integralmente dos estudos do próprio investidor enfrenta uma assimetria evidente.
157. INFORMAÇÃO INDEPENDENTE MELHORA NEGOCIAÇÃO
Se o Estado possui dados próprios, pode comparar propostas.
Questionar avaliações.
Definir prioridades.
Isso não elimina conflitos de interesse.
Mas aumenta capacidade.
158. É POR ISSO QUE O PC2G-RDC PODE SER ESTRATÉGICO
Não apenas porque poderá indicar novas áreas interessantes.
Mas porque pode fortalecer a base informacional do Estado.
O desafio é garantir que essa base se transforme em capacidade permanente.
159. A TRANSFERÊNCIA DE COMPETÊNCIAS É O PRIMEIRO PASSO
Devemos reconhecer aquilo que está previsto.
Formação e transferência de competências são positivas.
Não precisamos diminuir isso para fazer uma crítica estrutural.
Pelo contrário.
Precisamos defender que sejam profundas, mensuráveis e continuadas.
160. TRANSFERÊNCIA TECNOLÓGICA PROFUNDA É O PASSO SEGUINTE
E aqui precisamos manter precisão.
Não devemos afirmar, sem documentação, que tecnologias proprietárias da empresa serão integralmente transferidas.
Mas podemos defender uma política que procure avançar progressivamente para:
engenharia local;
manutenção;
desenvolvimento de sistemas;
software;
investigação;
produção.
Esse é o horizonte.
161. DE APRENDIZ PARA PARCEIRO
Primeiro aprendemos.
Depois participamos.
Depois cocriamos.
Depois competimos.
Depois também ensinamos.
Esta deveria ser a trajetória.
162. QUANDO UM CONGOLÊS ENSINAR OUTRO PAÍS A FAZER GEOFÍSICA AÉREA
Nesse dia, alguma coisa terá mudado profundamente.
O conhecimento deixou de circular apenas numa direção.
163. QUANDO UMA EMPRESA AFRICANA VENDER TECNOLOGIA À EUROPA
Nesse dia, teremos outro símbolo.
Não porque vender à Europa seja o objetivo supremo.
Mas porque demonstrará capacidade competitiva internacional.
164. A SOBERANIA NÃO É CONTRA NINGUÉM
É a favor da capacidade de decidir.
Esta distinção importa.
Construir tecnologia africana não exige desejar a queda da tecnologia europeia, asiática ou americana.
O conhecimento humano pode crescer em vários lugares simultaneamente.
165. ÁFRICA NÃO PRECISA DE UM MUNDO MAIS FRACO
PRECISA DE UMA ÁFRICA MAIS FORTE.
166. E FORÇA NO SÉCULO XXI SIGNIFICA CONHECIMENTO
Não apenas armas.
Não apenas recursos.
Conhecimento.
Instituições.
Tecnologia.
Economia produtiva.
Coesão social.
167. A PEDRA DEBAIXO DA TERRA NÃO SABE QUE É VALIOSA
Nós atribuímos valor através de conhecimento e utilização.
Sem ciência, uma rocha pode permanecer apenas rocha.
Com conhecimento, pode tornar-se matéria-prima.
Com indústria, componente.
Com tecnologia, produto.
Com inovação, uma nova economia.
168. É POR ISSO QUE CONHECIMENTO VALE MAIS DO QUE A PEDRA
A pedra acaba.
A capacidade de transformar diferentes pedras continua.
169. O CONGO PRECISA POSSUIR AMBOS
Recursos.
E conhecimento.
Essa combinação é muito mais poderosa.
170. ÁFRICA PRECISA POSSUIR AMBOS
Porque a questão congolesa é também continental.
171. A ÚLTIMA PERGUNTA SOBRE A XCALIBUR
Não deveria ser:
“Por que uma empresa espanhola?”
Deveria ser:
“O QUE CONSEGUIREMOS FAZER MELHOR QUANDO ESSA EMPRESA TERMINAR O SEU TRABALHO?”
Essa pergunta transforma crítica em estratégia.
172. SE O CONGO SAIR MAIS FORTE, HOUVE GANHO
Se possuir mais dados.
Mais especialistas.
Mais experiência.
Mais capacidade institucional.
Melhor negociação.
Então o projeto produziu algo além dos mapas.
173. SE TUDO CONTINUAR IGUAL, A OPORTUNIDADE TERÁ SIDO PARCIALMENTE PERDIDA
Porque três anos de operação especializada deveriam deixar aprendizagem.
174. POR ISSO DEVEMOS ACOMPANHAR, NÃO APENAS CELEBRAR
Celebrar o lançamento é fácil.
Avaliar o legado é mais importante.
175. O AVIÃO É TEMPORÁRIO
O CONHECIMENTO DEVE SER PERMANENTE.
176. O CONTRATO É TEMPORÁRIO
A CAPACIDADE DEVE SER PERMANENTE.
177. A MINA É TEMPORÁRIA
A INDÚSTRIA PODE CONTINUAR.
178. O MINERAL É FINITO
O CONHECIMENTO PODE MULTIPLICAR-SE.
179. ESSA É A TRANSFORMAÇÃO QUE IMPORTA
Converter:
MINERAL → CAPITAL.
CAPITAL → EDUCAÇÃO.
EDUCAÇÃO → CONHECIMENTO.
CONHECIMENTO → TECNOLOGIA.
TECNOLOGIA → INDÚSTRIA.
INDÚSTRIA → EMPREGO.
EMPREGO → DESENVOLVIMENTO.
DESENVOLVIMENTO → MAIOR SOBERANIA.
180. CONCLUSÃO FINAL — QUANDO OS AVIÕES PARTIREM
Um dia, os 36 meses terminarão.
Os aviões deixarão de cruzar o céu congolês.
Os equipamentos serão desmontados ou deslocados.
As equipas internacionais seguirão para outros projetos.
E nesse momento veremos aquilo que realmente ficou.
Mapas?
Sim.
Dados?
Esperamos que sim.
Mas precisamos querer mais.
Precisamos que fiquem geólogos congoleses mais preparados.
Técnicos mais preparados.
Investigadores mais preparados.
Instituições mais fortes.
Universidades mais conectadas à realidade económica.
Dados controlados e compreendidos por instituições congolesas.
Uma geração que tenha aprendido não apenas onde podem estar os recursos, mas como produzir o conhecimento necessário para estudá-los.
Precisamos que esse programa seja lembrado não apenas como o momento em que oito aviões estrangeiros cartografaram uma parte do Congo.
Mas como um dos momentos em que o Congo decidiu transformar conhecimento geológico em capacidade nacional.
Porque a verdadeira independência económica não começa quando expulsamos todo estrangeiro.
Começa quando deixamos de estar obrigados a depender do estrangeiro para realizar funções estratégicas que poderíamos desenvolver nós próprios.
Cooperação pode continuar.
Comércio pode continuar.
Parcerias podem continuar.
Empresas estrangeiras podem continuar trabalhando em África.
Mas África precisa entrar nessas relações cada vez mais preparada.
Cada vez mais qualificada.
Cada vez mais industrializada.
Cada vez mais capaz de escolher.
Essa é a diferença entre fechar-se ao mundo e tornar-se forte dentro dele.
O Congo possui uma riqueza mineral extraordinária.
Mas talvez o maior recurso que pode criar a partir desta oportunidade não esteja debaixo da terra.
Está nas universidades.
Nos laboratórios.
Nos cérebros dos jovens.
Nas instituições.
Nas empresas que ainda precisam nascer.
Nos engenheiros que ainda estão na escola.
Nos cientistas que ainda não receberam oportunidade.
Nos técnicos que poderão aprender durante estes 36 meses.
É aí que está a verdadeira riqueza renovável.
Por isso, quando perguntarmos:
“QUEM FICA COM OS MINERAIS?”
precisamos acrescentar:
“QUEM FICA COM OS DADOS?”
“QUEM FICA COM O CONHECIMENTO?”
“QUEM FICA COM A TECNOLOGIA?”
“QUEM FICA COM A EXPERIÊNCIA?”
“QUEM FICA COM A CAPACIDADE DE FAZER O PRÓXIMO PROJETO?”
E finalmente:
“QUEM FICA COM O VALOR?”
A resposta que uma África soberana deve procurar construir é:
OS POVOS AFRICANOS.
Não exclusivamente.
Não isolados do mundo.
Mas suficientemente capacitados para que a cooperação seja uma escolha e não uma necessidade permanente.
A TERRA É AFRICANA.
OS RECURSOS SÃO AFRICANOS.
MAS ISSO É APENAS O COMEÇO.
O CONHECIMENTO TEM DE CRESCER EM ÁFRICA.
A CIÊNCIA TEM DE CRESCER EM ÁFRICA.
A ENGENHARIA TEM DE CRESCER EM ÁFRICA.
AS EMPRESAS TECNOLÓGICAS TÊM DE CRESCER EM ÁFRICA.
A TRANSFORMAÇÃO INDUSTRIAL TEM DE CRESCER EM ÁFRICA.
A PROPRIEDADE INTELECTUAL AFRICANA TEM DE CRESCER.
E CADA CONTRATO INTERNACIONAL DEVE SER UTILIZADO, SEMPRE QUE POSSÍVEL, PARA DIMINUIR A DISTÂNCIA ENTRE AQUILO QUE PRECISAMOS COMPRAR HOJE E AQUILO QUE SEREMOS CAPAZES DE PRODUZIR AMANHÃ.
Porque o objetivo não é trocar especialistas espanhóis por especialistas de outra potência.
O objetivo é criar também especialistas congoleses e africanos capazes de sentar-se à mesma mesa com igual competência.
O objetivo não é simplesmente mudar o país de origem da tecnologia.
É aumentar a capacidade africana de possuir, adaptar e produzir tecnologia.
O objetivo não é rejeitar conhecimento estrangeiro.
É aprender tudo aquilo que pudermos e acrescentar o nosso próprio conhecimento.
O objetivo não é viver do passado.
É compreender o passado suficientemente bem para não reproduzir as mesmas relações económicas no futuro.
O objetivo não é apenas possuir aquilo que está debaixo dos nossos pés.
É dominar cada vez mais aquilo que acontece depois que essa riqueza sai da terra.
MAPEAR.
COMPREENDER.
NEGOCIAR.
EXTRAIR.
PROCESSAR.
TRANSFORMAR.
FABRICAR.
INOVAR.
COMERCIALIZAR.
E REINVESTIR NO POVO.
ESSA É A CADEIA DA SOBERANIA.
Se África controlar apenas o primeiro elo, continuará vulnerável.
Quanto mais elos dominar, maior será a sua capacidade de decidir o próprio futuro.
Portanto, o PC2G-RDC deve ser observado com esperança, mas também com exigência.
Esperança porque conhecimento geocientífico é necessário.
Exigência porque conhecimento precisa ficar.
Esperança porque formação está prevista.
Exigência porque formação precisa transformar-se em capacidade permanente.
Esperança porque cooperação pode acelerar aprendizagem.
Exigência porque cooperação não deve transformar-se em dependência permanente.
Daqui a 36 meses, a pergunta continuará esperando por nós:
QUANDO OS AVIÕES PARTIREM, O QUE FICARÁ NO CONGO?
Que a resposta seja:
MAIS DO QUE MAPAS.
QUE FIQUE CONHECIMENTO.
QUE FIQUE EXPERIÊNCIA.
QUE FIQUE CIÊNCIA.
QUE FIQUE CAPACIDADE.
QUE FIQUEM INSTITUIÇÕES MAIS FORTES.
QUE NASÇAM EMPRESAS.
QUE CRESÇAM UNIVERSIDADES.
QUE OS DADOS SIRVAM AO DESENVOLVIMENTO.
QUE OS RECURSOS FINANCIEM A TRANSFORMAÇÃO.
E QUE UMA GERAÇÃO CONGOLESA POSSA UM DIA OLHAR PARA O CÉU, VER UMA AERONAVE AFRICANA EQUIPADA COM TECNOLOGIA DESENVOLVIDA POR AFRICANOS E DIZER:
NÓS APRENDEMOS.
NÓS DESENVOLVEMOS.
NÓS PRODUZIMOS.
NÓS TAMBÉM ENSINAMOS.
É ASSIM QUE UMA TRANSFERÊNCIA DE COMPETÊNCIAS SE TRANSFORMA EM SOBERANIA.
É ASSIM QUE UMA RIQUEZA NATURAL SE TRANSFORMA EM PODER DE CONHECIMENTO.
É ASSIM QUE UMA PARCERIA DEIXA DE SER APENAS UM CONTRATO E SE TORNA UMA ETAPA DE DESENVOLVIMENTO.
E É ASSIM QUE ÁFRICA DEIXA DE SER APENAS O LUGAR ONDE O MUNDO PROCURA RECURSOS PARA SE TORNAR, CADA VEZ MAIS, UM LUGAR ONDE O MUNDO TAMBÉM PROCURA CONHECIMENTO, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO.
SABIDO KATA INCHINADU BRABU