GABÃO TEM O POTÁSSIO — MAS QUEM VAI CONTROLAR A RIQUEZA?

BANIO, MILLENNIAL POTASH, INTERESSES NORTE-AMERICANOS E A VERDADEIRA QUESTÃO DA SOBERANIA ECONÓMICA AFRICANA

Quando eu digo que África não é pobre, não estou a repetir uma frase bonita para alimentar orgulho africano.

Estou a falar de uma realidade económica.

África possui terras, minerais, energia, população, posição geográfica, biodiversidade e recursos indispensáveis à economia mundial. O problema histórico do continente nunca foi simplesmente a ausência de riqueza.

A verdadeira questão é outra:

Quem controla essa riqueza?

Quem financia a extração?

Quem possui as empresas?

Quem transforma a matéria-prima?

Quem controla a tecnologia?

Quem financia as infraestruturas?

Quem vende o produto final?

Quem domina os mercados?

Quem recebe os dividendos?

Quem acumula o capital?

E, no final da cadeia, quanto do valor produzido pelo recurso africano permanece efetivamente em África?

É dentro desta questão muito maior que eu observo o Projeto Banio, no Gabão.

Não quero apresentar o assunto como se tudo estivesse decidido. Banio ainda é um projeto em desenvolvimento. Não existe atualmente uma grande mina comercial de Banio distribuindo os lucros que aparecem nas projeções económicas.

Mas precisamente por ainda estar em desenvolvimento, este é o momento certo para fazer as perguntas.

Porque quando uma mina começa a produzir, muitos dos elementos fundamentais — propriedade, financiamento, fiscalidade, infraestruturas, mercados e estrutura da cadeia de valor — já foram definidos.

E depois pode ser tarde para perguntar:

“Mas afinal, quem ficou com a riqueza?”

1. PRIMEIRO: O QUE É O PROJETO BANIO?

Banio é um projeto de potássio situado na região de Mayumba, na província de Nyanga, no sul do Gabão.

A própria Millennial Potash apresenta Banio como o seu principal ativo e descreve a localização atlântica como uma vantagem estratégica. O Ministério das Minas gabonês também identifica o depósito de Mayumba na província de Nyanga.

Isto importa porque estamos a falar de um recurso relacionado diretamente com a agricultura.

O potássio é um dos nutrientes essenciais utilizados nos fertilizantes agrícolas. A DFC norte-americana reconhece precisamente essa importância quando apresenta o apoio ao Banio como relacionado com segurança alimentar e cadeias de abastecimento de fertilizantes.

Portanto, não estamos simplesmente perante “mais uma pedra africana”.

Estamos perante uma matéria-prima ligada a algo muito mais fundamental:

a capacidade de produzir alimentos.

E quando um recurso interfere com agricultura, fertilizantes, importações e segurança alimentar, ele deixa de ser apenas uma questão geológica.

Passa também a ser uma questão:

económica, industrial e geopolítica.

2. QUEM É A MILLENNIAL POTASH?

Aqui temos de começar pelo básico.

A Millennial Potash Corp. é uma empresa canadiana de recursos minerais, focada na exploração e desenvolvimento de depósitos de potássio.

A própria empresa identifica-se dessa forma e apresenta o Banio, no Gabão, como o seu principal projeto. As suas ações são negociadas, entre outros mercados, na TSX Venture Exchange através do símbolo MLP.

Isto significa que é necessário distinguir duas coisas que muitas vezes são confundidas:

a localização física do recurso e a propriedade económica da empresa que desenvolve o recurso.

O potássio encontra-se em território gabonês.

Mas a companhia que atualmente lidera o desenvolvimento do Banio é canadiana.

Parece uma distinção simples.

Na realidade, esta distinção está no centro de grande parte da história económica africana.

Porque possuir geologicamente um recurso dentro das fronteiras nacionais não significa automaticamente controlar toda a cadeia económica criada por esse recurso.

3. QUEM CONTROLA ATUALMENTE BANIO?

Em abril de 2026, a Millennial Potash anunciou que realizou um pagamento contratual que lhe permitiu adquirir mais 10% da Equatorial Potash, elevando a sua participação total para 80%.

Segundo a própria empresa, a Equatorial Potash controla, através da sua subsidiária gabonesa Mayumba Potasse, 100% do projeto Banio.

A Millennial declarou ainda possuir um caminho contratual para adquirir os 20% restantes após a conclusão do estudo definitivo de viabilidade e determinados pagamentos em dinheiro e ações aos vendedores.

É importante escrever isto com precisão.

Hoje, a informação publicada pela companhia aponta para:

Millennial Potash → 80% da Equatorial Potash → Mayumba Potasse → Banio.

E existe um mecanismo contratual anunciado para a Millennial chegar aos 100% da Equatorial.

Isso não significa que o território gabonês deixe de pertencer ao Gabão.

Também não significa que a empresa “possua o Gabão”.

Significa algo muito mais específico:

a empresa canadiana está a aumentar a sua participação económica na estrutura empresarial que controla o projeto.

E é precisamente aqui que começa a minha reflexão afrocentrada.

4. A TERRA É AFRICANA. MAS PROPRIEDADE ECONÓMICA É OUTRA COISA.

Nós africanos precisamos aprender a separar três conceitos:

ter o recurso, explorar o recurso e controlar economicamente o recurso.

Não são a mesma coisa.

Um país pode possuir juridicamente recursos no seu subsolo e, simultaneamente, depender de capital estrangeiro para:

financiamento;

estudos;

tecnologia;

equipamentos;

engenharia;

infraestruturas;

extração;

transformação;

transporte;

comercialização.

E quanto maior essa dependência, maior pode ser a parcela da cadeia económica controlada fora do país.

É por isso que eu insisto:

não basta dizer que África é rica.

Temos de perguntar quanto dessa riqueza se converte em capital africano duradouro.

5. QUAL É A DIMENSÃO DO RECURSO?

Os números anunciados são enormes.

Em abril de 2026, a Millennial referiu uma estimativa mineral atualizada composta por aproximadamente:

648,2 milhões de toneladas de recursos medidos, com teor de 15,7% KCl;

1,8 mil milhões de toneladas de recursos indicados, com teor de 15,6% KCl;

e

3,56 mil milhões de toneladas de recursos inferidos, também em torno de 15,6% KCl.

São números impressionantes.

Mas aqui temos de ser intelectualmente sérios.

Recurso mineral não é sinónimo de reserva economicamente extraível.

E muito menos significa que existam bilhões de dólares já disponíveis para serem divididos.

Um recurso geológico precisa ser estudado, convertido quando aplicável em categorias economicamente justificáveis, financiado, licenciado, extraído, processado e vendido.

Portanto, não vou transformar toneladas de recurso em “dinheiro garantido”.

Isso seria propaganda, não análise.

6. A EXPLORAÇÃO CONTINUA EM 2026

Banio não é um projeto parado.

Em maio de 2026, a companhia anunciou o início de uma terceira fase de perfuração, composta por quatro novos furos previstos, totalizando aproximadamente 4.000 metros de perfuração, destinados a testar a extensão da mineralização.

Em agosto de 2026, a empresa comunicou novos resultados do furo BA-006, incluindo interseções de mineralização de potássio dentro da sequência salina.

Isto demonstra uma coisa importante:

o projeto continua a ser estudado e desenvolvido.

Não devemos falar dele como se toda a sua economia futura já estivesse determinada.

7. O ESTUDO DEFINITIVO DE VIABILIDADE

Em janeiro de 2026, a Millennial anunciou o início do seu Definitive Feasibility Study — DFS, ou Estudo Definitivo de Viabilidade.

A empresa contratou a especialista alemã ERCOSPLAN para desenvolver o estudo.

Em abril, a Millennial afirmou que tanto o DFS como os estudos ambientais e sociais estavam previstos para conclusão até ao final de 2026 e que esses trabalhos apoiariam uma futura candidatura à licença mineira.

Portanto:

Banio ainda precisa atravessar etapas fundamentais antes da produção comercial.

Esta distinção é essencial.

Quando falamos de produção, receitas, empregos e lucros futuros, estamos a falar de projeções condicionadas ao desenvolvimento efetivo do projeto.

8. MAS JÁ EXISTE UMA ESTIMATIVA ECONÓMICA

Existe, sim.

E aqui a história torna-se ainda mais interessante.

Uma avaliação económica preliminar de 2024 modelou um cenário de produção de aproximadamente 800 mil toneladas anuais de MOP granular.

Nesse cenário, foram utilizados parâmetros como:

CAPEX inicial de aproximadamente US$480 milhões;

custo operacional modelado em cerca de US$61 por tonelada;

royalty modelada de 7,5%;

imposto corporativo de 30%;

e um horizonte de 25 anos para determinados cálculos financeiros.

A avaliação produziu um NPV pós-impostos de aproximadamente US$1,071 mil milhões, usando uma taxa de desconto de 10%, e uma IRR pós-impostos de 32,6%.

Mas volto a sublinhar:

NPV não é dinheiro existente numa conta bancária.

É um cálculo financeiro baseado em hipóteses.

Preço futuro do produto.

Custos.

Produção.

Taxas.

Investimento.

Calendário.

Mercados.

Financiamento.

Risco.

Tudo isso pode mudar.

Portanto, quando alguém vê “US$1,071 mil milhões”, não deve dizer:

“A empresa vai ganhar exatamente mil milhões.”

Não é isso que o número significa.

9. ENTÃO QUEM VAI RECEBER OS LUCROS?

Esta é talvez a pergunta mais importante de todo este artigo.

E a resposta precisa ser mais sofisticada do que simplesmente:

“Os estrangeiros.”

Porque existem diferentes fluxos económicos.

Se Banio chegar à produção, poderá existir receita proveniente da venda do potássio.

Dessa receita terão de sair:

custos operacionais;

salários;

fornecedores;

transporte;

energia;

manutenção;

financiamento;

impostos;

royalties;

investimentos;

e outras despesas.

Só depois se pode falar corretamente em resultados empresariais e potenciais distribuições aos proprietários do capital.

Assim, não é sério afirmar que “todo o dinheiro sai do Gabão”.

Mas também não é sério fingir que propriedade empresarial não importa.

Importa profundamente.

10. O QUE O GABÃO PODERÁ RECEBER?

O modelo económico preliminar utilizado para Banio considerou uma royalty de 7,5% paga ao governo gabonês.

O documento técnico refere uma faixa potencial negociável de 5% a 10%.

Também utilizou uma taxa de imposto corporativo de 30%, indicando que a taxa base considerada era 30% e que não excederia 35% no enquadramento descrito pelo estudo.

Isto é importante porque desmonta uma simplificação.

Não é correto dizer:

“O Gabão não ganha nada.”

Se o projeto entrar em produção nas condições previstas, o Estado poderá beneficiar através de mecanismos fiscais e royalties, além dos efeitos económicos indiretos.

Mas a pergunta afrocentrada não termina aqui.

Ela começa aqui.

11. IMPOSTO NÃO É A MESMA COISA QUE PROPRIEDADE

Um Estado receber impostos de uma empresa estrangeira não significa que esse Estado detenha economicamente a empresa.

Da mesma forma:

royalty não é dividendo;

salário não é participação acionista;

emprego não é propriedade;

exportação não é industrialização;

investimento estrangeiro não é automaticamente soberania económica.

Cada uma destas coisas tem valor.

Mas são coisas diferentes.

Se nós misturarmos tudo, nunca compreenderemos verdadeiramente como funciona a economia.

12. EMPREGOS: O QUE O GOVERNO DO GABÃO ANUNCIOU?

Em julho de 2025, o Ministério das Minas e Recursos Geológicos do Gabão publicou informações sobre o desenvolvimento de Mayumba.

Segundo o ministério, o projeto foi apresentado com:

US$500 milhões de investimento;

800 mil toneladas de fertilizante por ano de produção esperada;

e

975 empregos diretos previstos.

O governo enquadrou o projeto dentro de uma estratégia de investimento com maior valor acrescentado e transformação local.

Mais uma vez:

“previstos” não significa “já criados”.

São objetivos associados ao desenvolvimento do projeto.

E é exatamente assim que devem ser apresentados.

13. 975 EMPREGOS SÃO IMPORTANTES. MAS A DISCUSSÃO NÃO PODE PARAR NOS EMPREGOS.

Quero empregos para africanos.

Quero salários dignos.

Quero formação.

Quero oportunidades.

Mas existe uma diferença enorme entre uma economia construída para empregar africanos e uma economia construída para transformar africanos em proprietários, engenheiros, industriais, investidores e detentores de capital.

Emprego é fundamental.

Mas emprego sozinho não resolve a questão da soberania económica.

Um continente não constrói poder apenas trabalhando para empresas.

Constrói poder quando também possui:

empresas;

tecnologia;

capital;

bancos;

patentes;

indústrias;

infraestruturas;

redes comerciais;

capacidade de financiamento.

É esta a mudança de mentalidade que eu quero.

14. E OS ESTADOS UNIDOS? POR QUE ENTRARAM NO BANIO?

Aqui entramos diretamente na geopolítica.

A U.S. International Development Finance Corporation — DFC é a instituição norte-americana de financiamento do desenvolvimento.

Em julho de 2025, a DFC anunciou apoio ao desenvolvimento do Banio para ajudar a financiar o estudo definitivo de viabilidade.

A DFC posteriormente quantificou esse compromisso em US$3 milhões de apoio ao desenvolvimento do projeto.

E existe algo que considero particularmente importante.

A própria DFC explica que a instituição mobiliza capital privado para promover desenvolvimento, mas também para avançar política externa e segurança nacional dos Estados Unidos.

Isto não é uma teoria minha.

É a forma como a própria instituição descreve a sua missão.

15. QUANDO EU DIGO “GEOPOLÍTICA”, É DISTO QUE ESTOU A FALAR.

Temos de abandonar uma visão infantil das relações internacionais.

Estados não investem bilhões pelo mundo apenas porque “gostam” de outros países.

Países possuem interesses.

Empresas possuem interesses.

Governos possuem estratégias.

Instituições financeiras possuem objetivos.

Isso não significa automaticamente conspiração.

Significa simplesmente geopolítica.

Os Estados Unidos têm interesses.

O Canadá tem interesses empresariais.

O Gabão tem interesses nacionais.

Os investidores têm interesses financeiros.

As populações locais têm interesses sociais e ambientais.

Os agricultores africanos têm interesse no acesso a fertilizantes.

Todos esses interesses podem coincidir em determinados pontos e entrar em conflito noutros.

A questão africana é:

onde está o nosso próprio interesse estratégico dentro desta negociação?

16. POTÁSSIO NÃO É APENAS UM MINERAL. É AGRICULTURA.

A DFC apresenta o potássio como um ingrediente essencial dos fertilizantes e relaciona Banio com a segurança alimentar africana.

A instituição observa também a dependência africana das importações de potássio, incluindo de fornecedores como Rússia e Bielorrússia.

Isto muda completamente a dimensão da discussão.

Porque se África conseguir produzir potássio em escala, existe potencial para reduzir determinadas dependências externas.

Mas isso cria outra pergunta:

o potássio africano vai alimentar prioritariamente a agricultura africana ou simplesmente integrar os mercados mundiais de exportação?

As duas coisas podem coexistir.

Mas as proporções importam.

17. O MERCADO AFRICANO TEM DE FAZER PARTE DA EQUAÇÃO

A própria DFC afirma que a Millennial está em conversações com potenciais compradores locais em África, com o objetivo de aumentar a oferta regional.

Isto é potencialmente muito importante.

Porque o verdadeiro valor estratégico de Banio para África não seria simplesmente colocar toneladas num navio.

Seria também utilizar o recurso para fortalecer:

agricultura africana;

produção regional de fertilizantes;

cadeias de abastecimento africanas;

segurança alimentar;

indústria química;

emprego técnico;

comércio intra-africano.

É aí que o potássio deixa de ser simplesmente uma commodity e começa a tornar-se instrumento de soberania.

18. A GRANDE CONTRADIÇÃO AFRICANA

África possui enormes recursos naturais.

Mas historicamente exportou demasiado desses recursos com transformação insuficiente dentro do próprio continente.

Esta é uma das grandes contradições das economias africanas.

Extraímos.

Exportamos.

Depois importamos produtos de maior valor.

Quando isso acontece repetidamente, o continente ocupa a parte menos poderosa da cadeia.

A matéria-prima possui valor.

Mas transformação industrial geralmente acrescenta mais valor.

Distribuição acrescenta valor.

Marca acrescenta valor.

Tecnologia acrescenta valor.

Financiamento acrescenta valor.

Logística acrescenta valor.

Conhecimento acrescenta valor.

Quem controla mais etapas controla uma parcela maior da economia.

19. O PROBLEMA NÃO É EXPORTAR

Também quero deixar isto claro.

Não estou a defender que África deixe de exportar.

Isso seria economicamente absurdo.

Comércio internacional é necessário.

O problema não é:

exportar.

O problema é:

exportar sem construir capacidade interna.

Exportar sem industrializar.

Exportar sem formar engenheiros.

Exportar sem desenvolver empresas locais.

Exportar sem acumular capital.

Exportar sem construir infraestruturas que sirvam também à economia nacional.

Exportar sem utilizar receitas para diversificar a economia.

Exportar sem aumentar participação africana na cadeia de valor.

É essa diferença que importa.

20. EXTRAÇÃO NÃO É DESENVOLVIMENTO AUTOMÁTICO

Uma mina pode aumentar o PIB sem transformar profundamente a estrutura económica de um país.

Pode gerar exportações.

Pode gerar impostos.

Pode gerar empregos.

Tudo isso é positivo.

Mas desenvolvimento estrutural exige mais.

Exige que a riqueza extraída hoje crie capacidade produtiva para amanhã.

Uma mina acaba.

Um depósito esgota-se.

Mas conhecimento permanece.

Infraestrutura permanece.

Capital humano permanece.

Empresas podem permanecer.

Tecnologia pode permanecer.

Instituições podem permanecer.

É aí que se mede o verdadeiro sucesso.

21. O GABÃO FALA EM TRANSFORMAÇÃO LOCAL

E aqui existe um ponto que merece ser reconhecido.

O governo gabonês não está publicamente a apresentar Banio apenas como um projeto de exportação de matéria-prima.

O Ministério das Minas enquadrou o acordo dentro de uma visão de transformação local e investimento de forte valor acrescentado.

Isso é exatamente o tipo de discurso que África precisa transformar em política concreta.

Porque falar de soberania é fácil.

Construí-la é muito mais difícil.

22. O QUE SIGNIFICA “TRANSFORMAÇÃO LOCAL” NA PRÁTICA?

Para mim, transformação local não pode significar apenas construir uma instalação mínima para preparar o produto antes de o colocar num navio.

Tem de existir uma ambição muito maior.

Significa perguntar:

Quanto será processado no Gabão?

Que equipamentos poderão ser fabricados ou mantidos localmente?

Quantos engenheiros gaboneses serão formados?

Quantos gestores africanos estarão nos níveis de decisão?

Que percentagem das compras será feita a empresas gabonesas?

Existirão fornecedores locais?

Existirá transferência tecnológica?

Existirá investigação ligada ao setor?

Existirá participação de capital africano?

O fertilizante será disponibilizado a agricultores africanos?

A infraestrutura servirá outras atividades económicas?

É isto que transforma um projeto mineiro numa política de desenvolvimento.

23. O PORTO E A INFRAESTRUTURA TAMBÉM IMPORTAM

A Millennial declarou em março de 2026 que continuava a trabalhar em iniciativas de infraestrutura, incluindo construção portuária perto de Mayumba e financiamento associado.

Infraestrutura pode transformar completamente uma região.

Mas novamente:

infraestrutura para quê e para quem?

Se um porto serve apenas para retirar matéria-prima, o seu impacto é uma coisa.

Se esse porto também facilita comércio regional, pesca, indústria, logística, exportações gabonesas e outras atividades produtivas, o impacto nacional pode ser muito maior.

É por isso que o desenho do projeto importa tanto quanto o tamanho do depósito.

24. O MODELO ECONÓMICO ORIGINAL TAMBÉM OLHAVA PARA O BRASIL

A avaliação económica preliminar utilizou o Brasil como mercado de referência em determinados pressupostos comerciais e considerou custos de transporte marítimo entre o Gabão e o Brasil.

Isto mostra a vantagem geográfica potencial da costa atlântica gabonesa.

Mas para mim levanta novamente a questão central:

qual será a divisão futura entre exportação mundial e abastecimento africano?

Não existe necessariamente contradição entre ambos.

Banio pode vender internacionalmente e simultaneamente contribuir para fertilizantes africanos.

A questão é se essa dimensão africana será central ou secundária.

25. ÁFRICA PRECISA PARAR DE CONFUNDIR INVESTIMENTO COM CARIDADE

Quando uma empresa investe centenas de milhões num projeto, não está a fazer caridade.

Está à procura de retorno.

E não existe nada de errado nisso.

Uma empresa existe para criar valor económico.

O erro acontece quando nós africanos olhamos para investimento estrangeiro como se fosse um presente.

Não é.

É uma negociação.

O investidor procura retorno.

O Estado deve procurar desenvolvimento nacional.

A população procura emprego e melhoria de vida.

A arte da soberania económica está em construir um acordo onde esses interesses produzam benefício duradouro para o país.

26. EU NÃO SOU CONTRA CAPITAL ESTRANGEIRO

Quero deixar isto absolutamente claro.

Ser afrocentrado não significa ser economicamente irracional.

África precisa de capital.

Precisa de tecnologia.

Precisa de parceiros.

Precisa de mercados.

Precisa de conhecimento.

Precisa de investimento.

Mas parceria não pode significar dependência eterna.

O objetivo deve ser utilizar investimento externo para aumentar progressivamente a capacidade interna africana.

27. A PERGUNTA CERTA NÃO É “ESTRANGEIRO OU AFRICANO?”

A pergunta mais inteligente é:

que estrutura produz maior soberania africana ao longo do tempo?

Uma empresa estrangeira pode trazer capital e tecnologia importantes.

Uma empresa nacional pode também ser mal gerida ou capturada por elites.

Portanto, nacionalidade empresarial, por si só, não resolve tudo.

Precisamos observar:

propriedade;

governação;

tributação;

transparência;

conteúdo local;

transferência tecnológica;

impacto ambiental;

participação comunitária;

industrialização;

distribuição dos benefícios.

Afrocentrismo económico sério precisa ir além de slogans.

28. MAS PROPRIEDADE CONTINUA A IMPORTAR

Dizer que nacionalidade não resolve tudo não significa dizer que propriedade não interessa.

Interessa.

Muito.

Porque os proprietários do capital possuem direitos económicos sobre os resultados da empresa.

Quando uma empresa cresce, valoriza-se e distribui dividendos, os seus acionistas beneficiam proporcionalmente às suas participações e às regras aplicáveis.

Por isso, se queremos acumulação de riqueza africana, precisamos também de capital africano.

Não apenas trabalhadores africanos.

Não apenas consumidores africanos.

Não apenas governos cobrando impostos.

Também:

investidores africanos;

fundos africanos;

bancos africanos;

empresas africanas;

poupança africana convertida em investimento produtivo.

29. POR QUE ISTO É UMA QUESTÃO PAN-AFRICANA?

Porque fertilizantes não respeitam as fronteiras coloniais.

Agricultura também não.

Segurança alimentar também não.

Se o Gabão conseguir produzir potássio competitivo e parte dele abastecer mercados africanos, o impacto pode ultrapassar largamente as fronteiras gabonesas.

Podemos imaginar cadeias:

Gabão produz.

Outro país africano transforma.

Outro fabrica misturas de fertilizantes.

Outro utiliza na agricultura.

Outro processa alimentos.

Outro distribui.

Isto é integração económica africana.

30. É AQUI QUE ENTRA A VISÃO PAN-AFRICANA

Pan-africanismo económico não pode limitar-se a bandeiras, discursos e celebração de grandes líderes.

Tem de entrar:

nas minas;

nos bancos;

nas fábricas;

nos portos;

na agricultura;

nas universidades;

nos laboratórios;

na tecnologia;

nos mercados financeiros.

A verdadeira libertação também é material.

31. CABRAL ENSINOU-NOS A OLHAR PARA A REALIDADE CONCRETA

Para mim, uma análise africana séria não deve substituir dados por emoção.

Precisamos olhar para a realidade concreta.

Quem possui?

Quem produz?

Quem financia?

Quem vende?

Quem compra?

Quem lucra?

Quem paga impostos?

Quem assume o risco?

Quem detém a tecnologia?

Quem fica com as competências quando o projeto termina?

É assim que se analisa poder.

32. NÃO QUERO SUBSTITUIR PROPAGANDA EUROCÊNTRICA POR PROPAGANDA AFROCÊNTRICA

Isto também é importante.

Se queremos defender África, temos de defender África com verdade.

Não preciso inventar números.

Não preciso dizer que o Gabão “não receberá nada”.

Não preciso dizer que os Estados Unidos “roubaram” o projeto.

Não preciso dizer que existe lucro quando ainda não existe produção comercial.

Os próprios factos já levantam perguntas suficientemente importantes.

Uma empresa canadiana controla 80% da estrutura empresarial relevante e anunciou caminho para os 100%.

Uma instituição governamental norte-americana colocou US$3 milhões no desenvolvimento do estudo e reconhece interesses estratégicos norte-americanos na sua missão.

O Gabão espera investimento, produção, emprego e transformação local.

Isto basta para termos uma discussão séria.

33. A QUESTÃO NÃO É DEMONIZAR A MILLENNIAL POTASH

A empresa está a fazer aquilo que empresas fazem:

procura desenvolver um ativo;

atrair capital;

aumentar recursos;

reduzir riscos;

obter licenças;

construir infraestrutura;

produzir;

vender;

e gerar retorno aos seus investidores.

A pergunta política não é:

“Por que a empresa quer ganhar dinheiro?”

É evidente que quer.

A pergunta é:

“O Gabão estruturará o projeto de forma a transformar essa atividade empresarial também em desenvolvimento nacional duradouro?”

Essa é a verdadeira questão.

34. E A RESPONSABILIDADE AFRICANA?

Nós também precisamos parar de colocar toda a responsabilidade no estrangeiro.

Se um Estado africano negocia mal contratos, isso é responsabilidade política africana.

Se existe corrupção, temos de falar dela.

Se elites capturam rendas minerais, temos de denunciar.

Se receitas não chegam à população, não podemos culpar apenas Toronto, Washington, Paris, Londres ou Pequim.

Soberania também significa responsabilidade.

35. O COLONIALISMO CRIOU ESTRUTURAS ECONÓMICAS REAIS

Mas reconhecer responsabilidade africana contemporânea não significa apagar a história.

Muitas economias africanas foram organizadas durante o colonialismo para produzir e exportar matérias-primas para centros industriais externos.

Infraestruturas eram frequentemente construídas para ligar zonas de produção a portos, e não necessariamente para integrar economias nacionais africanas.

Depois das independências políticas, muitas dessas estruturas económicas sobreviveram.

Por isso, a batalha atual é também estrutural:

transformar economias de extração em economias de produção.

36. A SOBERANIA POLÍTICA FOI APENAS UMA ETAPA

Uma bandeira é importante.

Um hino é importante.

Uma constituição é importante.

Um governo nacional é importante.

Mas soberania política sem capacidade económica possui limites.

Se não controlas:

alimentação;

energia;

financiamento;

tecnologia;

infraestrutura;

produção;

então a tua margem de decisão é menor.

É por isso que digo:

independência política sem soberania económica continua incompleta.

37. BANIO PODE SER UMA OPORTUNIDADE PARA O GABÃO

Eu não vejo Banio apenas como ameaça.

Vejo também oportunidade.

Um recurso dessa escala potencial pode ajudar o Gabão a:

diversificar a economia;

criar empregos;

atrair infraestrutura;

formar técnicos;

criar receitas fiscais;

desenvolver indústria;

fortalecer Mayumba;

entrar no mercado mundial de fertilizantes;

e potencialmente abastecer mercados africanos.

Mas oportunidades não se realizam sozinhas.

Precisam de política.

38. O QUE EU GOSTARIA DE VER?

Eu gostaria de ver metas claras de conteúdo local.

Formação obrigatória de trabalhadores gaboneses.

Programas para engenheiros.

Participação de universidades.

Fornecedores locais.

Empresas africanas integradas na cadeia.

Transparência fiscal.

Proteção ambiental.

Participação das comunidades.

Acesso africano ao produto.

Transformação no território.

Reinvestimento das receitas.

E, quando economicamente possível, maior participação de capital africano.

Isso para mim é soberania.

39. E AS COMUNIDADES LOCAIS?

Não podemos falar de bilhões e esquecer quem vive no território.

Projetos mineiros transformam espaço.

Podem criar empregos e infraestrutura.

Mas também podem alterar uso da terra, ecossistemas, circulação, atividades tradicionais e relações sociais.

Por isso, estudos ambientais e sociais não podem ser tratados como simples papelada para obter licença.

A Millennial declarou que o Environmental and Social Impact Assessment — ESIA está em desenvolvimento juntamente com o DFS.

A população precisa fazer parte da equação.

40. DESENVOLVIMENTO NÃO É APENAS PIB

Se uma mina aumenta exportações mas uma comunidade perde qualidade de vida, temos um problema.

Se gera impostos mas destrói oportunidades económicas locais sem compensação adequada, temos um problema.

Se cria riqueza mas essa riqueza fica extremamente concentrada, temos um problema.

Desenvolvimento precisa ser medido também por:

qualidade dos empregos;

formação;

saúde;

educação;

infraestrutura;

ambiente;

participação local;

capacidade produtiva futura.

41. O POTÁSSIO PODE TER UM PAPEL PARTICULARMENTE ESTRATÉGICO

Porque estamos a falar de agricultura.

África continua a enfrentar desafios de produtividade agrícola e dependência de diversos insumos importados.

Se Banio contribuir para ampliar o acesso africano a potássio, o efeito estratégico pode ir muito além da própria mina.

A DFC apresenta explicitamente o projeto dentro da lógica de segurança alimentar e redução da dependência de importações.

Então eu pergunto:

por que não transformar Banio num pilar de uma política africana de fertilizantes?

42. O POTÁSSIO AFRICANO DEVE SERVIR TAMBÉM AO AGRICULTOR AFRICANO

Não estou a dizer que todo o produto deve permanecer no continente.

Mercados internacionais podem gerar receitas importantes.

Estou a dizer que África não pode descobrir um recurso estratégico para fertilizantes e depois continuar totalmente dependente do exterior para alimentar os seus próprios solos.

Tem de existir estratégia.

43. VALOR ACRESCENTADO É A PALAVRA-CHAVE

Imagina duas economias.

A primeira retira mineral e exporta.

A segunda:

extrai;

processa;

transforma;

fabrica;

transporta;

financia;

distribui;

pesquisa;

exporta;

e reinveste.

Qual delas acumula mais conhecimento?

Qual cria mais empresas?

Qual desenvolve mais trabalhadores especializados?

Qual constrói maior base fiscal?

Qual possui mais poder?

A resposta é evidente.

44. NÃO BASTA TER RECURSOS. É PRECISO TER CADEIAS DE VALOR.

É essa a grande lição.

Recurso sem cadeia de valor pode produzir dependência.

Recurso integrado numa estratégia industrial pode produzir poder.

O futuro de Banio será determinado não apenas pelo número de toneladas existentes no subsolo.

Será determinado por aquilo que se constrói à volta dessas toneladas.

45. QUEM VAI FINANCIAR A CONSTRUÇÃO?

Esta é outra questão fundamental.

US$3 milhões da DFC ajudam a desenvolver estudos.

Mas uma mina, instalações de processamento e infraestrutura exigem capital muito superior.

A avaliação preliminar de 2024 utilizou um CAPEX inicial próximo de US$480 milhões, enquanto o governo gabonês apresentou publicamente um investimento projetado de US$500 milhões.

Quem financiará esse capital?

Dívida?

Ações?

Instituições públicas?

Bancos?

DFC?

Outros parceiros?

As condições desse financiamento também influenciarão a distribuição futura do valor.

46. CAPITAL TEM PREÇO

Dinheiro emprestado custa juros.

Capital acionista procura retorno.

Infraestrutura possui custos.

Risco possui preço.

Por isso, soberania económica não significa simplesmente exigir que investidores estrangeiros façam tudo e depois entreguem todos os benefícios ao país.

Isso não é realista.

Soberania significa aumentar a capacidade africana de participar também do financiamento.

47. ÁFRICA PRECISA DE INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS CAPAZES DE FINANCIAR A PRÓPRIA INDUSTRIALIZAÇÃO

Esta é uma discussão muito maior do que Banio.

Enquanto projetos africanos dependerem quase totalmente de capital externo, os financiadores externos continuarão naturalmente a possuir influência.

Precisamos fortalecer:

bancos africanos;

mercados de capitais;

fundos soberanos;

fundos de pensões;

instituições de desenvolvimento;

poupança interna;

investimento intra-africano.

Sem capital africano, soberania económica continuará limitada.

48. O QUE SIGNIFICA “LUCRO PARA QUEM?”

Agora podemos responder de maneira muito mais precisa.

Se Banio chegar à produção, haverá várias camadas de distribuição económica.

O Estado gabonês poderá receber royalties e impostos.

Os trabalhadores receberão salários e benefícios.

Fornecedores locais e estrangeiros receberão pagamentos por bens e serviços.

Financiadores receberão os retornos previstos nos contratos de financiamento.

Acionistas poderão beneficiar do valor empresarial e de eventuais distribuições, dependendo dos resultados e decisões da companhia.

Comunidades poderão beneficiar de emprego, infraestrutura e programas locais — dependendo da forma como o projeto for estruturado.

Portanto, a pergunta não é simplesmente:

“Quem fica com tudo?”

A pergunta é:

“Como será repartido o valor?”

49. E QUAL É A PARTE AFRICANA DA PROPRIEDADE?

É aqui que eu quero que o debate público vá mais longe.

Royalties são importantes.

Impostos são importantes.

Empregos são importantes.

Mas devemos também discutir propriedade.

Existe participação estatal?

Existirão investidores gaboneses?

Fundos africanos participarão?

Empresas locais poderão tornar-se fornecedoras estratégicas?

Existirá possibilidade de participação futura?

Estas são perguntas legítimas.

50. A ÁFRICA NÃO PODE CONTINUAR APENAS COMO “HOST COUNTRY”

A expressão “país anfitrião” diz muito.

O projeto está na nossa terra.

Mas somos anfitriões.

Eu quero que África deixe progressivamente de ser apenas anfitriã e passe a ser:

proprietária, financiadora, transformadora e comercializadora.

Não de um dia para o outro.

Mas através de estratégia.

51. EXISTE OUTRA DIMENSÃO: CONHECIMENTO

Uma mina moderna depende de geologia, química, engenharia, automação, logística, finanças, ambiente e gestão.

Cada grande projeto africano deveria funcionar também como uma universidade prática.

Se depois de décadas de mineração ainda precisamos importar quase todo o conhecimento técnico, algo falhou.

52. TRANSFERÊNCIA DE CONHECIMENTO DEVE SER MENSURÁVEL

Não basta escrever “transferência tecnológica” num comunicado.

Quero números.

Quantos engenheiros formados?

Quantos técnicos certificados?

Quantas bolsas?

Quantos programas universitários?

Quantas empresas locais capacitadas?

Quantas funções de direção ocupadas por gaboneses?

É assim que se mede progresso.

53. O MESMO VALE PARA CONTEÚDO LOCAL

“Emprego local” pode significar muitas coisas.

Se africanos ocupam principalmente funções de menor remuneração enquanto engenharia, financiamento, gestão e propriedade permanecem no exterior, a cadeia continua desigual.

Precisamos olhar para qualidade e posição dentro da cadeia, não apenas quantidade de empregos.

54. O OBJETIVO NÃO É EXPULSAR CONHECIMENTO ESTRANGEIRO

Pelo contrário.

Devemos aprender com os melhores.

Contratar especialistas.

Criar parcerias.

Importar tecnologia quando necessário.

Mas fazer isso com um objetivo:

que amanhã precisemos importar menos porque aprendemos mais.

Essa é a diferença entre cooperação e dependência.

55. O BANIO TAMBÉM DEVE SER OBSERVADO À LUZ DA SEGURANÇA ALIMENTAR

Potássio é uma das bases dos fertilizantes modernos.

Quando cadeias internacionais são perturbadas, preços agrícolas podem sofrer consequências.

A DFC relaciona explicitamente a dependência africana de fornecedores estrangeiros de potássio com vulnerabilidades nas cadeias de abastecimento.

Uma fonte africana pode aumentar resiliência.

Mas apenas se existir estratégia para que África tenha acesso.

56. PRODUZIR EM ÁFRICA PARA ÁFRICA

Esta ideia precisa ganhar força.

Não como autarquia económica.

Não como isolamento.

Mas como prioridade estratégica.

África possui mais de cinquenta países.

Possui centenas de milhões de hectares agrícolas.

Possui enorme população jovem.

Possui procura crescente.

Por que uma cadeia africana de fertilizantes não pode crescer?

57. COMÉRCIO INTRA-AFRICANO É PARTE DA SOBERANIA

Se um recurso gabonês pode alimentar agricultura no Senegal, Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Camarões, Congo, Angola ou outros países, estamos a construir interdependência africana.

Isso é poder.

Porque soberania no século XXI não significa cada país fazer tudo sozinho.

Também significa construir blocos económicos capazes de negociar coletivamente.

58. O GABÃO TEM UMA POSIÇÃO INTERESSANTE

A localização atlântica de Banio pode facilitar acesso tanto a mercados africanos como internacionais.

A empresa destaca precisamente a posição costeira como uma vantagem estratégica.

Isso pode ser utilizado apenas para exportação.

Ou pode ser utilizado como base de uma plataforma industrial regional.

A escolha política importa.

59. NÃO DEVEMOS CONFUNDIR “BAIXO CUSTO” COM “ALTO BENEFÍCIO NACIONAL”

Um projeto pode ser extremamente competitivo para investidores e ainda assim produzir benefício nacional abaixo do potencial.

Da mesma forma, um projeto pode gerar receitas fiscais importantes e simultaneamente falhar em industrialização.

Por isso, indicadores empresariais não substituem indicadores de desenvolvimento.

60. O QUE DEVEMOS ACOMPANHAR NOS PRÓXIMOS ANOS?

Quem realmente quer saber se Banio será bom para África deve acompanhar coisas concretas:

a conclusão do DFS;

a avaliação ambiental e social;

a licença mineira;

a estrutura final de propriedade;

a estrutura de financiamento;

o acordo fiscal;

as royalties finais;

os compromissos de conteúdo local;

os compradores;

a infraestrutura;

a transformação local;

o início real da produção.

Só então poderemos comparar promessas com realidade.

61. A META DE PRODUÇÃO NÃO É PRODUÇÃO

Este ponto precisa ser repetido.

Uma data anunciada para iniciar produção é uma meta.

Não é um facto consumado.

Projetos mineiros podem sofrer atrasos por:

financiamento;

licenciamento;

engenharia;

infraestrutura;

mercado;

ambiente;

questões técnicas.

Por isso, devemos manter rigor.

62. POR QUE O RIGOR FORTALECE O DISCURSO AFROCENTRADO?

Porque quando exageramos, damos aos outros a oportunidade de rejeitar toda a nossa análise por causa de um erro.

Eu prefiro dizer:

“a empresa anunciou”;

“o estudo estima”;

“o governo prevê”;

“o projeto pretende”;

“se entrar em produção”.

Assim ninguém pode acusar-nos de transformar projeção em facto.

E depois fazemos a crítica política em cima de bases sólidas.

63. AFROCENTRISMO NÃO É NEGAR FACTOS QUE NÃO NOS AGRADAM

É colocar África no centro da análise.

Isso significa perguntar:

qual é o interesse africano?

Não significa manipular números para chegar a uma conclusão previamente escolhida.

Se o Gabão recebe benefícios, eu digo.

Se a empresa estrangeira controla grande participação, eu digo.

Se os EUA possuem interesse estratégico, eu digo.

Se existem oportunidades reais, eu digo.

Se existem riscos, eu digo.

Isso é consciência.

64. E O LUCRO AINDA NÃO EXISTE

Esta frase é essencial.

Neste momento, não podemos dizer:

“os lucros do Banio estão a ir para o Canadá.”

Porque Banio ainda não está nessa fase de produção comercial.

O correto é dizer:

se o projeto entrar em produção lucrativa, os benefícios económicos serão distribuídos entre vários participantes, e os retornos associados à propriedade empresarial beneficiarão os proprietários do capital segundo a estrutura societária e financeira existente.

Essa precisão torna a crítica muito mais forte.

65. ENTÃO POR QUE FALAR AGORA?

Porque propriedade e contratos são definidos antes dos lucros.

Financiamento é estruturado antes da produção.

Infraestrutura é desenhada antes da produção.

Licenças são negociadas antes da produção.

É exatamente agora que a discussão pública importa.

66. O QUE EU NÃO QUERO PARA O GABÃO

Não quero ver o Gabão tornar-se apenas uma plataforma de extração.

Não quero ver navios saírem carregados enquanto o país importa produtos que poderia produzir.

Não quero ver empregos africanos limitados às posições menos qualificadas.

Não quero ver conhecimento sair com os consultores.

Não quero ver receitas minerais consumidas sem criar novas capacidades produtivas.

67. O QUE EU QUERO

Quero que cada tonelada extraída ajude a construir algo que permaneça.

Uma escola técnica.

Um engenheiro.

Uma empresa.

Uma estrada.

Um porto útil ao país.

Uma indústria.

Uma cadeia de fertilizantes.

Um agricultor mais produtivo.

Um fundo para futuras gerações.

Capital africano.

Conhecimento africano.

68. RECURSOS NATURAIS DEVEM FINANCIAR A ECONOMIA PÓS-RECURSO

Esta é talvez uma das ideias mais importantes.

O objetivo de um país rico em recursos não deve ser viver eternamente dos recursos.

Deve ser utilizar recursos finitos para financiar capacidades infinitamente renováveis:

educação;

conhecimento;

tecnologia;

empresas;

infraestrutura;

instituições.

Quando o mineral acabar, o país deve estar mais forte do que antes de começar a extraí-lo.

69. ISSO É SOBERANIA ECONÓMICA

Soberania não significa fechar fronteiras.

Não significa rejeitar investidores.

Não significa nacionalizar tudo.

Significa possuir capacidade de escolha.

Quanto mais um país controla conhecimento, capital, alimentação, energia e infraestrutura, maior é a sua liberdade de decisão.

70. BANIO É UM TESTE

Para mim, Banio pode tornar-se um teste interessante para o Gabão.

O país conseguirá transformar um grande recurso potencial em:

industrialização;

emprego qualificado;

receita pública;

segurança alimentar;

infraestrutura;

capital humano;

e maior autonomia económica?

Ou ficará principalmente na lógica clássica de extração e exportação?

Ainda não sabemos.

E precisamente por não sabermos, devemos acompanhar.

71. O INVESTIDOR TEM DIREITO AO RETORNO. ÁFRICA TEM DIREITO À ESTRATÉGIA.

Esta frase resume grande parte do meu pensamento.

Não estou a pedir caridade.

Estou a pedir inteligência económica.

Se uma empresa coloca capital e assume risco, espera retorno.

Normal.

Mas se um país fornece território, recurso, estabilidade jurídica e acesso ao depósito, também deve negociar pensando no seu futuro.

72. NENHUM PAÍS DESENVOLVIDO ENTREGA A SUA ESTRATÉGIA ECONÓMICA AO ACASO

Os Estados Unidos pensam estrategicamente.

A China pensa estrategicamente.

Canadá pensa nos seus interesses.

Europa pensa nas suas cadeias de abastecimento.

Por que África deveria ser o único continente envergonhado de pensar nos seus próprios interesses?

Não.

Interesse africano não é xenofobia.

É soberania.

73. COOPERAÇÃO SIM. SUBORDINAÇÃO NÃO.

Podemos trabalhar com Canadá.

Podemos trabalhar com Estados Unidos.

Podemos trabalhar com China.

Podemos trabalhar com Europa.

Podemos trabalhar com América Latina.

Podemos trabalhar com todos.

Mas África precisa entrar nessas relações sabendo o que quer.

Quem não possui estratégia acaba dentro da estratégia dos outros.

74. O POTÁSSIO DO GABÃO PODE TORNAR-SE PODER AFRICANO

Se for utilizado corretamente.

Pode apoiar fertilizantes.

Pode apoiar agricultura.

Pode gerar exportações.

Pode gerar receita.

Pode desenvolver Mayumba.

Pode criar conhecimento.

Pode fortalecer comércio regional.

Pode atrair infraestrutura.

Mas nada disso é automático.

75. A GEOLOGIA DÁ A OPORTUNIDADE. A POLÍTICA DECIDE O RESULTADO.

A natureza colocou o potássio no território.

Mas a natureza não decide:

royalties;

impostos;

propriedade;

empregos;

salários;

conteúdo local;

infraestrutura;

transformação;

distribuição.

Isso é política económica.

76. POR ISSO NÃO ME IMPRESSIONA APENAS O TAMANHO DO DEPÓSITO

Bilhões de toneladas impressionam.

Mas eu quero saber:

quantos engenheiros?

quantas fábricas?

quantas empresas locais?

quanto imposto?

quanto investimento africano?

quanto produto para África?

quanto conhecimento?

quanto capital permanecerá?

Esses números dizem mais sobre soberania do que simplesmente toneladas de minério.

77. ÁFRICA PRECISA MUDAR A PERGUNTA

Durante demasiado tempo perguntámos:

“Quanto recurso temos?”

Agora precisamos perguntar:

“Quanto poder económico conseguimos construir com esse recurso?”

Essa é a mudança.

78. DO SUBSOLO PARA O PODER

O recurso está debaixo da terra.

A riqueza verdadeira nasce quando o recurso é convertido em capacidade humana e económica.

Mineral → indústria.

Indústria → emprego.

Emprego → conhecimento.

Conhecimento → empresas.

Empresas → capital.

Capital → autonomia.

É essa cadeia que me interessa.

79. A MINHA POSIÇÃO SOBRE BANIO

Eu não sou contra o projeto.

Também não vou celebrá-lo cegamente.

Quero observá-lo.

Quero saber o que será negociado.

Quero saber quanto ficará no Gabão.

Quero saber quanto servirá África.

Quero saber quem terá propriedade.

Quero saber quem será formado.

Quero saber onde será transformado.

Quero saber quem comprará.

80. E QUANDO COMEÇAREM A FALAR DE “BILHÕES”, FAÇAM UMA PERGUNTA SIMPLES

Bilhões para quem?

Valor do depósito não é receita pública.

Receita não é lucro.

Lucro não é imposto.

Imposto não é dividendo.

Dividendo não é salário.

Salário não é propriedade.

Propriedade não é soberania.

Precisamos compreender cada etapa.

81. ÁFRICA PRECISA DE EDUCAÇÃO ECONÓMICA

É impossível libertar economicamente um povo que não compreende:

juros;

capital;

ações;

royalties;

impostos;

cadeias de valor;

comércio;

financiamento;

propriedade.

Precisamos falar de economia nas nossas comunidades com a mesma paixão com que falamos de política.

82. O PAN-AFRICANISMO DO SÉCULO XXI PRECISA ENTENDER BALANÇOS E CONTRATOS

Os nossos antepassados lutaram por libertação política.

A nossa geração precisa aprofundar a libertação económica.

Isso exige conhecimento.

Não basta gritar “África unida”.

Temos de saber:

como financiar essa África;

como alimentar essa África;

como industrializar essa África;

como comercializar dentro dessa África.

83. BANIO É UMA PEQUENA JANELA PARA UMA QUESTÃO GIGANTE

O mesmo debate aparece no:

cobalto;

cobre;

lítio;

ouro;

diamantes;

petróleo;

gás;

urânio;

manganês;

bauxite;

fosfatos.

O padrão da pergunta é sempre semelhante:

quem controla a cadeia de valor?

84. UM CONTINENTE NÃO É RICO APENAS PORQUE TEM MINÉRIO

Um continente é verdadeiramente rico quando consegue transformar recursos em bem-estar e poder económico duradouro.

Caso contrário, podemos ter uma terra riquíssima e populações pobres.

Essa é precisamente a contradição que precisamos superar.

85. NÃO QUERO UMA ÁFRICA SENTADA EM CIMA DE RIQUEZA QUE NÃO CONTROLA

Quero uma África que conhece o valor do seu solo.

Que negocia.

Que investe.

Que transforma.

Que exporta produtos de maior valor.

Que alimenta o seu povo.

Que financia as suas empresas.

Que forma os seus jovens.

Que protege o seu ambiente.

Que coopera com o mundo sem entregar o seu futuro.

86. O GABÃO TEM AGORA UMA OPORTUNIDADE

O futuro de Banio ainda está a ser construído.

A Millennial pretende concluir estudos.

O Estado quer transformação.

A DFC vê importância estratégica.

Investidores veem oportunidade.

Agora falta observar como todas essas peças serão combinadas.

87. O RESULTADO NÃO SERÁ DETERMINADO POR DISCURSOS

Será determinado por:

contratos;

leis;

capital;

engenharia;

instituições;

fiscalização;

negociação;

competência;

transparência.

É aí que soberania deixa de ser palavra e vira realidade.

88. SE BANIO DER CERTO, EU QUERO VER MAYUMBA MAIS FORTE

Não apenas uma mina mais forte.

Quero ver a região ganhar:

empresas;

estradas;

formação;

oportunidades;

infraestrutura;

atividade económica diversificada.

Porque o verdadeiro sucesso de uma mina não é apenas aquilo que sai do chão.

É aquilo que fica quando o mineral sai.

89. ESTA É A FRASE QUE ÁFRICA PRECISA GUARDAR

O QUE SAI DO SOLO TEM DE CONSTRUIR O QUE FICA SOBRE O SOLO.

Essa, para mim, é a essência.

90. E POR ISSO VOLTO À PERGUNTA INICIAL

Gabão tem potássio.

Mas quem vai controlar a riqueza?

A resposta ainda não está totalmente escrita.

Sabemos que uma companhia canadiana lidera o desenvolvimento e possui atualmente 80% da Equatorial Potash, com caminho anunciado para adquirir a participação restante.

Sabemos que os Estados Unidos, através da DFC, comprometeram US$3 milhões para apoiar o desenvolvimento e o estudo de viabilidade.

Sabemos que o governo gabonês fala de aproximadamente US$500 milhões de investimento, 800 mil toneladas anuais esperadas e 975 empregos diretos previstos.

Sabemos que estudos económicos anteriores modelaram royalties, impostos e um projeto potencialmente rentável.

Mas ainda precisamos descobrir o mais importante:

quanto desse potencial será convertido em poder económico africano duradouro?

CONCLUSÃO — A TERRA É AFRICANA. O FUTURO TAMBÉM TEM DE SER.

Não quero uma África fechada ao mundo.

Quero exatamente o contrário.

Quero uma África suficientemente forte para negociar com o mundo de igual para igual.

Uma África capaz de receber investimento sem vender o futuro.

Capaz de exportar sem permanecer dependente.

Capaz de cooperar sem se subordinar.

Capaz de utilizar capital estrangeiro enquanto constrói capital africano.

Capaz de receber tecnologia enquanto desenvolve tecnologia africana.

Capaz de extrair recursos enquanto constrói indústrias.

Capaz de vender potássio ao mundo enquanto fortalece a agricultura africana.

É por isso que Banio merece atenção.

Não porque uma empresa canadiana seja automaticamente inimiga.

Não porque investimento norte-americano seja automaticamente exploração.

Não porque toda atividade estrangeira em África seja colonialismo.

Mas porque a história ensinou-nos uma coisa:

quem não controla a estrutura económica pode possuir a terra e continuar sem controlar plenamente a riqueza produzida por ela.

Então a minha pergunta permanece.

Não é apenas:

quanto potássio existe no Gabão?

É:

quem possui o capital?

quem controla a empresa?

quem transforma o recurso?

quem domina a tecnologia?

quem financia?

quem vende?

quem recebe os retornos?

quanto fica no Gabão?

quanto circula dentro de África?

quanto ajuda agricultores africanos?

quanto cria indústria africana?

quanto forma engenheiros africanos?

quanto constrói empresas africanas?

quanto transforma riqueza geológica em soberania económica?

Porque a terra pode ser africana.

O recurso pode ser africano.

O trabalhador pode ser africano.

Mas isso, sozinho, não garante que o poder económico também seja africano.

É precisamente essa transformação que temos de exigir.

Do recurso para a indústria.

Da indústria para o conhecimento.

Do conhecimento para o capital.

Do capital para a soberania.

ÁFRICA NÃO DEVE APENAS EXTRAIR.
ÁFRICA DEVE TRANSFORMAR.

ÁFRICA NÃO DEVE APENAS TRABALHAR.
ÁFRICA DEVE POSSUIR.

ÁFRICA NÃO DEVE APENAS EXPORTAR.
ÁFRICA DEVE ACUMULAR CAPITAL.

ÁFRICA NÃO DEVE APENAS TER RIQUEZA DEBAIXO DA TERRA.
ÁFRICA TEM DE CONVERTER ESSA RIQUEZA EM PODER SOBRE A TERRA.

O potássio está no Gabão.

A terra é africana.

Agora a verdadeira batalha é fazer com que uma parte cada vez maior do conhecimento, transformação, indústria, capital e valor acrescentado também permaneça africana.

Isso não é rejeitar o mundo.

Isso é entrar no mundo de pé.

Com consciência.

Com estratégia.

Com conhecimento.

Com soberania.

SABIDO KATA INCHINADU BRABU