
CHANCELLOR WILLIAMS E A DESTRUIÇÃO DA CIVILIZAÇÃO NEGRA
ÁFRICA, MEMÓRIA, PODER E A LONGA LUTA PARA RECUPERAR A NOSSA HISTÓRIA
Durante demasiado tempo ensinaram-nos a olhar para África como se a sua história começasse com a escravização, com a colonização ou com a chegada dos europeus ao continente.
Como se antes disso não existissem Estados.
Como se não existissem civilizações.
Como se não existissem sistemas políticos.
Como se não existissem cidades, comércio, conhecimento, agricultura, espiritualidade, diplomacia, resistência, organização social e pensamento.
Como se os povos africanos tivessem simplesmente esperado durante milhares de anos pela chegada de outros povos para finalmente entrarem na História.
Chancellor Williams dedicou uma parte fundamental da sua vida a combater essa visão.
A sua obra mais conhecida, “The Destruction of Black Civilization: Great Issues of a Race from 4500 B.C. to 2000 A.D.” — que podemos traduzir como “A Destruição da Civilização Negra: Grandes Questões de uma Raça, de 4500 a.C. a 2000 d.C.” — tornou-se uma referência incontornável dentro de determinadas correntes do pensamento pan-africano, do nacionalismo negro e da historiografia afrocentrada.
Mas reduzir este livro a uma celebração da grandeza africana seria não compreender Chancellor Williams.
O seu objetivo era muito mais incómodo.
Williams queria saber:
O QUE ACONTECEU?
Como foi possível que sociedades africanas que durante diferentes períodos históricos construíram Estados poderosos, controlaram territórios, estabeleceram redes comerciais gigantescas, desenvolveram instituições políticas e produziram culturas extraordinárias acabassem, em grande parte do continente, submetidas a sucessivos processos de invasão, escravização, exploração e colonização?
Como se perdeu soberania?
Como se perdeu território?
Como se perdeu poder político?
Como se perdeu capacidade económica?
Como comunidades que possuíam estruturas próprias passaram a viver dentro de fronteiras e instituições determinadas por potências estrangeiras?
E talvez ainda mais importante:
O que é necessário aprender com esse processo para que a história não continue a repetir-se sob novas formas?
É aqui que Chancellor Williams se torna particularmente interessante.
Porque ele não procura uma resposta confortável.
Não escreve simplesmente uma história na qual todos os africanos são inocentes, todos os estrangeiros são iguais e todos os acontecimentos podem ser explicados por uma única causa.
O seu olhar procura combinar pressões externas com fraquezas internas.
Fala de invasões.
Fala de guerras.
Fala de escravização.
Fala da expansão de diferentes potências.
Fala do colonialismo europeu.
Mas também fala das divisões africanas.
Fala das rivalidades políticas.
Fala das elites.
Fala da colaboração.
Fala da fragmentação.
Fala da incapacidade de construir mecanismos duradouros de defesa coletiva.
Fala de governantes que, em determinados contextos, colocaram interesses imediatos acima dos interesses de longo prazo dos seus povos.
É precisamente esta dimensão que torna “The Destruction of Black Civilization” mais do que um livro sobre o passado.
É também uma advertência.
QUEM FOI CHANCELLOR WILLIAMS?
Chancellor James Williams nasceu em 22 de dezembro de 1893, no estado da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, numa América ainda profundamente marcada pela segregação racial e pelas consequências políticas, económicas e sociais da escravização.
Para compreender o homem, precisamos compreender o mundo em que ele cresceu.
A escravatura tinha sido formalmente abolida nos Estados Unidos apenas algumas décadas antes do seu nascimento.
Mas a abolição jurídica não significou igualdade.
A população negra continuava submetida a discriminação institucional, segregação, violência racial e exclusão económica e política.
Foi neste ambiente que Williams começou a formar a sua consciência.
A questão negra não era para ele uma abstração académica.
Não era simplesmente um assunto encontrado dentro de uma biblioteca.
Era uma realidade que fazia parte da experiência histórica da sua comunidade.
Williams acabaria por estudar história e sociologia, ensinar e dedicar uma parte importante da sua vida intelectual à investigação sobre os povos africanos e a diáspora africana.
Passou por instituições como a Howard University, uma das universidades historicamente negras mais importantes dos Estados Unidos.
E uma pergunta foi ganhando cada vez mais importância no seu pensamento:
Como explicar historicamente a condição dos povos negros?
Williams percebeu que não bastava começar pela escravização nas Américas.
Se alguém começasse a história africana no navio negreiro, já começava demasiado tarde.
Se começasse com o colonialismo europeu do século XIX, começava ainda mais tarde.
Para compreender a dimensão do problema, seria necessário regressar milhares de anos.
Era necessário olhar para África antes da colonização.
Antes do tráfico transatlântico.
Antes da expansão europeia.
Era necessário estudar Estados, povos, migrações, guerras, invasões, sistemas políticos e transformações que ocorreram dentro do continente ao longo de períodos extremamente longos.
Essa ambição acabaria por alimentar o projeto que deu origem a “The Destruction of Black Civilization”.
UMA INVESTIGAÇÃO DE ANOS
Williams afirmou ter dedicado aproximadamente dezasseis anos à investigação relacionada com esta obra, incluindo pesquisa histórica e trabalho de campo.
Isto é importante.
Ele não pretendia simplesmente escrever um manifesto político.
Queria construir uma interpretação histórica de grande escala.
Procurou documentos.
Estudou bibliografia.
Investigou tradições.
Visitou regiões africanas.
Tentou comparar aquilo que encontrava nos textos com informações recolhidas no terreno.
O resultado foi uma obra ambiciosa, extensa e deliberadamente provocadora.
Mas é necessário fazer aqui uma distinção fundamental.
Reconhecer a importância intelectual de Chancellor Williams não significa considerar todas as suas conclusões como consenso entre historiadores contemporâneos.
Não são.
Algumas das suas interpretações históricas, sobretudo quando utiliza categorias raciais muito amplas para explicar sociedades antigas extremamente complexas, foram e continuam a ser discutidas.
Algumas cronologias e reconstruções propostas por autores afrocentrados do século XX foram posteriormente revistas ou contestadas pela arqueologia, genética populacional, linguística e historiografia.
Isso, porém, não elimina a importância do problema que Williams colocou.
Uma obra pode ser historicamente influente sem que cada uma das suas afirmações seja considerada definitiva.
Aliás, tratar Williams com respeito significa precisamente lê-lo seriamente.
Não transformá-lo num profeta infalível.
Não transformá-lo numa caricatura.
Lê-lo.
Compará-lo.
Questioná-lo.
Compreender o contexto em que escreveu.
E perceber por que razão tantas pessoas negras encontraram no seu trabalho uma história que não lhes tinha sido ensinada.
A PERGUNTA CENTRAL
No centro de “The Destruction of Black Civilization” encontra-se uma questão gigantesca:
Como aconteceu a destruição ou desintegração de tantas estruturas de poder africanas?
Williams procura as respostas ao longo de milhares de anos.
Para ele, não existiu um único acontecimento chamado “destruição da civilização negra”.
Existiram processos.
Alguns lentos.
Outros violentos.
Alguns externos.
Outros internos.
Alguns militares.
Outros económicos.
Outros religiosos.
Outros políticos.
Outros culturais.
E muitos desses processos interagiram entre si.
Esta ideia é essencial.
Uma civilização raramente desaparece num único dia.
Um povo não perde soberania apenas porque um exército estrangeiro atravessa uma fronteira.
Antes da conquista militar podem existir décadas ou séculos de enfraquecimento.
Pode existir divisão.
Pode existir dependência económica.
Pode existir conflito interno.
Pode existir perda de controlo das rotas comerciais.
Pode existir transformação cultural.
Pode existir penetração política estrangeira.
Pode existir cooptação de elites.
Pode existir substituição gradual de instituições.
E, finalmente, aquilo que parecia impossível torna-se possível:
a conquista.
ÁFRICA NÃO COMEÇA NA ESCRAVIDÃO
Uma das maiores contribuições intelectuais de obras como a de Chancellor Williams foi obrigar gerações de leitores negros a deslocarem o ponto de partida.
Quando alguém pergunta pela história negra e começa imediatamente pelas plantações das Américas, alguma coisa já desapareceu.
Porque o africano escravizado não nasceu escravo.
Antes do cativeiro existia uma pessoa.
Antes do navio existia uma família.
Antes da plantação existia uma sociedade.
Antes do nome imposto existia outro nome.
Antes da língua colonial existiam outras línguas.
Antes da religião do colonizador existiam cosmologias, filosofias e sistemas espirituais.
Antes das fronteiras coloniais existiam territórios, reinos, impérios, cidades, aldeias, federações, comunidades e outras formas de organização.
A escravização é parte da história africana.
Mas não é o início da história africana.
O colonialismo é parte da história africana.
Mas não é o início da história africana.
Esta mudança aparentemente simples transforma tudo.
Porque um povo que acredita que começou escravizado terá uma relação com o passado completamente diferente daquela de um povo que sabe que a escravização foi uma rutura dentro de uma história muito maior.
O PERIGO DE CONFUNDIR ÁFRICA COM UM ÚNICO POVO
Ao mesmo tempo, recuperar África exige evitar outro erro.
África nunca foi uma única sociedade homogénea.
Não existiu uma única civilização africana.
Existiram e existem Áfricas.
Centenas de povos.
Milhares de comunidades.
Inúmeras línguas.
Sistemas políticos diferentes.
Tradições espirituais diferentes.
Economias diferentes.
Experiências históricas diferentes.
O continente é gigantesco.
Falar de África como se todos os africanos tivessem vivido da mesma maneira é repetir, de outra forma, uma simplificação colonial.
A verdadeira grandeza africana não precisa de uniformidade.
Pelo contrário.
Uma das características extraordinárias da história africana é precisamente a diversidade das formas de organização humana desenvolvidas no continente.
Encontramos grandes impérios.
Encontramos pequenos reinos.
Encontramos cidades-Estado.
Encontramos sociedades descentralizadas.
Encontramos sistemas de chefia.
Encontramos confederações.
Encontramos organizações baseadas em linhagens.
Encontramos sistemas políticos nos quais o poder do governante era limitado por conselhos.
Encontramos estruturas comerciais que atravessavam milhares de quilómetros.
Encontramos diferentes conceções de propriedade, família, autoridade e espiritualidade.
Portanto, quando falamos em civilizações africanas, devemos falar no plural.
O VALE DO NILO
Uma parte central da discussão de Chancellor Williams passa pelo Vale do Nilo.
Aqui entramos numa das questões mais debatidas da historiografia africana moderna.
Durante muito tempo, determinadas tradições historiográficas europeias trataram o Egito antigo quase como se estivesse separado de África.
Geograficamente, isso nunca fez sentido.
O Egito encontra-se em África.
Mas a discussão é mais profunda do que geografia.
A questão é saber como compreender as populações do antigo Vale do Nilo, as relações entre Egito, Núbia e outras regiões africanas e a diversidade populacional existente ao longo de milhares de anos.
Autores como Chancellor Williams e Cheikh Anta Diop reagiram fortemente contra aquilo que consideravam uma tentativa de retirar o Egito da história africana.
Para eles, essa separação não era inocente.
Se uma das civilizações mais célebres da Antiguidade estivesse em África, mas fosse apresentada como essencialmente exterior ao continente, criava-se uma narrativa muito conveniente:
África podia possuir pirâmides, templos, escrita, matemática, arquitetura monumental e Estados complexos, desde que essas realizações fossem mentalmente retiradas de África.
Foi contra esse mecanismo que uma parte importante da historiografia afrocentrada se insurgiu.
KEMET
O antigo nome egípcio geralmente transliterado como “Kmt” tornou-se particularmente importante em círculos afrocentrados.
Frequentemente aparece como Kemet.
Existe uma enorme discussão sobre a interpretação linguística e histórica do termo, e devemos evitar transformar debates complexos numa frase simplista.
Mas há uma coisa que não deveria ser controversa:
o Egito antigo fazia parte do mundo africano e manteve relações profundas com outras populações do continente.
O Vale do Nilo não era uma parede.
Era uma via de circulação.
Pessoas deslocavam-se.
Mercadorias circulavam.
Ideias circulavam.
Exércitos circulavam.
Influências culturais circulavam.
As relações entre o Egito e a Núbia foram particularmente profundas e nem sempre pacíficas.
Houve comércio.
Houve guerra.
Houve domínio egípcio sobre territórios núbios.
Houve também períodos em que governantes provenientes de Kush dominaram o próprio Egito.
NÚBIA E KUSH
Quando a história africana é reduzida ao Egito, outra injustiça acontece:
a Núbia desaparece.
Ao sul do Egito desenvolveram-se sociedades extremamente importantes.
Entre elas encontramos Kush.
Em diferentes momentos, centros como Kerma, Napata e Meroé desempenharam papéis fundamentais na história do nordeste africano.
E há um episódio que deveria ser muito mais conhecido.
No século VIII a.C., governantes kushitas estenderam o seu poder ao Egito.
A chamada 25.ª Dinastia egípcia ficou associada a faraós de origem kushita.
Entre os nomes mais conhecidos encontramos Piye, Shabaka, Shebitku, Taharqa e Tantamani.
Isto destrói imediatamente a imagem simplista de uma África subsaariana completamente separada do Egito.
As relações eram muito mais complexas.
Havia circulação política, militar, religiosa e económica entre regiões que mais tarde seriam artificialmente tratadas como mundos totalmente distintos.
MEROÉ
Meroé tornou-se um importante centro do Reino de Kush.
A sua história revela novamente a profundidade das civilizações do Vale do Nilo.
Encontramos arquitetura monumental.
Pirâmides.
Produção artesanal.
Comércio.
Instituições políticas.
Uma escrita meroítica que ainda não foi completamente compreendida.
Encontramos também as célebres kandakes, título associado a mulheres da realeza kushita.
As mulheres aparecem com uma presença política particularmente marcante em determinadas fases da história de Kush.
Tudo isto importa porque desmonta outra imagem colonial:
a ideia de que a história política africana foi exclusivamente masculina, tribal e desorganizada.
A realidade histórica é muito mais rica.
A HISTÓRIA NÃO É UMA COMPETIÇÃO DE PUREZA RACIAL
É importante, no entanto, não substituir uma falsificação por outra.
A história do Vale do Nilo não precisa de ser transformada numa competição moderna para decidir qual “raça” possui o Egito.
As categorias raciais contemporâneas não podem simplesmente ser transportadas milhares de anos para trás como se as populações antigas se identificassem segundo as classificações modernas.
O nordeste africano sempre foi uma região de contactos populacionais.
África liga-se ao Mediterrâneo.
Liga-se ao mar Vermelho.
Liga-se ao Sahel.
Liga-se ao interior do continente.
Liga-se ao sudoeste asiático.
As populações mudaram ao longo dos milénios.
Reconhecer esta complexidade não retira o Egito de África.
Pelo contrário.
Permite finalmente estudá-lo como aquilo que realmente foi:
uma civilização africana situada numa zona de contactos entre África e regiões vizinhas.
A GRANDE QUESTÃO DO PODER
Chancellor Williams não estava interessado apenas em provar que existiram civilizações negras.
Para ele, isso era apenas o começo.
A verdadeira pergunta era:
O que aconteceu ao poder?
Esta é uma questão fundamental.
Porque um povo pode possuir cultura sem possuir soberania.
Pode possuir música sem controlar a economia.
Pode possuir símbolos sem controlar o território.
Pode possuir orgulho sem possuir instituições.
Pode possuir bandeira sem controlar os recursos naturais.
Pode possuir presidentes sem controlar decisões estratégicas.
Pode possuir independência jurídica sem possuir verdadeira autonomia económica.
Por isso, estudar a história africana apenas como uma coleção de grandes reis e impérios é insuficiente.
Precisamos estudar estruturas.
Quem controlava a terra?
Quem controlava o comércio?
Quem controlava o exército?
Quem produzia conhecimento?
Quem definia as leis?
Quem controlava as rotas?
Quem cobrava impostos?
Quem determinava a moeda?
Quem decidia a política externa?
Estas perguntas continuam extraordinariamente atuais.
O SAHEL E A ÁFRICA OCIDENTAL
Ao deslocarmos o olhar para a África Ocidental, encontramos outros grandes centros políticos.
Um dos mais conhecidos é o antigo Gana.
É importante esclarecer imediatamente:
o antigo Império do Gana não correspondia exatamente ao território do atual país chamado Gana.
O centro do antigo Estado situava-se mais a noroeste, abrangendo áreas relacionadas com os atuais Mali e Mauritânia.
O nome do país moderno foi escolhido muito mais tarde, num contexto de independência africana e recuperação simbólica da história pré-colonial.
O antigo Gana prosperou em grande parte graças à sua posição nas redes comerciais transaarianas.
O ouro desempenhava um papel importante.
Mas não era o único produto.
Sal, tecidos, animais, metais e outras mercadorias circulavam através de enormes redes comerciais.
Isto é fundamental.
África não estava isolada.
Muito antes da expansão colonial europeia, diferentes regiões africanas participavam em redes económicas de longa distância.
MALI
Depois encontramos o Império do Mali.
Aqui surge um dos nomes mais conhecidos da história africana:
Mansa Musa.
Governou no século XIV e tornou-se célebre, entre outras razões, pela sua peregrinação a Meca.
As descrições da quantidade de ouro associada à sua comitiva ajudaram a construir a sua reputação de riqueza extraordinária.
Hoje encontramos frequentemente frases dizendo que Mansa Musa foi “o homem mais rico de todos os tempos”.
Devemos ter cuidado com esta formulação.
Comparar matematicamente fortunas separadas por sete séculos e por sistemas económicos completamente diferentes é extremamente difícil.
Mas não precisamos desse exagero para reconhecer o essencial:
Mali controlava recursos e rotas comerciais de enorme importância.
Mansa Musa era um governante extraordinariamente rico e poderoso.
E o seu império estava integrado num mundo comercial e intelectual que ligava a África Ocidental ao norte de África e a outras regiões.
TIMBUKTU
Timbuktu tornou-se um símbolo particularmente poderoso.
Hoje, quando algumas pessoas imaginam África pré-colonial, pensam em ausência de escrita e ausência de instituições intelectuais.
Timbuktu destrói essa caricatura.
A cidade tornou-se um importante centro de comércio e aprendizagem islâmica.
Manuscritos produzidos, copiados, comercializados e preservados na região abordam religião, direito, astronomia, matemática, literatura e outros temas.
Isso não significa que toda a África dependesse de universidades idênticas às europeias.
Nem seria necessário.
Diferentes sociedades criam instituições diferentes.
O ponto é outro:
a produção intelectual africana existia.
A circulação de conhecimento existia.
Bibliotecas existiam.
Eruditos existiam.
Debates existiam.
Livros existiam.
E quando alguém diz que África não tinha conhecimento antes da colonização, não está simplesmente a cometer um pequeno erro.
Está a apagar séculos de história.
SONGHAI
O Império Songhai tornou-se posteriormente uma das maiores potências políticas da África Ocidental.
Cidades como Gao e Timbuktu tiveram enorme importância.
Governantes como Sunni Ali e Askia Muhammad marcaram diferentes fases da expansão e organização do império.
Mas Songhai também demonstra algo fundamental para a reflexão de Williams:
nenhum império é eterno.
As estruturas políticas podem parecer invencíveis até ao momento em que deixam de ser.
Conflitos internos, problemas de sucessão, transformações económicas, rivalidades políticas e pressão militar externa podem combinar-se.
No final do século XVI, a invasão marroquina teve consequências profundas para Songhai.
A utilização de armas de fogo pelas forças invasoras foi um dos elementos relevantes do confronto.
Mais uma vez encontramos uma lição:
a soberania depende também da capacidade tecnológica, militar e organizacional de responder às transformações do mundo.
TECNOLOGIA E SOBERANIA
Esta questão merece atenção.
Quando falamos de independência, falamos frequentemente de bandeiras.
Mas soberania sem capacidade tecnológica pode tornar-se extremamente frágil.
Quem fabrica as armas?
Quem controla as comunicações?
Quem controla as infraestruturas?
Quem possui os meios de produção?
Quem transforma as matérias-primas?
Quem domina a ciência?
Quem domina a engenharia?
Quem controla os dados?
Quem controla as redes digitais?
Quem controla a energia?
As formas mudaram desde o tempo dos antigos impérios.
A lógica do poder, porém, continua reconhecível.
Um país pode possuir recursos extraordinários e continuar dependente se não controlar as tecnologias necessárias para transformar esses recursos em poder económico.
O REINO DO KONGO
A África Central oferece outro exemplo fundamental.
O Reino do Kongo existia antes do contacto permanente com os portugueses no final do século XV.
Possuía uma estrutura política organizada, autoridade central e relações entre diferentes províncias.
Quando portugueses e congoleses estabeleceram contactos diplomáticos, não se tratou inicialmente da simples chegada de europeus a um território sem governo.
Encontraram um Estado.
Existiram embaixadas.
Conversões religiosas.
Trocas comerciais.
Alianças.
Conflitos.
E, progressivamente, a questão do tráfico de seres humanos tornou-se devastadora.
A história do Kongo é particularmente importante porque mostra como relações inicialmente diplomáticas e comerciais podem transformar-se profundamente quando os interesses económicos e políticos mudam.
AFONSO I DO KONGO
Afonso I, conhecido também como Mvemba a Nzinga, tornou-se uma figura central deste período.
Adotou o cristianismo e procurou desenvolver relações com Portugal.
Mas as suas cartas revelam igualmente preocupação com o crescimento do tráfico de pessoas.
Ele queixou-se ao rei português de práticas que estavam a desorganizar o seu reino.
Este episódio é extremamente importante.
Mostra que a história não pode ser reduzida à ideia de que “os africanos venderam africanos” e, portanto, todo o resto deixa de importar.
Sim, existiram africanos envolvidos no tráfico.
Existiram governantes, comerciantes e intermediários africanos que participaram.
Isso deve ser dito.
Mas também existiram governantes africanos que tentaram limitar ou combater determinados abusos.
Existiram resistências.
Existiram guerras.
Existiram capturas.
Existiram redes económicas internacionais.
Existiu uma procura gigantesca por trabalho escravizado nas Américas.
E existiram potências marítimas europeias capazes de transformar o tráfico numa estrutura transatlântica de escala colossal.
A história exige que todas essas dimensões sejam analisadas.
NDONGO E NZINGA
Outro nome incontornável é Njinga Mbande, também conhecida através de diferentes grafias como Nzinga, Njinga ou Rainha Ana de Sousa Njinga.
Governou Ndongo e Matamba no século XVII e tornou-se um dos maiores símbolos da resistência africana à expansão portuguesa na região de Angola.
Foi diplomata.
Foi estratega.
Negociou.
Combateu.
Fez alianças.
Mudou alianças quando necessário.
Utilizou a política e a guerra.
A sua história mostra novamente que os africanos não foram simples espectadores da expansão europeia.
Resistiram.
Negociaram.
Adaptaram-se.
Ganharam batalhas.
Perderam batalhas.
Construíram estratégias.
Cometeram erros.
Como todos os povos da história.
O TRÁFICO TRANSATLÂNTICO
Nenhuma análise da transformação histórica de África pode ignorar o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.
Durante séculos, milhões de africanos foram deportados através do Atlântico.
E os números, por mais impressionantes que sejam, nunca conseguem transmitir completamente a dimensão humana do processo.
Cada pessoa transportada era uma vida.
Uma família.
Uma memória.
Uma língua.
Uma comunidade.
Um conhecimento.
Uma possibilidade de futuro.
Além daqueles que chegaram às Américas, existiram pessoas que morreram durante capturas, deslocações internas, aprisionamento e travessias.
Regiões foram profundamente afetadas.
Economias foram transformadas.
Conflitos foram alimentados.
Estruturas políticas foram alteradas.
Redes comerciais foram redirecionadas.
O tráfico não foi simplesmente uma retirada de mão de obra.
Foi também uma transformação política.
A RESPONSABILIDADE AFRICANA NÃO PODE SER APAGADA
Aqui devemos ter coragem intelectual.
Falar do papel das potências europeias não significa apagar a participação de africanos.
Existiram elites africanas que participaram no tráfico.
Existiram Estados africanos que fizeram guerras e venderam prisioneiros.
Existiram comerciantes africanos que enriqueceram.
Existiram rivalidades locais utilizadas pelas potências estrangeiras.
Isto faz parte da história.
Chancellor Williams insistia precisamente no perigo das divisões internas.
Mas reconhecer colaboração africana não significa concluir que a responsabilidade de todos era igual.
As estruturas de poder eram diferentes.
A procura transatlântica era gigantesca.
O financiamento marítimo, os navios, as plantações americanas, os sistemas coloniais e a transformação racial da escravidão pertenciam a uma economia internacional muito maior.
A história não precisa de inocentes perfeitos nem de culpados metafísicos.
Precisa de análise.
DIVIDIR PARA DOMINAR
Uma das ideias que atravessa o pensamento político negro é a expressão:
DIVIDIR PARA DOMINAR.
Mas esta frase só é útil se não for transformada num slogan vazio.
Uma potência estrangeira não consegue explorar divisões que não existem absolutamente.
Para dividir, muitas vezes encontra fissuras.
Conflitos antigos.
Rivalidades.
Ambições pessoais.
Disputas de sucessão.
Diferenças regionais.
Interesses económicos.
Depois pode ampliá-los.
Financiar um lado.
Armar outro.
Reconhecer determinado chefe.
Deslegitimar outro.
Controlar rotas comerciais.
Criar dependências.
Transformar rivalidades locais em mecanismos de domínio.
Esta reflexão é central para compreender Williams.
O inimigo externo é perigoso.
Mas a divisão interna pode abrir-lhe a porta.
A COLONIZAÇÃO DO SÉCULO XIX
No final do século XIX, as potências europeias aceleraram dramaticamente a ocupação territorial de África.
A chamada “Partilha de África” transformou o mapa político do continente.
A Conferência de Berlim de 1884-1885 tornou-se símbolo deste processo.
É frequente dizer-se que “em Berlim os europeus dividiram África”.
A frase transmite uma verdade política importante, mas merece precisão.
A conferência não desenhou, numa única reunião, todas as fronteiras africanas atuais.
O processo de conquista e delimitação ocorreu através de múltiplos tratados, guerras, negociações e ocupações.
Mas Berlim estabeleceu e formalizou princípios importantes da competição imperial europeia.
E o facto fundamental permanece:
os africanos não participaram como parceiros soberanos na definição europeia das regras que facilitariam a apropriação colonial do continente.
FRONTEIRAS
As fronteiras coloniais tiveram consequências enormes.
Algumas dividiram povos.
Outras colocaram dentro da mesma unidade colonial comunidades com histórias políticas muito diferentes.
Outras aproveitaram divisões preexistentes.
Depois das independências, a maioria dos novos Estados africanos manteve as fronteiras herdadas.
Havia uma razão compreensível:
abrir simultaneamente todas as fronteiras poderia produzir conflitos ainda maiores.
Mas o resultado foi uma contradição.
A independência africana ocorreu, em grande medida, dentro do mapa produzido pela colonização.
E esta questão continua a marcar a política do continente.
COLONIZAR NÃO É APENAS OCUPAR A TERRA
O colonialismo não funciona apenas através de soldados.
Precisa de administração.
Precisa de escola.
Precisa de língua.
Precisa de mapas.
Precisa de categorias.
Precisa de intermediários.
Precisa de produzir uma ideia de normalidade.
Uma colonização torna-se mais profunda quando o colonizado começa a olhar para si através dos olhos do colonizador.
Quando a sua língua parece inferior.
Quando o seu nome parece inferior.
Quando o seu cabelo parece inferior.
Quando a sua espiritualidade parece inferior.
Quando a sua história parece inferior.
Quando o seu conhecimento parece superstição e o conhecimento estrangeiro parece automaticamente ciência.
Quando o seu passado parece vergonha.
É aqui que a discussão histórica encontra Frantz Fanon.
É aqui que encontra Amílcar Cabral.
É aqui que encontra Malcolm X.
É aqui que encontra Marcus Garvey.
E é aqui que Chancellor Williams deixa de ser simplesmente um historiador do passado.
A COLONIZAÇÃO DA MENTE
Um território pode tornar-se juridicamente independente antes de a mente se descolonizar.
Esta talvez seja uma das questões mais profundas do pós-colonialismo.
A bandeira muda.
O hino muda.
O governador europeu desaparece.
Surge um presidente africano.
Mas quais instituições permanecem?
Qual língua domina o Estado?
Qual sistema educativo permanece?
Quais modelos económicos permanecem?
Quais empresas controlam os setores estratégicos?
Onde são transformadas as matérias-primas?
Quem controla o crédito?
Quem controla a moeda?
Quem controla os meios de comunicação?
Quem define aquilo que é considerado conhecimento legítimo?
A independência política é indispensável.
Mas pode não ser suficiente.
AMÍLCAR CABRAL E A CULTURA
Amílcar Cabral compreendeu profundamente a relação entre cultura e libertação.
Para Cabral, a dominação colonial não era apenas económica e militar.
A resistência cultural possuía um papel fundamental.
Um povo precisa reconhecer-se.
Precisa conhecer a sua realidade.
Precisa conhecer as suas contradições.
Precisa rejeitar tanto a inferiorização colonial como a romantização do passado.
Esta última parte é essencial.
Descolonizar não significa inventar uma África perfeita.
Uma África perfeita nunca existiu.
Nenhuma civilização humana foi perfeita.
Existiram injustiças africanas.
Existiram guerras africanas.
Existiram hierarquias.
Existiram sistemas de escravidão em diferentes sociedades africanas antes da expansão europeia.
Existiram governantes incompetentes.
Existiram governantes cruéis.
Existiram traições.
Existiram conflitos.
Reconhecer isso não diminui África.
Humaniza África.
Só precisamos inventar uma África perfeita quando ainda estamos presos à necessidade de provar humanidade a alguém.
MARCUS GARVEY
Marcus Garvey defendia uma ideia de autodeterminação negra baseada em organização, consciência racial, independência económica e orgulho histórico.
Garvey compreendeu que um povo economicamente dependente teria dificuldade em tornar-se politicamente livre.
A mensagem era simples e poderosa:
organização.
Instituições.
Empresas.
Imprensa.
Educação.
Consciência.
Cooperação.
A ligação com Williams torna-se evidente.
Conhecer os grandes Estados africanos do passado não serve apenas para dizer:
“Nós fomos grandes.”
A pergunta deve ser:
“Que instituições vamos construir agora?”
MALCOLM X
Malcolm X insistiu repetidamente na importância de reconstruir a consciência histórica negra.
Uma pessoa ensinada a odiar a sua origem pode acabar por tentar aproximar-se do modelo de quem a despreza.
Isso manifesta-se na cultura.
Na estética.
Na linguagem.
Na política.
Na educação.
Na forma como interpretamos a história.
A libertação começa, portanto, também pela reconstrução da imagem que fazemos de nós próprios.
Mas não pode terminar aí.
Orgulho sem organização transforma-se em espetáculo.
Consciência sem instituição transforma-se em discurso.
História sem estratégia transforma-se em nostalgia.
CHEIKH ANTA DIOP
Nenhuma discussão séria sobre historiografia africana afrocentrada do século XX estaria completa sem Cheikh Anta Diop.
O intelectual senegalês dedicou grande parte da sua obra à história das civilizações africanas, às relações do Egito antigo com o restante continente, à linguística, à antropologia e às possibilidades de unidade cultural e política africana.
Diop e Williams não são a mesma pessoa nem escreveram exatamente a mesma coisa.
Mas fazem parte de uma geração intelectual que recusou aceitar a representação de África como continente sem história.
Eles compreenderam uma coisa fundamental:
quem controla a interpretação do passado influencia a imaginação do futuro.
JOHN HENRIK CLARKE
John Henrik Clarke desempenhou igualmente um papel gigantesco na divulgação da história africana e afro-americana.
Clarke insistia na necessidade de os povos negros estudarem a sua própria história de forma sistemática.
Não apenas para obter autoestima.
Mas para compreender poder.
Porque conhecer nomes de reis africanos sem compreender as estruturas que permitiram construir os seus Estados é insuficiente.
O objetivo não deve ser substituir reis europeus por reis africanos nos livros escolares.
Precisamos compreender como as sociedades funcionavam.
Como produziam.
Como governavam.
Como entravam em crise.
Como respondiam às ameaças.
Como falhavam.
A HISTÓRIA COMO ARMA
Existe uma frase frequentemente repetida em diferentes formas:
um povo sem conhecimento da sua história torna-se mais fácil de dominar.
Devemos compreender isso cuidadosamente.
História não é magia.
Conhecer Mansa Musa não constrói automaticamente uma fábrica.
Conhecer Kush não cria automaticamente uma universidade.
Conhecer Kemet não resolve automaticamente o desemprego.
Conhecer Nzinga não industrializa um país.
Mas a história fornece orientação.
Mostra possibilidades.
Mostra erros.
Mostra continuidades.
Mostra como determinadas instituições foram construídas.
Mostra como outras foram destruídas.
Mostra que aquilo que parece inevitável nem sempre foi inevitável.
E, sobretudo, destrói a ideia de que a situação presente representa a natureza eterna de um povo.
O MITO DA ÁFRICA POBRE
África é frequentemente descrita como “pobre”.
Mas esta palavra precisa ser interrogada.
Pobre em quê?
O continente possui enormes reservas de minerais.
Cobalto.
Cobre.
Ouro.
Diamantes.
Bauxita.
Manganês.
Fosfatos.
Petróleo.
Gás.
Urânio.
Lítio.
Terras agrícolas.
Recursos florestais.
Recursos marítimos.
Potencial solar.
Populações jovens.
Diversidade biológica.
A questão fundamental não é simplesmente possuir recursos.
É controlar a cadeia de valor.
TER NÃO É CONTROLAR
Um país pode possuir cobalto e importar baterias.
Pode possuir petróleo e importar combustíveis refinados.
Pode possuir cacau e importar chocolate.
Pode possuir algodão e importar roupa.
Pode possuir minerais estratégicos e importar tecnologia.
Pode possuir terra fértil e importar alimentos.
É aqui que a discussão de Williams sobre poder encontra o século XXI.
A pergunta deixou de ser apenas:
“Quem possui o território?”
Agora precisamos perguntar:
Quem financia a extração?
Quem possui as empresas?
Quem controla as licenças?
Quem define os contratos?
Quem transforma o mineral?
Quem possui as patentes?
Quem fabrica o produto final?
Quem controla a distribuição?
Quem recebe a maior margem?
Quem possui os bancos?
Quem determina os preços?
Quem controla a tecnologia?
Porque o solo pode ser africano e a maior parte do poder económico produzido por esse solo acabar fora de África.
A REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO
Poucos países simbolizam esta contradição de forma tão dramática como a República Democrática do Congo.
O território congolês possui enormes recursos naturais.
Mas a história do Congo foi marcada por exploração, violência colonial, interesses estrangeiros, conflitos internos, competição regional e disputas relacionadas com poder e recursos.
Durante o Estado Livre do Congo, associado ao rei Leopoldo II da Bélgica, ocorreu um sistema brutal de exploração.
Mais tarde veio o colonialismo belga formal.
Depois a independência.
Depois a crise congolesa.
Depois o assassinato de Patrice Lumumba.
Depois décadas de Mobutu.
Depois guerras regionais devastadoras.
Hoje, minerais congoleses são essenciais para cadeias industriais globais.
A pergunta de Chancellor Williams continua viva:
quem transforma a riqueza africana em poder?
PATRICE LUMUMBA
Lumumba tornou-se símbolo de uma independência africana que pretendia ser mais do que uma mudança de bandeira.
A independência política sem soberania real permanecia incompleta.
O seu assassinato tornou-se um dos acontecimentos mais emblemáticos da história pós-colonial africana.
A crise congolesa demonstrou que o fim formal do colonialismo não significava o fim da interferência externa.
A Guerra Fria transformou países africanos em espaços de competição internacional.
Governos foram apoiados.
Governos foram combatidos.
Movimentos foram financiados.
Ditadores foram tolerados quando serviam interesses estratégicos.
E novamente as divisões internas africanas encontraram interesses externos dispostos a explorá-las.
THOMAS SANKARA
Thomas Sankara compreendeu outra dimensão da dependência.
A dívida.
A ajuda.
A produção.
O consumo.
A dignidade económica.
Sankara defendia que um país que não produz aquilo que consome permanece vulnerável.
Promoveu produção local, reformas sociais, vacinação, participação feminina, combate à corrupção e uma visão de soberania africana.
Podemos discutir as políticas específicas do seu governo.
Nenhum dirigente deve ser transformado em santo.
Mas a pergunta que Sankara colocou permanece:
como pode existir liberdade política duradoura sem autonomia económica?
KWAME NKRUMAH
Kwame Nkrumah foi ainda mais explícito na sua análise do neocolonialismo.
Para Nkrumah, um Estado podia ser formalmente independente e continuar submetido a mecanismos externos de controlo económico e político.
Esta ideia é indispensável.
O colonialismo clássico necessitava de uma bandeira estrangeira sobre o território.
O neocolonialismo pode funcionar sem isso.
Pode funcionar através de dívida.
Comércio desigual.
Dependência tecnológica.
Pressão diplomática.
Controlo empresarial.
Dependência monetária.
Interferência política.
Formação de elites.
Informação.
E estruturas internacionais nas quais o poder está distribuído de maneira profundamente desigual.
A UNIDADE AFRICANA
Chancellor Williams via a unidade como questão de sobrevivência.
Mas precisamos perguntar:
O que significa unidade africana?
Não significa que todos os africanos tenham de falar a mesma língua.
Não significa apagar culturas.
Não significa eliminar identidades nacionais.
Não significa fingir que não existem conflitos.
Unidade estratégica significa reconhecer interesses comuns suficientemente importantes para justificar cooperação.
Defesa.
Infraestruturas.
Energia.
Investigação científica.
Indústria.
Comércio continental.
Transportes.
Educação.
Tecnologia.
Segurança alimentar.
Diplomacia.
Negociação internacional.
Imagine o poder de negociação de dezenas de Estados africanos quando atuam isoladamente.
Agora compare com aquilo que poderiam negociar coletivamente.
A ORGANIZAÇÃO DA UNIDADE AFRICANA E A UNIÃO AFRICANA
A criação da Organização da Unidade Africana em 1963 representou uma etapa histórica.
Décadas depois surgiu a União Africana.
Estas instituições representam uma tentativa concreta de transformar o ideal pan-africano em estruturas de cooperação.
Mas existe uma diferença gigantesca entre declarar unidade e construir unidade.
Unidade exige instituições eficazes.
Exige financiamento.
Exige infraestrutura.
Exige decisões.
Exige capacidade de implementação.
Exige que os interesses nacionais de curto prazo não destruam permanentemente os interesses continentais de longo prazo.
O COMÉRCIO ENTRE AFRICANOS
Uma das dimensões mais importantes da soberania africana é o comércio intracontinental.
As economias coloniais foram frequentemente organizadas para transportar matérias-primas do interior para os portos e daí para as metrópoles.
As infraestruturas não foram necessariamente construídas para integrar economias africanas entre si.
Essa herança permanece visível.
Em algumas situações é mais fácil exportar para outro continente do que comercializar com um país africano relativamente próximo.
Mudar esta estrutura é uma das grandes tarefas do século XXI.
A LÍNGUA
A língua é outra dimensão do poder.
Muitos Estados africanos continuam a utilizar como línguas oficiais o inglês, francês, português ou outras línguas herdadas da colonização.
Existem razões históricas e práticas para isso.
Em países extremamente multilingues, uma língua colonial pode funcionar como língua administrativa comum.
Mas existe também uma contradição.
Quando a língua da casa, da comunidade e da cultura não possui o mesmo estatuto da língua do Estado, cria-se uma hierarquia.
A criança aprende muito cedo qual língua abre as portas institucionais.
Qual língua aparece no tribunal.
Qual língua aparece nos documentos.
Qual língua aparece na universidade.
Qual língua está associada ao prestígio.
E qual língua é tratada como informal.
CABO VERDE E A QUESTÃO DA LÍNGUA
Para nós, cabo-verdianos, esta reflexão é particularmente importante.
A língua cabo-verdiana nasceu da nossa história.
É língua de memória.
De família.
De música.
De humor.
De sofrimento.
De resistência.
De amor.
De identidade.
O português possui a sua importância histórica e institucional em Cabo Verde.
Mas reconhecer isso não nos obriga a diminuir a língua cabo-verdiana.
Uma sociedade verdadeiramente segura de si não precisa ter vergonha da língua em que o seu povo pensa, sente, discute, canta e sonha.
Descolonização não significa necessariamente expulsar uma língua.
Significa acabar com a ideia de que a nossa própria língua vale menos.
EDUCAÇÃO
Se Chancellor Williams nos obriga a regressar à história, então a escola torna-se um campo decisivo.
O que aprende uma criança africana sobre África?
Quantos nomes conhece?
Conhece Napoleão.
Conhece Júlio César.
Conhece Alexandre.
Conhece Cristóvão Colombo.
Mas conhece Piye?
Conhece Taharqa?
Conhece Mansa Musa?
Conhece Sunni Ali?
Conhece Askia Muhammad?
Conhece Njinga?
Conhece Yaa Asantewaa?
Conhece Samori Touré?
Conhece Behanzin?
Conhece Menelik II?
Conhece os sistemas políticos africanos anteriores à colonização?
Conhece a história intelectual de Timbuktu?
Conhece Kush?
Conhece Meroé?
Conhece Grande Zimbabwe?
Conhece Axum?
Conhece as cidades suaílis?
Conhece Ifé?
Conhece Benim?
Conhece Kongo?
Conhece a história africana para além da escravização?
Se a resposta for não, existe um problema.
GRANDE ZIMBABWE
Grande Zimbabwe constitui outro golpe contra velhos preconceitos coloniais.
As impressionantes estruturas de pedra testemunham a existência de um importante centro político e económico no sul de África.
Durante o período colonial, houve resistência em aceitar que africanos negros tivessem construído essas estruturas.
Foram propostas teorias tentando atribuí-las a povos estrangeiros.
Porquê?
Porque admitir a autoria africana contradizia a ideologia utilizada para justificar o domínio colonial.
A arqueologia demonstrou a origem africana do complexo.
Este episódio ensina algo extraordinário:
às vezes, quando os factos contradizem o preconceito, o preconceito tenta reescrever os factos.
AXUM
No nordeste africano encontramos igualmente o Reino de Axum, associado principalmente às atuais Etiópia e Eritreia.
Axum participou em importantes redes comerciais ligadas ao mar Vermelho.
Cunhou moeda.
Desenvolveu arquitetura monumental.
Adotou o cristianismo ainda na Antiguidade.
A Etiópia manteria uma história política particular e tornar-se-ia posteriormente símbolo gigantesco da resistência africana ao colonialismo.
ADWA
Em 1896, as forças etíopes do imperador Menelik II derrotaram o exército italiano na Batalha de Adwa.
A vitória teve significado muito além da Etiópia.
Num período em que grande parte de África estava a ser submetida ao colonialismo europeu, um Estado africano derrotava decisivamente uma potência europeia.
Adwa tornou-se símbolo.
Demonstrou que a conquista não era inevitável.
Organização, diplomacia, armamento, mobilização e liderança podiam alterar o resultado.
YAA ASANTEWAA
Na África Ocidental encontramos outra figura extraordinária:
Yaa Asantewaa.
No início do século XX, tornou-se símbolo da resistência Asante contra o domínio britânico.
A sua memória recorda-nos novamente que mulheres africanas participaram ativamente na política, guerra e resistência.
Quando contamos a história africana apenas através de homens, estamos a mutilar metade da história.
A RESISTÊNCIA FOI CONSTANTE
Existe uma narrativa perigosa segundo a qual os europeus chegaram e África simplesmente caiu.
Não foi assim.
A conquista colonial encontrou resistência em inúmeras regiões.
Algumas resistências duraram anos.
Outras décadas.
Houve vitórias africanas.
Houve derrotas.
Houve negociações.
Houve tratados.
Houve traições.
Houve alianças.
Houve adaptação.
A superioridade tecnológica em determinados contextos, particularmente em armamento, comunicações e logística, desempenhou um papel enorme.
Mas a resistência africana existiu desde o início.
PORQUE CAÍRAM OS ESTADOS?
Aqui regressamos à pergunta de Williams.
Não existe uma única resposta.
Alguns Estados desapareceram antes do colonialismo europeu.
Alguns foram destruídos por guerras.
Outros fragmentaram-se.
Outros foram incorporados por Estados vizinhos.
Outros sofreram transformações ambientais.
Outros perderam rotas comerciais.
Outros enfrentaram conflitos de sucessão.
Outros foram enfraquecidos pelo tráfico de escravizados.
Outros foram conquistados por forças estrangeiras.
Outros sofreram combinações destes fatores.
Portanto, falar na “destruição da civilização negra” deve ser entendido como uma grande interpretação histórica de Williams, não como a descrição de um único acontecimento uniforme ocorrido em toda África.
O PERIGO DAS GRANDES GENERALIZAÇÕES
Este é um dos limites da obra.
Quando tentamos explicar milhares de anos da história de um continente inteiro, existe sempre o risco de simplificação.
África é demasiado grande.
O período é demasiado longo.
As sociedades são demasiado diferentes.
Uma explicação que funciona para uma região pode não funcionar para outra.
Uma invasão decisiva num território pode ter sido irrelevante noutro.
Uma religião pode ter chegado através de conquista num lugar e através de comércio pacífico noutro.
Um Estado pode ter colaborado com estrangeiros enquanto outro resistia.
É por isso que Chancellor Williams deve ser lido como uma porta de entrada para perguntas maiores, não como a última palavra sobre toda a história africana.
ISLÃO E ÁFRICA
Williams dedica atenção às expansões vindas do norte e às transformações associadas ao mundo árabe e islâmico.
Este é outro tema que exige rigor.
O Islão chegou a diferentes partes de África de maneiras diferentes.
Houve conquista militar em determinados contextos.
Houve comércio.
Houve migração.
Houve conversão voluntária.
Houve elites que adotaram o Islão.
Houve populações que combinaram tradições anteriores com práticas islâmicas.
Houve Estados africanos muçulmanos extremamente poderosos.
Houve também tráfico de africanos escravizados através de rotas transaarianas, do mar Vermelho e do oceano Índico.
Não devemos apagar essa história.
Mas também não devemos reduzir mais de mil anos de presença islâmica em África a uma única experiência.
África possui algumas das comunidades muçulmanas mais antigas do mundo.
Milhões de africanos fizeram do Islão parte integrante das suas próprias culturas.
A história exige precisão.
CRISTIANISMO AFRICANO
Da mesma forma, é errado apresentar o cristianismo em África simplesmente como criação do colonialismo europeu moderno.
Existiram comunidades cristãs africanas desde os primeiros séculos do cristianismo.
Egito e Etiópia são exemplos fundamentais.
Ao mesmo tempo, durante a expansão colonial europeia, missões cristãs desempenharam papéis complexos.
Algumas estiveram profundamente associadas ao projeto colonial.
Outras produziram indivíduos que criticaram abusos.
Escolas missionárias formaram africanos que, ironicamente, viriam posteriormente a utilizar a educação recebida para desafiar o colonialismo.
Mais uma vez:
a história raramente cabe num slogan.
RELIGIÃO, PODER E CULTURA
A questão que realmente interessa é:
quando uma nova religião chega, o que acontece às estruturas anteriores?
São destruídas?
São incorporadas?
São reinterpretadas?
Sobrevivem?
Misturam-se?
Quem controla as instituições religiosas?
Que língua é utilizada?
Que visão do mundo é ensinada?
Que nomes são considerados sagrados?
Quais são considerados pagãos?
Estas perguntas ajudam-nos a compreender a profundidade da transformação cultural.
A DIÁSPORA
A história africana não termina nas fronteiras de África.
A diáspora transformou o mundo.
Africanos deportados para as Américas transportaram consigo conhecimentos agrícolas, ritmos, cosmologias, técnicas, línguas, memórias e formas de resistência.
Sob condições desumanas, reconstruíram comunidades.
Criaram novas culturas.
Preservaram elementos africanos.
Transformaram outros.
Da América do Norte às Caraíbas, do Brasil às Guianas, encontramos marcas profundas de África.
A diáspora não é uma cópia congelada do continente.
É uma criação histórica própria nascida do encontro, da violência, da adaptação e da resistência.
HAITI
Nenhuma reflexão sobre libertação negra pode ignorar o Haiti.
A Revolução Haitiana destruiu o sistema escravista da colónia francesa de Saint-Domingue e levou à criação de um Estado independente em 1804.
Pessoas que tinham sido escravizadas derrotaram forças de uma das maiores potências militares da época.
O significado foi gigantesco.
O Haiti demonstrou que a escravatura podia ser destruída pelos próprios escravizados.
Mas a independência haitiana foi seguida de isolamento e enormes pressões económicas, incluindo a famosa indemnização exigida pela França no século XIX.
Novamente encontramos a mesma questão:
ganhar independência política é apenas uma etapa.
O sistema internacional pode continuar a impor custos durante gerações.
A MEMÓRIA COMO TERRITÓRIO
Existe território físico.
Mas existe também território mental.
Se alguém controla a maneira como um povo interpreta o passado, influencia aquilo que esse povo considera possível no futuro.
É por isso que memória importa.
Museus importam.
Arquivos importam.
Bibliotecas importam.
Línguas importam.
Nomes importam.
Monumentos importam.
Currículos escolares importam.
Cinema importa.
Música importa.
Quem aparece como herói?
Quem aparece como selvagem?
Quem aparece como descobridor?
Quem aparece como descoberto?
A linguagem nunca é completamente neutra.
“DESCOBRIR” ÁFRICA
Quando os livros dizem que determinado europeu “descobriu” um lugar africano, devemos perguntar:
descobriu para quem?
As pessoas que viviam ali já conheciam o lugar.
Tinham nomes para os rios.
Tinham caminhos.
Tinham territórios.
Tinham histórias.
Tinham sistemas de orientação.
Dizer que alguém descobriu um território habitado significa colocar o observador europeu no centro da história mundial.
A descolonização da história começa também por mudar o ponto de observação.
NÃO SE TRATA DE ODIAR EUROPEUS
Recuperar a história africana não exige ódio contra outros povos.
Isso seria intelectualmente pobre e politicamente inútil.
O objetivo não é inverter a supremacia.
Não é dizer que os africanos são superiores.
Não é substituir uma mentira racial europeia por uma mentira racial africana.
O objetivo é soberania.
Dignidade.
Conhecimento.
Justiça.
Autodeterminação.
Reciprocidade.
Podemos estudar crimes coloniais sem odiar todas as pessoas europeias.
Podemos estudar o tráfico árabe de escravizados sem odiar todos os árabes.
Podemos criticar elites africanas sem odiar África.
A maturidade política começa quando conseguimos distinguir estruturas, governos, instituições, classes, interesses e indivíduos.
PAN-AFRICANISMO
O pan-africanismo nasceu precisamente da compreensão de que a fragmentação dos povos africanos e da diáspora enfraquecia a sua capacidade de ação.
Ao longo do tempo assumiu formas diferentes.
Intelectual.
Cultural.
Política.
Revolucionária.
Institucional.
Alguns defenderam uma federação continental.
Outros cooperação entre Estados soberanos.
Outros concentraram-se na solidariedade entre África e a diáspora.
Mas existe um fio comum:
a ideia de que povos africanos possuem interesses históricos compartilhados e que a cooperação aumenta a capacidade de defesa desses interesses.
ÁFRICA E A DIÁSPORA PRECISAM UMA DA OUTRA
África possui território.
População.
Recursos.
Estados.
A diáspora possui comunidades espalhadas por algumas das economias mais importantes do planeta.
Possui conhecimento.
Empresas.
Artistas.
Investigadores.
Profissionais.
Redes.
Capital.
Influência cultural.
Imagine aquilo que poderia nascer de relações mais estruturadas entre continente e diáspora.
Universidades.
Investimento.
Tecnologia.
Cinema.
Investigação.
Turismo histórico.
Projetos culturais.
Empresas.
Meios de comunicação.
Arquivos.
Programas educativos.
Não basta dizer “África unida”.
É necessário construir mecanismos de união.
A ECONOMIA DA CULTURA
África possui enorme influência cultural mundial.
Música africana influencia o planeta.
A diáspora africana transformou música mundial.
Blues.
Jazz.
Reggae.
Hip-hop.
Samba.
Rumba.
Gospel.
Funk.
Afrobeats.
E inúmeras outras expressões carregam histórias africanas e diaspóricas.
Mas novamente devemos perguntar:
quem possui as plataformas?
Quem possui as editoras?
Quem possui os catálogos?
Quem controla a distribuição?
Quem recolhe os dados?
Quem recebe os maiores lucros?
Produzir cultura não significa necessariamente controlar a economia da cultura.
A BATALHA DIGITAL
No século XXI, uma nova dimensão aparece.
Dados.
Algoritmos.
Inteligência artificial.
Redes sociais.
Plataformas.
Infraestruturas digitais.
A batalha pelo futuro africano não acontecerá apenas nas minas.
Acontecerá nos servidores.
Nos laboratórios.
Nas universidades.
Nos sistemas educativos.
Nas empresas tecnológicas.
Nas telecomunicações.
Nos satélites.
Quem não produzir tecnologia será obrigado a consumir tecnologia produzida segundo prioridades alheias.
O NOVO OURO
Durante séculos, potências estrangeiras procuraram ouro africano.
Hoje procuram também minerais essenciais à transição energética e à economia digital.
Cobalto.
Lítio.
Cobre.
Manganês.
Grafite.
Terras raras em diferentes contextos.
O perigo é repetir o mesmo modelo:
extrair em África.
Transportar para fora.
Transformar fora.
Criar tecnologia fora.
Vender o produto final a África.
Se isso acontecer, teremos carros elétricos modernos construídos sobre uma estrutura económica muito antiga.
A LIÇÃO DE WILLIAMS PARA O SÉCULO XXI
Se transportarmos a pergunta de Chancellor Williams para hoje, ela poderia ser formulada assim:
África sobreviverá apenas como fornecedora de matérias-primas ou conseguirá transformar recursos em soberania?
Esta pergunta é muito maior do que mineração.
Inclui agricultura.
Energia.
Conhecimento.
Tecnologia.
Indústria.
Cultura.
Finanças.
Educação.
Defesa.
Comunicação.
Uma segunda independência africana terá de ser económica, científica, cultural e tecnológica.
A RESPONSABILIDADE DAS ELITES
Williams foi particularmente duro com lideranças que colocam interesses pessoais acima dos interesses coletivos.
Esta crítica continua necessária.
É fácil culpar exclusivamente forças estrangeiras.
Mas uma empresa estrangeira não assina sozinha um contrato com um Estado africano.
Existe alguém do outro lado da mesa.
Quando recursos públicos são desviados, existe responsabilidade interna.
Quando instituições são destruídas para proteger um dirigente, existe responsabilidade interna.
Quando eleições são manipuladas, existe responsabilidade interna.
Quando dinheiro público destinado a hospitais, escolas ou infraestrutura desaparece, existe responsabilidade interna.
O colonialismo explica muito.
Não explica tudo.
Décadas depois das independências, os africanos também precisam exigir responsabilidade aos próprios governos.
CORRUPÇÃO
A corrupção é particularmente destrutiva porque transforma o Estado num mecanismo privado.
Recursos que deveriam servir milhões passam a servir pequenos grupos.
E a corrupção não envolve apenas quem recebe.
Frequentemente envolve quem paga.
Empresas internacionais também participaram historicamente em esquemas de corrupção em diferentes países.
Portanto, novamente, encontramos uma relação entre interesses externos e cumplicidade interna.
É precisamente este tipo de combinação que uma leitura contemporânea de Williams deve ajudar-nos a identificar.
NÃO BASTA TROCAR A COR DO GOVERNANTE
Um governante negro pode administrar um sistema dependente.
Uma elite africana pode proteger interesses estrangeiros.
Uma bandeira africana pode cobrir uma economia profundamente subordinada.
Por isso, libertação não é simplesmente representação.
Representação importa.
Mas estrutura importa mais.
A pergunta não é apenas:
“Quem governa?”
É também:
“Em benefício de quem governa?”
A JUVENTUDE AFRICANA
África possui uma população extremamente jovem.
Isto pode ser uma força extraordinária.
Mas juventude sem educação, oportunidades e instituições pode também transformar-se em frustração.
Milhões de jovens africanos estão conectados ao mundo através do telefone.
Veem riqueza.
Veem consumo.
Veem estilos de vida.
Veem possibilidades.
Mas muitos não encontram oportunidades equivalentes nos seus próprios países.
O desafio é transformar juventude em capacidade.
Educação técnica.
Ciência.
Empreendedorismo.
Artes.
Agricultura moderna.
Indústria.
Investigação.
Tecnologia.
Sem isso, continuaremos a perder talento através da migração.
A FUGA DE CÉREBROS
Quando um país africano financia a formação de um médico, engenheiro ou investigador e essa pessoa precisa emigrar para encontrar condições adequadas de trabalho, o país perde parte do investimento realizado.
Não devemos culpar quem procura uma vida melhor.
O problema é estrutural.
Precisamos construir sociedades onde ficar também seja uma escolha possível.
E precisamos criar redes através das quais a diáspora possa contribuir mesmo quando vive fora do continente.
MULHERES AFRICANAS
Nenhum projeto de renascimento africano é possível marginalizando metade da população.
A história africana está cheia de mulheres que exerceram poder, resistiram, produziram, comerciaram, ensinaram e organizaram comunidades.
Njinga.
Yaa Asantewaa.
As kandakes de Kush.
E muitas outras.
Mas não precisamos provar o valor das mulheres apenas encontrando rainhas antigas.
A dignidade não depende de ter uma antepassada no trono.
As mulheres africanas têm direito à educação, segurança, participação política, saúde, propriedade e oportunidade simplesmente porque são seres humanos e membros integrais das nossas sociedades.
A FAMÍLIA E A COMUNIDADE
Williams dá enorme importância à organização social.
Uma civilização não é construída apenas por presidentes.
É construída em famílias.
Comunidades.
Associações.
Escolas.
Empresas.
Templos.
Mesquitas.
Igrejas.
Organizações culturais.
Sindicatos.
Cooperativas.
Universidades.
A capacidade coletiva nasce de instituições intermediárias.
Quando tudo depende do Estado, a sociedade torna-se frágil.
Quando ninguém confia no Estado, também se torna frágil.
É necessário construir confiança social.
DISCIPLINA
Uma palavra pouco popular precisa regressar:
disciplina.
Nenhum projeto coletivo sobrevive apenas de emoção.
Não se constrói soberania com discursos de três minutos.
Não se constrói uma universidade com slogans.
Não se constrói indústria apenas com orgulho.
Não se constrói ciência com nostalgia.
É necessário trabalhar.
Estudar.
Poupar.
Investir.
Organizar.
Planear.
Avaliar.
Corrigir.
Transmitir conhecimento.
Criar instituições que sobrevivam às pessoas que as fundaram.
O CULTO DO LÍDER
Uma das grandes fraquezas políticas de muitas sociedades é confundir movimento com líder.
Quando toda uma organização depende de uma pessoa, a morte, prisão, corrupção ou mudança dessa pessoa pode destruir tudo.
Instituições fortes são maiores do que os indivíduos.
Um verdadeiro líder deve construir estruturas capazes de continuar sem ele.
Essa talvez seja uma das maiores lições que podemos retirar de séculos de ascensão e queda de Estados.
O EGO
O ego destrói organizações.
Quando cada pessoa precisa ser chefe, ninguém consegue construir coletivamente.
Quando duas associações com o mesmo objetivo recusam trabalhar juntas porque os dirigentes querem protagonismo, o problema não é o inimigo externo.
É interno.
Quando um intelectual prefere destruir outro intelectual negro para proteger a sua posição, perdemos energia.
Quando organizações passam mais tempo em conflitos pessoais do que a construir instituições, repetimos padrões antigos.
Williams obriga-nos a olhar também para isso.
UNIDADE NÃO SIGNIFICA AUSÊNCIA DE CRÍTICA
Às vezes confundimos unidade com silêncio.
Não.
Unidade verdadeira suporta crítica.
Um irmão pode corrigir outro irmão.
Uma comunidade pode exigir contas ao seu dirigente.
Um cidadão pode criticar o governo sem odiar o país.
Aliás, proteger corruptos apenas porque são africanos não é pan-africanismo.
É cumplicidade.
A unidade deve existir em torno de princípios.
Não em torno da impunidade.
O PASSADO NÃO PODE SER UMA DROGA
Existe um perigo dentro do próprio afrocentrismo.
Transformar a glória passada numa espécie de droga psicológica.
“Construímos pirâmides.”
“Mansa Musa era rico.”
“Tínhamos grandes impérios.”
Tudo isso pode ser importante.
Mas depois?
O que construímos hoje?
Quantas universidades africanas estão entre os maiores centros científicos mundiais?
Quantas patentes produzimos?
Quantas tecnologias estratégicas controlamos?
Quantas matérias-primas transformamos?
Quantos livros publicamos?
Quantos arquivos preservamos?
Quantas crianças aprendem história africana com rigor?
O passado deve alimentar o futuro.
Não substituir o futuro.
NÃO PRECISAMOS INVENTAR PARA TER ORGULHO
Este ponto é extremamente importante.
A história africana verdadeira já é suficientemente extraordinária.
Não precisamos inventar.
Não precisamos atribuir todas as grandes invenções humanas a africanos.
Não precisamos dizer que todas as civilizações vieram de África no sentido cultural direto.
Não precisamos transformar todas as figuras históricas em negras.
Não precisamos de falsificações.
Quando uma afirmação é falsa e a utilizamos para defender África, oferecemos aos nossos adversários uma arma fácil:
basta desmontarem a falsidade para tentarem desacreditar tudo o resto.
O rigor também é uma forma de libertação.
AFROCENTRICIDADE NÃO É FALSIFICAÇÃO
Colocar África no centro da análise significa olhar para os africanos como sujeitos históricos.
Significa perguntar o que os próprios africanos fizeram.
Pensaram.
Criaram.
Sofreram.
Decidiram.
Não significa decidir antecipadamente que África esteve sempre certa.
Uma verdadeira perspectiva africana precisa ter coragem suficiente para reconhecer grandeza e fracasso.
Vitória e derrota.
Criação e destruição.
Resistência e colaboração.
Só assim aprendemos.
CHANCELLOR WILLIAMS DEVE SER LIDO DESTA FORMA
Não como Bíblia.
Não como livro sagrado.
Não como obra acima da crítica.
Mas também não como curiosidade ultrapassada.
Williams deve ser colocado numa tradição de intelectuais negros que fizeram perguntas que a academia dominante durante muito tempo não queria fazer.
Algumas respostas podem precisar de revisão.
Mas algumas perguntas continuam explosivamente atuais.
QUEM ESCREVE A HISTÓRIA?
Durante muito tempo, grande parte da história africana ensinada formalmente foi produzida por instituições coloniais ou europeias.
Isso não significa que um europeu seja incapaz de escrever boa história africana.
A origem de um investigador não determina automaticamente a qualidade do trabalho.
Existem investigadores de todas as origens que produziram trabalhos fundamentais sobre África.
O problema aparece quando apenas um grupo possui instituições, financiamento, arquivos, universidades, editoras e capacidade de determinar quais perguntas são legítimas.
A solução não é expulsar ninguém do conhecimento.
É construir capacidade africana para produzir conhecimento.
ARQUIVOS AFRICANOS
África precisa investir na preservação dos seus arquivos.
Documentos deterioram-se.
Manuscritos desaparecem.
Tradições orais morrem com os idosos.
Objetos são traficados.
Línguas desaparecem.
Cada perda dessas representa uma parte da memória coletiva que talvez nunca possa ser recuperada.
Digitalização.
Museus.
Bibliotecas.
Investigação oral.
Arqueologia.
Linguística.
História.
Tudo isso deveria ser considerado infraestrutura estratégica.
OBJETOS AFRICANOS NOS MUSEUS ESTRANGEIROS
Milhares de objetos africanos encontram-se em museus e coleções fora do continente.
Alguns foram comprados.
Outros oferecidos.
Outros obtidos em contextos coloniais extremamente desiguais.
Outros foram claramente saqueados durante expedições militares.
O debate sobre restituição tornou-se cada vez mais importante.
O caso dos Bronzes do Benim é um dos exemplos mais conhecidos.
Em 1897, uma expedição britânica atacou Benin City e levou grande quantidade de objetos.
Hoje, instituições começaram processos de restituição de algumas dessas peças.
A questão é maior do que propriedade.
Quem tem direito de contar a história através dos objetos?
MEMÓRIA E ECONOMIA
Um museu não é apenas memória.
É turismo.
Educação.
Investigação.
Emprego.
Prestígio.
Quando património africano está concentrado fora de África, parte do valor cultural e económico produzido por esse património também está fora.
Restituir objetos deve, portanto, ser acompanhado por investimento em museus, conservação, investigação e acesso público no continente.
A HISTÓRIA ORAL
Durante muito tempo, historiadores formados em tradições europeias desconfiaram profundamente da história oral.
Mas sociedades sem determinado tipo de arquivo escrito não são sociedades sem memória.
Genealogias.
Canções.
Narrativas.
Provérbios.
Rituais.
Nomes de lugares.
Memórias familiares.
Tudo pode conter informação histórica.
Claro que tradição oral precisa ser analisada criticamente.
Memórias mudam.
Histórias são reinterpretadas.
Mas documentos escritos também mentem.
Um governador colonial pode mentir num relatório.
Um rei pode exagerar uma vitória.
Um jornal pode defender interesses políticos.
Não existe fonte inocente.
O trabalho do historiador é comparar.
ARQUEOLOGIA
A arqueologia transformou profundamente o conhecimento sobre África.
Escavações revelaram cidades, sistemas comerciais, produção metalúrgica, cerâmica, agricultura, arquitetura e movimentos populacionais.
E provavelmente ainda conhecemos apenas uma parte da história do continente.
África é gigantesca.
Existem regiões pouco investigadas.
Novas descobertas continuarão a alterar interpretações.
Por isso, qualquer pessoa que diga que a história africana está completamente resolvida não compreende como funciona o conhecimento histórico.
GENÉTICA E HISTÓRIA
A genética populacional acrescentou novas ferramentas para estudar migrações e relações entre populações.
Mas também aqui precisamos ter cuidado.
Genes não são culturas.
Uma população pode adotar uma língua sem substituição completa da população.
Pode adotar religião.
Pode misturar-se.
Pode migrar.
Identidade é histórica e social, não apenas biológica.
Usar genética para reconstruir velhas teorias de pureza racial seria um enorme erro.
RAÇA
A própria categoria de raça precisa ser compreendida historicamente.
As sociedades antigas percebiam diferenças humanas, claro.
Mas as classificações raciais modernas foram construídas em contextos históricos específicos.
A expansão colonial, a escravização atlântica e teorias europeias dos séculos XVIII e XIX contribuíram fortemente para transformar diferenças físicas em sistemas rígidos de hierarquia racial.
Por isso, quando lemos Williams, devemos compreender que ele escreve num século profundamente marcado pela política racial norte-americana.
A linguagem dele reflete esse contexto.
POR QUE O LIVRO FOI TÃO IMPORTANTE?
Porque respondeu a uma necessidade.
Milhões de pessoas negras tinham recebido uma educação na qual apareciam principalmente como escravizadas, colonizadas ou marginalizadas.
Williams ofereceu outra escala temporal.
Disse:
olhem antes.
Olhem mais longe.
Olhem para os Estados.
Olhem para os impérios.
Olhem para as instituições.
Olhem para aquilo que existia antes da queda.
E depois façam a pergunta mais difícil:
por que caiu?
A DIFERENÇA ENTRE AUTOESTIMA E PODER
Autoestima é importante.
Mas não é poder.
Um povo pode sentir enorme orgulho cultural e continuar economicamente dependente.
Pode usar roupa africana e importar tudo.
Pode mudar o nome e continuar sem indústria.
Pode colocar símbolos ancestrais nas paredes e continuar sem controlar os bancos.
Pode falar de reis antigos e aceitar corrupção moderna.
A libertação exige mais.
O QUE É PODER?
Poder é capacidade.
Capacidade de produzir.
Capacidade de alimentar.
Capacidade de educar.
Capacidade de curar.
Capacidade de defender.
Capacidade de negociar.
Capacidade de dizer não.
Capacidade de sobreviver às consequências de dizer não.
Esta última parte é fundamental.
Um país dependente pode formalmente dizer não.
Mas se não consegue suportar sanções, pressão económica ou interrupção de importações essenciais, a sua liberdade de decisão é limitada.
SEGURANÇA ALIMENTAR
África possui vastas terras agrícolas e, ao mesmo tempo, diferentes países africanos dependem significativamente de importações alimentares.
Esta contradição deve preocupar-nos.
Um continente incapaz de alimentar a própria população de maneira resiliente permanece vulnerável.
Agricultura não é coisa do passado.
Agricultura moderna envolve ciência.
Irrigação.
Logística.
Armazenamento.
Transformação.
Biotecnologia.
Dados.
Máquinas.
Mercados.
Formação.
Uma verdadeira revolução africana também precisa acontecer no campo.
ENERGIA
Sem energia não existe industrialização.
Hospitais precisam de energia.
Escolas precisam de energia.
Fábricas precisam de energia.
Servidores precisam de energia.
Transportes precisam de energia.
África possui enorme potencial energético em diferentes fontes.
A questão é transformar esse potencial em acesso confiável, sustentável e economicamente viável para as populações e para a indústria.
INDUSTRIALIZAÇÃO
Exportar matéria-prima e importar produto acabado é uma estrutura historicamente desfavorável.
A industrialização africana precisa transformar mais recursos no próprio continente.
Isso não significa que cada país deva produzir tudo.
Seria impossível.
Significa criar cadeias regionais.
Um país pode produzir componentes.
Outro transformar minerais.
Outro fabricar equipamentos.
Outro fornecer energia.
Outro desenvolver software.
É assim que a integração deixa de ser discurso e se transforma em economia.
CIÊNCIA
Não existe soberania moderna sem ciência.
Precisamos de físicos.
Químicos.
Engenheiros.
Médicos.
Matemáticos.
Agrónomos.
Programadores.
Historiadores.
Linguistas.
Arqueólogos.
Filósofos.
Economistas.
A descolonização do conhecimento não significa abandonar ciência produzida fora de África.
Seria absurdo.
Significa participar na produção universal de conhecimento em condições de maior autonomia.
Aprender de todos.
Produzir também.
Ensinar também.
Descobrir também.
A CRIANÇA AFRICANA NÃO PRECISA ESCOLHER ENTRE ÁFRICA E O MUNDO
Este ponto é essencial.
Recuperar identidade africana não significa fechar-se.
Uma criança africana pode aprender língua cabo-verdiana e português.
Pode aprender wolof e francês.
Pode aprender suaíli e inglês.
Pode estudar matemática desenvolvida em diferentes civilizações.
Pode ler autores africanos, asiáticos, europeus e americanos.
O problema não é conhecer o mundo.
O problema é conhecer o mundo inteiro e não conhecer a própria casa.
O UNIVERSAL COMEÇA EM ALGUM LUGAR
Frequentemente aquilo que chamamos “universal” é simplesmente uma experiência particular que conseguiu tornar-se dominante.
Uma filosofia europeia aparece como filosofia.
Uma filosofia africana aparece como “pensamento africano”.
Uma música europeia aparece como música clássica.
Outras tradições recebem adjetivos.
Descolonizar não significa retirar a Europa.
Significa retirar a Europa da posição de medida automática de toda humanidade.
O FUTURO NÃO É UM REGRESSO AO PASSADO
Não podemos regressar a Kemet.
Não podemos regressar a Kush.
Não podemos regressar ao Mali medieval.
Não podemos regressar ao Kongo do século XV.
Nem deveríamos querer.
O objetivo da história não é voltar para trás.
É avançar sabendo de onde viemos.
Uma África do século XXI precisa de inteligência artificial, medicina avançada, universidades modernas, indústria, energia, democracia responsável, instituições eficazes e tecnologia.
A ancestralidade deve dar raízes.
Não correntes.
TRADIÇÃO E CRÍTICA
Nem tudo o que é antigo é bom.
Uma prática não se torna justa apenas porque é tradicional.
As culturas africanas sempre mudaram.
Sempre incorporaram coisas.
Sempre abandonaram outras.
Sempre criaram.
Preservar cultura não significa congelá-la.
Uma cultura viva adapta-se sem perder a capacidade de se reconhecer.
A GRANDE LIÇÃO
Depois de atravessarmos milhares de anos de história, regressamos finalmente a Chancellor Williams.
Qual é a grande lição?
Talvez seja esta:
nenhum povo pode entregar a outros a responsabilidade permanente pelo seu destino.
Isso não apaga crimes históricos.
Não elimina colonialismo.
Não elimina escravização.
Não elimina racismo.
Não elimina exploração internacional.
Significa apenas que conhecer o agressor não é suficiente.
Precisamos conhecer as nossas próprias vulnerabilidades.
O INIMIGO EXTERNO E A PORTA INTERNA
Uma potência externa procura interesses.
Isso é previsível.
A verdadeira questão é:
que instituições possuímos para defender os nossos?
Se um contrato prejudicial é assinado, quem assinou?
Se dinheiro desaparece, quem permitiu?
Se uma empresa explora trabalhadores, que legislação existe?
Quem fiscaliza?
Se uma potência estrangeira manipula uma eleição, quais instituições internas permitiram a interferência?
A soberania começa quando paramos de esperar que os outros protejam os nossos interesses por nós.
A UNIDADE NÃO É ROMANTISMO
África não precisa unir-se porque todos somos iguais.
Precisamos cooperar precisamente porque somos diferentes e enfrentamos desafios que nenhum Estado pequeno consegue resolver sozinho.
Alterações climáticas.
Segurança.
Tecnologia.
Infraestrutura.
Migração.
Comércio.
Saúde pública.
Energia.
Negociação internacional.
Estas questões atravessam fronteiras.
O PAN-AFRICANISMO DO SÉCULO XXI
O pan-africanismo moderno precisa ultrapassar slogans.
Precisa de números.
Orçamentos.
Empresas.
Universidades.
Rotas aéreas.
Comboios.
Portos.
Cabos de internet.
Centros de investigação.
Intercâmbios estudantis.
Fundos de investimento.
Cinema.
Editoras.
Tradução entre línguas africanas.
Mercados.
Instituições.
Caso contrário, continuará a ser uma ideia emocionalmente poderosa, mas estruturalmente fraca.
A DIÁSPORA CABO-VERDIANA COMO EXEMPLO
Nós, cabo-verdianos, conhecemos profundamente a experiência da diáspora.
Há cabo-verdianos espalhados pelo mundo.
Portugal.
França.
Luxemburgo.
Países Baixos.
Estados Unidos.
Senegal.
Angola.
E muitos outros lugares.
A nossa própria história demonstra que identidade não termina na fronteira.
Uma pessoa pode viver milhares de quilómetros longe das ilhas e continuar ligada à cultura, à família, à música e à língua.
Imagine esta lógica numa escala continental.
A diáspora africana não precisa ser tratada como uma perda definitiva.
Pode tornar-se uma rede.
CONHECIMENTO É REPATRIAÇÃO
Falamos muito em repatriar objetos.
Mas também precisamos repatriar conhecimento.
Digitalizar documentos sobre África que estão em arquivos estrangeiros.
Formar investigadores africanos.
Traduzir trabalhos.
Criar plataformas abertas.
Preservar línguas.
Financiar investigação.
Uma pessoa não deveria precisar viajar para outro continente para consultar grande parte da documentação sobre a história do seu próprio povo.
A INTERNET PODE MUDAR ISSO
Nunca tivemos uma ferramenta semelhante.
Um jovem numa ilha africana pode hoje consultar bibliotecas digitais que antes exigiam viagens impossíveis.
Pode assistir a conferências.
Pode aprender línguas.
Pode encontrar documentos.
Pode publicar.
Pode criar rádio.
Podcast.
Vídeo.
Artigo.
Livro.
Mas a internet também multiplica desinformação.
Uma mentira histórica visualmente atraente pode alcançar milhões de pessoas antes de um investigador conseguir corrigi-la.
Por isso, rigor é ainda mais importante.
NÃO PARTILHEMOS UMA MENTIRA APENAS PORQUE NOS FAZ SENTIR BEM
Esta deveria ser uma regra do movimento de consciência africana.
Se uma informação parece extraordinária, verifiquemos.
Se uma fotografia tem uma legenda histórica, procuremos a origem.
Se uma frase é atribuída a Malcolm X, Garvey, Cabral ou Fanon, procuremos a fonte.
Se alguém diz que determinada invenção foi africana, verifiquemos.
A verdade é suficientemente poderosa.
Não precisa de falsificações.
CHANCELLOR WILLIAMS E OS LIMITES DO SEU TEMPO
Williams nasceu no século XIX.
Viveu quase todo o século XX.
Viu segregação racial.
Viu movimentos anticoloniais.
Viu independências africanas.
Viu o movimento dos direitos civis.
Viu o Black Power.
Viu o pan-africanismo assumir novas formas.
Naturalmente, a sua obra carrega as marcas dessas batalhas.
Hoje temos mais investigação arqueológica.
Mais dados.
Novas técnicas científicas.
Mais acesso a fontes.
Novas gerações de historiadores africanos.
Por isso, honrar Williams não significa parar em Williams.
Significa continuar a investigação que ele considerava necessária.
UM LIVRO PARA DISCUTIR
“The Destruction of Black Civilization” deve ser lido com lápis na mão.
Perguntando:
Qual é a fonte?
Qual é a evidência?
Esta interpretação continua aceite?
Existem novas descobertas?
Que outros historiadores discordam?
O que Williams viu corretamente?
Onde generalizou demasiado?
Que perguntas continuam sem resposta?
É assim que se respeita um intelectual.
O HOMEM QUE PERDEU GRANDE PARTE DA VISÃO
Nos últimos anos da sua vida, Chancellor Williams sofreu uma grave deterioração da visão.
Por isso, algumas publicações atuais apresentam-no simplesmente como “o historiador cego”.
Essa descrição precisa de contexto.
Ele não realizou toda a sua carreira intelectual sem visão.
A perda visual agravou-se na velhice.
O que torna a sua história comovente não é transformar a cegueira numa lenda.
É perceber que um homem que passou décadas tentando fazer os povos negros olharem novamente para a sua história acabou por enfrentar, fisicamente, a perda da própria visão.
Existe uma ironia humana poderosa nisso.
Mas não devemos transformar deficiência em metáfora e esquecer a pessoa.
Williams continuou a ser aquilo que sempre tinha sido:
um homem profundamente preocupado com o destino histórico dos povos africanos.
MORTE E LEGADO
Chancellor Williams morreu em 1992.
Mas “The Destruction of Black Civilization” continuou a circular.
Passou de geração em geração.
Foi lido em universidades.
Em movimentos políticos.
Em círculos nacionalistas negros.
Em comunidades pan-africanas.
Em grupos de estudo.
Por autodidatas.
Por jovens que procuravam respostas que não encontravam nos programas escolares.
Alguns aceitaram quase tudo.
Outros criticaram muito.
Mas poucos leitores permanecem completamente indiferentes.
Porque Williams obriga-nos a fazer perguntas desconfortáveis.
QUEM É RESPONSÁVEL PELO FUTURO?
Podemos responsabilizar o colonialismo pelo que destruiu.
Devemos.
Podemos responsabilizar sistemas escravistas pelo que fizeram.
Devemos.
Podemos responsabilizar empresas por exploração.
Devemos.
Podemos responsabilizar potências estrangeiras por interferências.
Devemos.
Mas existe uma pergunta que nenhuma geração pode evitar:
Quem será responsável pelo que construirmos agora?
DA DENÚNCIA À CONSTRUÇÃO
Denunciar é necessário.
Construir é mais difícil.
É fácil publicar:
“África é rica.”
É mais difícil criar uma empresa africana capaz de transformar recursos.
É fácil dizer:
“Temos história.”
É mais difícil financiar arqueologia.
É fácil dizer:
“A nossa língua é importante.”
É mais difícil produzir livros, software, dicionários, conteúdos escolares e investigação nessa língua.
É fácil dizer:
“Precisamos de unidade.”
É mais difícil aceitar compromissos com outro grupo africano quando existem divergências.
É aí que começa a verdadeira libertação.
O QUE DEVEMOS CONSTRUIR?
Escolas que ensinem África com rigor.
Bibliotecas.
Arquivos.
Museus.
Empresas.
Cooperativas.
Universidades.
Laboratórios.
Meios de comunicação.
Editoras.
Plataformas digitais.
Bancos.
Fundos de investimento.
Redes comerciais.
Instituições culturais.
Organizações comunitárias.
Porque um povo organizado é muito mais difícil de dominar do que uma multidão indignada.
A CULTURA DE LEITURA
Talvez uma das melhores homenagens que podemos fazer a Chancellor Williams seja simples:
ler.
Não apenas citações nas redes sociais.
Livros.
Livros completos.
Williams.
Diop.
Cabral.
Fanon.
Garvey.
Nkrumah.
Clarke.
W.E.B. Du Bois.
C.L.R. James.
Walter Rodney.
E também autores que discordam deles.
Porque uma consciência que só lê aquilo com que concorda transforma-se facilmente em dogma.
WALTER RODNEY
Walter Rodney merece um lugar especial nesta conversa.
Em “How Europe Underdeveloped Africa”, Rodney analisou a relação entre desenvolvimento europeu e subdesenvolvimento africano.
A palavra “subdesenvolvimento” para Rodney não significava simplesmente ausência de desenvolvimento.
Tratava-se de uma relação histórica.
Certas regiões acumularam riqueza enquanto outras eram integradas numa economia mundial em posições subordinadas.
Ler Rodney ao lado de Williams é particularmente interessante.
Williams olha para uma longa duração histórica.
Rodney concentra grande atenção nas relações económicas associadas ao tráfico e colonialismo.
Juntos ajudam a formular uma questão:
como as relações internacionais produzem desigualdade ao longo do tempo?
FRANTZ FANON
Fanon acrescenta a dimensão psicológica.
O colonialismo não ocupa apenas território.
Produz subjetividade.
Cria hierarquias.
Ensina quem deve ser admirado.
Quem deve ser imitado.
Quem deve sentir vergonha.
A libertação, portanto, também exige reconstrução psicológica.
Mas Fanon sabia que essa reconstrução não poderia ficar limitada à identidade.
A descolonização era política, económica e social.
CABRAL E A CLASSE DIRIGENTE
Cabral alertava para as contradições que surgiriam depois da independência.
A elite nacional poderia substituir administradores estrangeiros sem transformar profundamente a estrutura económica.
Esta é uma questão decisiva.
Quem beneficia da independência?
A população?
Ou uma pequena classe que ocupa as posições anteriormente controladas pelo colonizador?
BANDEIRA SEM PODER
Podemos resumir o problema assim:
Uma bandeira não é soberania.
Um hino não é soberania.
Um presidente negro não é soberania.
Um passaporte não é soberania.
Tudo isso representa elementos importantes de um Estado.
Mas soberania verdadeira exige capacidade de decisão.
A SEGUNDA LIBERTAÇÃO
A primeira grande batalha das independências africanas foi retirar a administração colonial direta.
A segunda é construir capacidade.
Capacidade económica.
Capacidade científica.
Capacidade institucional.
Capacidade cultural.
Capacidade militar dentro do direito.
Capacidade alimentar.
Capacidade tecnológica.
Capacidade diplomática.
E esta batalha será provavelmente mais longa do que a primeira.
A ÁFRICA QUE EU QUERO VER
Eu não quero uma África que viva apenas da memória dos antepassados.
Quero uma África digna deles.
Uma África onde uma criança possa estudar a história de Kush e depois tornar-se engenheira aeroespacial.
Onde possa conhecer Mansa Musa e depois criar uma empresa.
Onde possa aprender sobre Timbuktu e depois construir uma universidade.
Onde possa admirar Nzinga e depois participar numa democracia forte.
Onde possa estudar Cabral e depois servir a comunidade.
Onde possa ler Williams e depois questionar Williams.
Porque isso é liberdade intelectual.
NÃO QUERO UMA ÁFRICA PRESA AO PASSADO
Quero uma África enraizada.
Existe diferença.
Uma árvore não vive dentro das raízes.
As raízes alimentam-na para que cresça.
O passado é raiz.
O futuro são os ramos.
Se cortarmos as raízes, a árvore enfraquece.
Mas se enterrarmos toda a árvore debaixo da terra porque amamos as raízes, também a matamos.
A NOSSA HISTÓRIA NÃO TERMINOU
Talvez esta seja a mensagem mais importante.
A história africana não terminou com o colonialismo.
Não terminou com a independência.
Não terminou com os golpes de Estado.
Não terminou com as guerras.
Não terminou com a dívida.
Não terminou com a migração.
Não terminou com as crises.
Estamos dentro da história neste momento.
Aquilo que fazemos hoje será o passado de alguém amanhã.
DAQUI A QUINHENTOS ANOS
Imaginem um historiador africano no ano 2526.
O que escreverá sobre nós?
Dirá que tivemos recursos extraordinários mas não conseguimos transformá-los?
Dirá que possuíamos internet mas preferíamos desinformação?
Dirá que conhecíamos os erros da divisão mas continuámos divididos?
Dirá que tínhamos milhões de jovens mas não investimos neles?
Dirá que exportávamos minerais estratégicos enquanto importávamos tecnologia?
Ou dirá que esta foi a geração que mudou o caminho?
A GERAÇÃO DA TRANSFORMAÇÃO
Talvez diga:
No início do século XXI, uma nova geração africana começou a compreender que independência política sem soberania económica era incompleta.
Começaram a investir em comércio continental.
Construíram universidades.
Criaram empresas tecnológicas.
Valorizaram línguas africanas.
Recuperaram arquivos.
Repatriaram património.
Criaram novas redes com a diáspora.
Transformaram matérias-primas.
Produziram conhecimento.
E aprenderam finalmente que unidade não significava uniformidade.
O LIVRO DE WILLIAMS COMO ESPELHO
“The Destruction of Black Civilization” é, em última análise, um espelho.
Quando olhamos para ele, não vemos apenas faraós.
Não vemos apenas invasores.
Não vemos apenas escravização.
Não vemos apenas impérios.
Vemos nós próprios.
As nossas divisões.
As nossas possibilidades.
As nossas vulnerabilidades.
As nossas forças.
A PERGUNTA QUE FICA
Depois de centenas de páginas, milhares de anos e inúmeros povos, a pergunta permanece:
O que faremos com aquilo que sabemos?
Porque conhecimento sem ação pode tornar-se apenas entretenimento intelectual.
ÁFRICA NÃO PRECISA DE PENA
África não precisa que tenham pena dela.
Precisa de relações justas.
Precisa de soberania.
Precisa de instituições.
Precisa de responsabilidade.
Precisa de investimento em pessoas.
Precisa de africanos conscientes das suas responsabilidades.
A narrativa da vítima eterna também pode tornar-se uma prisão.
Reconhecer que fomos vítimas de crimes históricos não significa construir uma identidade baseada exclusivamente na vitimização.
SOMOS DESCENDENTES DE SOBREVIVENTES
Os nossos antepassados atravessaram guerras.
Fomes.
Escravização.
Colonização.
Migrações.
Epidemias.
Exploração.
Resistiram.
Adaptaram-se.
Criaram.
Sobreviveram.
Mas a melhor maneira de honrá-los não é romantizar o sofrimento.
É construir condições para que os nossos filhos sofram menos.
A RESPONSABILIDADE INTERGERACIONAL
Cada geração recebe alguma coisa.
Terra.
Língua.
Conhecimento.
Trauma.
Instituições.
Problemas.
Possibilidades.
Depois decide o que transmite.
Podemos transmitir divisão.
Ou organização.
Ignorância.
Ou conhecimento.
Dependência.
Ou capacidade.
Vergonha.
Ou dignidade.
Esta é a verdadeira dimensão histórica da política.
A CRIANÇA QUE AINDA NÃO NASCEU
A libertação também deve pensar naquela criança africana que ainda não nasceu.
Que escolas encontrará?
Que hospitais?
Que cidades?
Que ambiente?
Que língua falará?
Conhecerá a história?
Terá de abandonar o país para realizar os seus sonhos?
Terá acesso a água?
Energia?
Internet?
Segurança?
É por essa criança que a história deve servir.
CONCLUSÃO — RECUPERAR O PASSADO PARA CONSTRUIR O FUTURO
Chancellor Williams passou uma parte enorme da sua vida a tentar responder a uma pergunta dolorosa:
O que aconteceu às civilizações negras?
A resposta que encontrou foi complexa.
Invasões.
Guerras.
Escravização.
Transformações religiosas.
Perda territorial.
Fragmentação política.
Interesses estrangeiros.
Conflitos internos.
Colaboração.
Colonialismo.
Dependência.
Mas talvez a maior contribuição do seu livro não esteja em qualquer resposta isolada.
Está na pergunta.
Williams recusou aceitar que a condição política dos povos negros fosse natural.
Recusou aceitar que África tivesse nascido colonizada.
Recusou aceitar que a história africana começasse com a chegada de estrangeiros.
Foi procurar antes.
Encontrou Estados.
Encontrou impérios.
Encontrou sistemas políticos.
Encontrou resistência.
Encontrou grandeza.
Mas encontrou também erros.
E percebeu que um povo que deseja recuperar soberania precisa estudar ambos.
As vitórias ensinam aquilo que somos capazes de construir.
As derrotas ensinam aquilo que não podemos permitir repetir.
ÁFRICA NÃO É POBRE
Não me venham dizer que África é pobre.
Um continente que possui ouro, diamantes, cobre, cobalto, petróleo, gás, urânio, manganês, bauxita, fosfatos, terras férteis, oceanos, energia solar, biodiversidade e uma das populações mais jovens do planeta não pode ser compreendido simplesmente através da palavra “pobreza”.
O verdadeiro problema é poder.
Quem controla?
Quem transforma?
Quem vende?
Quem compra?
Quem financia?
Quem determina os preços?
Quem possui a tecnologia?
Quem escreve os contratos?
Quem recebe o lucro?
Quem forma os engenheiros?
Quem controla a informação?
É aí que está a questão.
O SOLO PODE SER AFRICANO E O PODER ESTAR NOUTRO LUGAR
Esta talvez seja a melhor maneira de trazer Williams para o presente.
Não basta dizer:
“O mineral é nosso.”
Precisamos conseguir dizer:
“A tecnologia também.”
“O conhecimento também.”
“A transformação também.”
“A empresa também.”
“O emprego qualificado também.”
“O lucro também permanece em parte suficiente para desenvolver a sociedade.”
Só então a riqueza natural se transforma em soberania.
A INDEPENDÊNCIA PRECISA SER COMPLETADA
As gerações anteriores conquistaram bandeiras.
Algumas pagaram com a vida.
Cabe às gerações atuais dar conteúdo a essas bandeiras.
Educação.
Saúde.
Ciência.
Indústria.
Justiça.
Cultura.
Língua.
Infraestrutura.
Tecnologia.
Instituições.
Não podemos pedir aos mortos que façam o trabalho dos vivos.
NÃO ESPEREMOS OUTRO SALVADOR
Nem Williams.
Nem Garvey.
Nem Malcolm X.
Nem Cabral.
Nem Nkrumah.
Nem Sankara.
Nenhum deles regressará para resolver os nossos problemas.
Podemos aprender com eles.
Podemos estudar as suas ideias.
Podemos honrar a sua memória.
Mas cada geração precisa produzir os seus próprios construtores.
A LIBERTAÇÃO NÃO É UM HOMEM
É uma estrutura.
Uma escola bem construída é libertação.
Uma biblioteca é libertação.
Uma empresa produtiva é libertação.
Uma universidade forte é libertação.
Uma língua valorizada é libertação.
Um tribunal independente é libertação.
Uma imprensa responsável é libertação.
Uma família que ensina história aos filhos é libertação.
Uma comunidade que se organiza é libertação.
Uma criança que aprende a pensar criticamente é libertação.
E É AQUI QUE CHANCELLOR WILLIAMS CONTINUA VIVO
Não porque devemos concordar com cada página.
Não porque o livro seja perfeito.
Não porque possua todas as respostas.
Mas porque a pergunta continua viva.
Como um povo perde poder?
Como recupera poder?
Como evita repetir os mesmos erros?
Como transforma memória em estratégia?
THE DESTRUCTION OF BLACK CIVILIZATION
O título é pesado.
“A Destruição da Civilização Negra.”
Mas talvez, depois de ler Williams, devamos acrescentar uma segunda parte que ainda não foi completamente escrita:
“A Reconstrução da Civilização Africana.”
Essa parte não pertence a Chancellor Williams.
Pertence a nós.
A HISTÓRIA AINDA ESTÁ A SER ESCRITA
Cada escola que construímos escreve uma linha.
Cada livro que publicamos escreve outra.
Cada empresa africana que transforma recursos acrescenta uma página.
Cada língua africana que preservamos acrescenta uma página.
Cada jovem que aprende história sem cair no ódio acrescenta outra.
Cada vez que recusamos uma divisão inútil acrescentamos uma página.
Cada vez que responsabilizamos um dirigente corrupto acrescentamos uma página.
Cada vez que África negocia de igual para igual acrescentamos outra.
NÃO SOMOS O ÚLTIMO CAPÍTULO
Somos apenas uma geração.
Antes de nós vieram milhares.
Depois de nós virão milhares, se soubermos proteger aquilo que recebemos.
O nosso dever não é parecer grandes nas redes sociais.
É deixar estruturas maiores do que nós.
POR ISSO EU DIGO:
Estuda África.
Mas estuda com rigor.
Ama África.
Mas ama suficientemente para criticar aquilo que precisa ser corrigido.
Defende África.
Mas não defendas corruptos em nome de África.
Valoriza os antepassados.
Mas não vivas apenas através deles.
Conhece Kemet.
Conhece Kush.
Conhece Núbia.
Conhece Axum.
Conhece Gana.
Conhece Mali.
Conhece Songhai.
Conhece Kongo.
Conhece Ndongo.
Conhece Grande Zimbabwe.
Conhece as cidades suaílis.
Conhece Benim.
Conhece os Asante.
Conhece as resistências.
Conhece a escravização.
Conhece o colonialismo.
Conhece as independências.
Conhece as traições.
Conhece as vitórias.
Conhece as derrotas.
Depois pergunta:
O QUE VAMOS CONSTRUIR?
PORQUE A HISTÓRIA NÃO SERVE PARA DORMIR.
SERVE PARA ACORDAR.
Chancellor Williams tentou acordar uma geração.
Agora cabe a cada geração decidir se volta a dormir.
África possui memória.
África possui inteligência.
África possui juventude.
África possui recursos.
África possui culturas.
África possui uma diáspora espalhada pelo mundo.
Aquilo que falta não é provar que somos humanos.
Nunca tivemos de provar isso.
Aquilo que precisamos é transformar potencial em capacidade.
A VERDADEIRA HOMENAGEM
A verdadeira homenagem a Chancellor Williams não é colocar a fotografia dele numa parede.
É abrir o livro.
Ler.
Investigar.
Questionar.
Comparar.
Aprender.
E depois construir.
Porque a destruição pode ser estudada.
Mas a reconstrução precisa ser feita.
O PASSADO PERTENCE AOS ANTEPASSADOS.
A RESPONSABILIDADE DO PRESENTE PERTENCE A NÓS.
E O FUTURO PERTENCERÁ ÀQUILO QUE TIVERMOS CORAGEM, DISCIPLINA E INTELIGÊNCIA PARA CONSTRUIR.
SABIDO KATA INCHINADU BRABU