CABO VERDE E GUINÉ-BISSAU: DOIS POVOS IRMÃOS

 

A XENOFOBIA NÃO PODE APAGAR A NOSSA HISTÓRIA

 

Por SABIDO KATA INCHINADU BRABU

 

 

INTRODUÇÃO — QUANDO DOIS IRMÃOS ESQUECEM A MESMA HISTÓRIA

 

Há assuntos que não podem ser tratados apenas com emoção.

 

Há assuntos que exigem memória.

 

E falar da xenofobia entre cabo-verdianos e guineenses é falar precisamente de memória: daquilo que lembramos, daquilo que esquecemos e daquilo que, muitas vezes, nunca nos ensinaram corretamente.

 

Cabo Verde e Guiné-Bissau são duas nações diferentes. Cada povo possui a sua história, as suas culturas, as suas línguas, as suas tradições e a sua própria experiência nacional.

 

Reconhecer essa diferença é fundamental.

 

Mas reconhecer a diferença não significa negar aquilo que historicamente nos aproximou.

 

Durante a luta anticolonial, os nomes Guiné e Cabo Verde foram colocados lado a lado no próprio nome do PAIGC — Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. A organização foi fundada em 1956 e conduziu a luta de libertação contra o domínio colonial português. Amílcar Cabral tornou-se a figura central desse movimento e um dos principais pensadores africanos da libertação do século XX.

 

Mais importante ainda: a unidade entre guineenses e cabo-verdianos não era simplesmente uma coincidência no nome do partido.

 

Fazia parte de um projeto político.

 

Documentos históricos sobre o programa do PAIGC mostram que se defendiam direitos e deveres iguais, colaboração fraterna entre guineenses e cabo-verdianos e oposição às tentativas de divisão dos dois povos. Essa unidade era apresentada dentro de uma conceção mais ampla de unidade africana.

 

É por isso que existe uma profunda contradição histórica quando, décadas depois, encontramos um cabo-verdiano a desprezar um guineense simplesmente porque ele é guineense — ou um guineense a desprezar um cabo-verdiano simplesmente porque ele é cabo-verdiano.

 

Não precisamos fingir que somos exatamente iguais.

 

Não somos.

 

Mas também não podemos fingir que as nossas histórias nunca se cruzaram.

 

Cruzaram-se.

 

E cruzaram-se profundamente.

 

Este texto não pretende acusar todos os cabo-verdianos de xenofobia.

 

Também não pretende acusar todos os guineenses.

 

Isso seria intelectualmente errado e moralmente injusto.

 

O objetivo é outro: identificar preconceitos onde eles existem, compreender as suas raízes, analisar as contradições históricas e defender uma relação entre os dois povos baseada na dignidade.

 

Porque não existe verdadeira consciência africana quando um africano precisa diminuir outro africano para se sentir maior.

 

 

1. ANTES DE FALAR DE XENOFOBIA, PRECISAMOS CONHECER A HISTÓRIA

 

Um dos maiores problemas das sociedades pós-coloniais é que frequentemente discutimos as consequências sem estudar suficientemente as origens.

 

Discutimos nacionalidade.

 

Discutimos sotaque.

 

Discutimos imigração.

 

Discutimos quem é “mais africano”.

 

Discutimos quem é “mais civilizado”.

 

Mas esquecemos de perguntar:

 

De onde vieram muitas dessas categorias?

 

Cabo Verde e Guiné-Bissau viveram durante séculos dentro do sistema imperial português, embora de formas diferentes.

 

A própria administração colonial dos territórios mudou ao longo da história. A Library of Congress observa que a administração conjunta de Cabo Verde e da então Guiné Portuguesa terminou em 1879, passando depois a constituir territórios coloniais separados.

 

Isto é importante porque demonstra uma coisa: as relações entre os dois territórios não começaram ontem com a imigração moderna.

 

Existe uma história muito mais longa.

 

Mas essa história não deve ser romantizada.

 

A colonização criou hierarquias.

 

Criou classificações.

 

Criou divisões jurídicas e sociais.

 

Criou maneiras diferentes de posicionar populações africanas dentro da estrutura imperial.

 

Por isso, quando hoje observamos preconceitos entre populações africanas, não devemos concluir automaticamente que tudo foi inventado pelo colonialismo.

 

Os africanos também possuem agência e responsabilidade pelos preconceitos que reproduzem.

 

Mas também seria ingénuo analisar as sociedades pós-coloniais como se séculos de administração colonial, classificação racial, desigualdade e assimilação cultural simplesmente tivessem desaparecido no dia da independência.

 

A independência política não apaga automaticamente as estruturas mentais herdadas do passado.

 

Uma bandeira pode mudar num dia.

 

Uma mentalidade pode precisar de gerações.

 

Essa é uma das questões essenciais para compreender a xenofobia africana.

 

O colonialismo não ocupou apenas territórios.

 

Também organizou sociedades.

 

Produziu categorias.

 

Criou centros e periferias.

 

Estabeleceu quem estava próximo do poder e quem estava distante.

 

Depois da independência, os africanos herdaram Estados.

 

Mas herdaram também algumas fronteiras, instituições, desigualdades e imaginários produzidos durante a época colonial.

 

É por isso que descolonizar não pode significar apenas retirar a bandeira colonial.

 

Descolonizar também significa questionar aquilo que ficou dentro da cabeça.

 

 

2. AMÍLCAR CABRAL E O PROJETO DE UNIDADE ENTRE GUINÉ E CABO VERDE

 

Não se pode discutir seriamente a relação histórica entre Cabo Verde e Guiné-Bissau sem falar de Amílcar Cabral.

 

Mas Cabral não deve ser transformado numa fotografia pendurada na parede.

 

Nem numa estátua.

 

Nem numa frase publicada uma vez por ano.

 

Um pensador revolucionário perde a sua força quando celebramos o rosto e esquecemos o pensamento.

 

Cabral nasceu em Bafatá, na atual Guiné-Bissau, em 1924, numa família cabo-verdiana.

 

A própria vida de Cabral já desmonta qualquer tentativa simplista de colocar Cabo Verde de um lado e Guiné-Bissau do outro como mundos sem ligação.

 

A luta conduzida pelo PAIGC procurava libertar os dois territórios do domínio colonial português. A Library of Congress regista a fundação do PAIGC em 1956, o início da luta armada em 1963 e o papel central de Cabral no movimento.

 

A questão da unidade era explícita.

 

Uma investigação histórica publicada pela Imprensa da Universidade de Coimbra e disponibilizada pela Library of Congress mostra que o programa político do PAIGC defendia colaboração fraternal entre guineenses e cabo-verdianos e rejeitava tentativas de divisão dos dois povos. O projeto era enquadrado numa visão mais ampla de unidade africana.

 

Isso não significa que todos concordavam.

 

Não significa que nunca existiram tensões.

 

Existiram.

 

E algumas eram profundas.

 

É precisamente por isso que devemos estudar a história em vez de criar mitologias.

 

A unidade defendida pelo PAIGC era um projeto político que precisava de ser construído. Não era uma ausência mágica de diferenças ou conflitos.

 

Esta distinção é fundamental.

 

Quando digo que Cabo Verde e Guiné-Bissau são povos irmãos, não estou a dizer que são o mesmo povo.

 

Estou a dizer que existe uma fraternidade histórica construída através de relações humanas, migrações, famílias, cultura e, principalmente, uma experiência política de luta anticolonial que colocou os destinos dos dois territórios lado a lado.

 

O problema começa quando identidade nacional se transforma em sentimento de superioridade nacional.

 

Ter orgulho em Cabo Verde não exige desprezar a Guiné-Bissau.

 

Ter orgulho na Guiné-Bissau não exige desprezar Cabo Verde.

 

O verdadeiro orgulho não necessita da humilhação do outro.

 

Quem conhece a própria identidade não precisa destruir a identidade do vizinho.

 

 

3. 1980: A RUTURA POLÍTICA QUE NÃO PODE SER CONFUNDIDA COM ÓDIO ENTRE POVOS

 

Depois das independências, o projeto político de unidade entre Guiné-Bissau e Cabo Verde entrou em crise.

 

Esse ponto precisa ser explicado porque muitas vezes acontecimentos políticos acabam transformados, na memória popular, em explicações simplistas sobre povos inteiros.

 

A Guiné-Bissau declarou unilateralmente a independência em 1973, reconhecida por Portugal em 1974. Cabo Verde tornou-se independente em 1975.

 

O projeto de aproximação política continuou durante os primeiros anos das independências.

 

Mas em 14 de novembro de 1980 ocorreu um golpe de Estado na Guiné-Bissau liderado por João Bernardo “Nino” Vieira.

 

A documentação histórica identifica esse momento como decisivo para a rutura do projeto político de unidade Guiné–Cabo Verde.

 

A partir daí, os caminhos políticos separaram-se.

 

Mas precisamos compreender algo essencial:

 

a rutura de um projeto estatal não significa necessariamente a rutura humana entre dois povos.

 

Governos mudam.

 

Partidos dividem-se.

 

Projetos políticos terminam.

 

Fronteiras permanecem.

 

Mas famílias, memórias, culturas e movimentos migratórios continuam.

 

Um dos erros mais perigosos consiste em transformar acontecimentos entre elites políticas em ressentimentos transmitidos de geração em geração.

 

A história precisa servir para explicar.

 

Não para fabricar inimigos.

 

Podemos estudar criticamente as tensões existentes dentro do PAIGC.

 

Podemos estudar as diferenças entre as experiências políticas dos dois países.

 

Podemos discutir erros cometidos por dirigentes cabo-verdianos.

 

Podemos discutir erros cometidos por dirigentes guineenses.

 

Mas não devemos transformar essa discussão numa acusação hereditária.

 

Nenhum jovem cabo-verdiano nascido hoje é responsável pelas decisões políticas tomadas em 1980.

 

Nenhum jovem guineense é responsável por elas.

 

Conhecer a história significa compreender de onde viemos.

 

Não significa herdar todos os conflitos dos nossos antepassados.

 

 

4. QUANDO “MANDJAKU” DEIXA DE SER UMA PALAVRA E SE TRANSFORMA NUMA HIERARQUIA

 

Existe uma questão que não pode ser ignorada quando falamos de discriminação contra africanos continentais em Cabo Verde.

 

É o uso da palavra “mandjaku” ou “mandjaco”.

 

Precisamos ser rigorosos.

 

Mandjaco é originalmente a designação de um povo da Guiné-Bissau.

 

Portanto, o nome de uma identidade africana não é, por natureza, um insulto.

 

O problema aparece quando o termo é retirado do seu significado étnico e utilizado para designar indiscriminadamente africanos continentais, sobretudo de maneira depreciativa.

 

E isso não é apenas uma impressão pessoal.

 

Documentação apresentada no sistema das Nações Unidas relativa a Cabo Verde reconheceu que alguns cabo-verdianos utilizavam “Mandjaco” para se referirem genericamente a estrangeiros provenientes do continente africano e registou que muitas pessoas consideravam esse uso pejorativo.

 

Outro relatório apresentado ao sistema das Nações Unidas menciona estereótipos e designações quotidianas, incluindo “mandjaku”, que estrangeiros residentes consideravam uma base de diferenciação e discriminação.

 

Aqui precisamos fazer uma distinção.

 

Uma palavra não tem apenas dicionário.

 

Tem contexto.

 

Tem intenção.

 

Tem história.

 

Tem relação de poder.

 

Se alguém pertence ao povo Manjaco e utiliza a palavra para falar da própria identidade, estamos perante uma coisa.

 

Quando outra pessoa utiliza a mesma palavra para reduzir diferentes povos africanos a uma categoria inferior, estamos perante outra.

 

É exatamente aí que começa o problema.

 

Guineense não é uma etnia.

 

Dentro da Guiné-Bissau existem diferentes povos, línguas, culturas e tradições.

 

Da mesma forma, “africano continental” não constitui uma única cultura.

 

Senegaleses não são guineenses.

 

Guineenses não são gambianos.

 

Gambianos não são nigerianos.

 

Mandjacos não são todos os povos da Guiné-Bissau.

 

Quando apagamos todas essas diferenças e colocamos milhões de pessoas dentro de uma palavra usada depreciativamente, deixamos de descrever.

 

Começamos a hierarquizar.

 

E nenhuma sociedade que pretende combater o racismo pode fechar os olhos quando reproduz internamente mecanismos semelhantes de inferiorização.

 

 

5. A XENOFOBIA NÃO É APENAS INSULTO: TAMBÉM PODE APARECER NA VIDA QUOTIDIANA

 

Muitas pessoas imaginam a xenofobia apenas como alguém gritando:

 

“Vai para o teu país.”

 

Mas a discriminação pode aparecer de maneiras muito mais subtis.

 

Pode aparecer quando um sotaque provoca automaticamente desprezo.

 

Pode aparecer quando a nacionalidade de alguém é utilizada para presumir criminalidade.

 

Pode aparecer quando um trabalhador estrangeiro é considerado menos merecedor de respeito.

 

Pode aparecer quando alguém diz:

 

“Ele é guineense, mas é uma boa pessoa.”

 

Reparem na palavra “mas”.

 

Porque deveria existir um “mas”?

 

A frase aparentemente positiva pode esconder um preconceito anterior.

 

Também pode aparecer quando comportamentos negativos de uma pessoa são utilizados para condenar uma nacionalidade inteira.

 

Se um cabo-verdiano cometer um crime em Portugal, seria absurdo concluir que todos os cabo-verdianos são criminosos.

 

Então por que razão aplicar essa lógica a um guineense?

 

Uma investigação citada pela Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania de Cabo Verde indicava que 35% dos imigrantes consultados, principalmente provenientes da CEDEAO, consideravam ter sofrido discriminação. Trata-se de um estudo específico e não de uma medição de todos os cabo-verdianos; portanto, o dado deve ser interpretado dentro desses limites.

 

Esta nuance é importante.

 

O dado não permite dizer:

 

“35% dos cabo-verdianos são xenófobos.”

 

Isso seria falso.

 

Permite dizer que, entre os imigrantes abrangidos por aquele diagnóstico, uma parcela significativa declarou ter experimentado discriminação.

 

São coisas diferentes.

 

O Comité das Nações Unidas para a Proteção dos Direitos dos Trabalhadores Migrantes também pediu informações a Cabo Verde sobre medidas destinadas a enfrentar discriminação contra trabalhadores migrantes e familiares provenientes dos Estados da CEDEAO.

 

Mais tarde, o mesmo Comité registou iniciativas cabo-verdianas para combater o problema, incluindo campanhas de sensibilização e objetivos nacionais de combate à discriminação e à xenofobia.

 

Isto demonstra duas coisas simultaneamente.

 

Primeiro: existem problemas que merecem ser reconhecidos.

 

Segundo: também existem instituições e pessoas cabo-verdianas que trabalham para combatê-los.

 

Uma análise séria precisa dizer as duas coisas.

 

Caso contrário, combateríamos um preconceito criando outro.

 

 

6. O PARADOXO CABO-VERDIANO: UM POVO DE EMIGRANTES DIANTE DA IMIGRAÇÃO AFRICANA

 

Existe aqui uma contradição que merece reflexão profunda.

 

Cabo Verde possui uma enorme história de emigração.

 

Existem comunidades cabo-verdianas em Portugal, França, Países Baixos, Luxemburgo, Estados Unidos, Senegal e muitos outros lugares.

 

Gerações de cabo-verdianos conheceram a experiência de chegar a outro território e procurar trabalho, casa, dignidade e futuro.

 

Conheceram o que significa possuir sotaque.

 

Conheceram o que significa ser estrangeiro.

 

Conheceram discriminação.

 

Conheceram saudade.

 

Conheceram a necessidade de integração sem querer perder a própria cultura.

 

E depois Cabo Verde começou também a tornar-se país de imigração.

 

A Organização Internacional para as Migrações já observava que a imigração para Cabo Verde tinha aumentado nas décadas anteriores e que muitos imigrantes eram provenientes de países africanos de língua portuguesa e de Estados da CEDEAO, com participação relevante em setores económicos como construção, comércio e turismo.

 

Dados apresentados às Nações Unidas mostraram ainda a importância da imigração guineense: entre 2000 e 2015, 40% das autorizações de residência mencionadas nesses dados foram concedidas a cidadãos da Guiné-Bissau.

 

Isso significa que a presença guineense não é uma pequena nota de rodapé na história recente da imigração cabo-verdiana.

 

É uma comunidade importante.

 

E aqui surge uma pergunta necessária:

 

Como pode um povo que conhece profundamente a experiência da emigração esquecer tão rapidamente aquilo que significa ser imigrante?

 

Esta pergunta não serve para atacar Cabo Verde.

 

Serve para exigir coerência.

 

Quando um cabo-verdiano pede respeito em Lisboa, Paris, Roterdão, Boston ou Luxemburgo, esse pedido é legítimo.

 

Mas o mesmo princípio precisa valer quando um guineense procura dignidade na Praia, no Sal, na Boa Vista ou em São Vicente.

 

Direitos humanos não podem funcionar como espelho de uma só direção.

 

Não podemos exigir no estrangeiro aquilo que recusamos ao estrangeiro em nossa casa.

 

 

7. O PERIGO DA SUPERIORIDADE CULTURAL E DA DISTÂNCIA EM RELAÇÃO À ÁFRICA

 

Aqui entramos numa questão mais delicada.

 

A identidade cabo-verdiana é africana, atlântica, insular e historicamente marcada por diferentes influências.

 

Não precisamos apagar nenhuma dessas dimensões.

 

O problema aparece quando a proximidade cultural com a Europa é utilizada para produzir distância simbólica em relação à África.

 

Ser africano não exige negar tudo o que veio da Europa.

 

E reconhecer influências europeias não exige rejeitar África.

 

A questão é outra:

 

quando a Europa passa a representar automaticamente progresso e África passa automaticamente a representar atraso, estamos perante uma hierarquia cultural.

 

E essa hierarquia merece ser interrogada.

 

Quando alguém considera um português estrangeiro “melhor” do que um guineense estrangeiro simplesmente porque um vem da Europa e outro vem de África, não estamos apenas perante nacionalidade.

 

Estamos perante uma escala imaginária de valor.

 

Europa em cima.

 

África em baixo.

 

E esse pensamento possui uma história.

 

É precisamente aqui que uma leitura inspirada em Frantz Fanon se torna útil.

 

Fanon analisou profundamente como a dominação colonial podia continuar psicologicamente depois de o colonizador já não estar fisicamente presente.

 

O colonizado pode começar a olhar para si mesmo através das categorias do sistema que o inferiorizou.

 

Pode aproximar-se simbolicamente do modelo considerado superior e afastar-se daquele que foi ensinado a considerar inferior.

 

Não significa que todos os cabo-verdianos pensem assim.

 

Seria absurdo afirmar isso.

 

Mas significa que qualquer sociedade africana precisa perguntar:

 

Que imagens aprendemos sobre África?

 

Quando pensamos em Europa, pensamos primeiro em quê?

 

Universidades?

 

Tecnologia?

 

Organização?

 

Desenvolvimento?

 

E quando pensamos em África?

 

Pobreza?

 

Guerra?

 

Doença?

 

Corrupção?

 

Se essas forem automaticamente as nossas associações, precisamos perguntar quem construiu esse imaginário.

 

Porque África também é conhecimento.

 

África também é filosofia.

 

África também é ciência.

 

África também é arte.

 

África também é resistência.

 

África também é modernidade.

 

África também é futuro.

 

E Guiné-Bissau não pode ser reduzida às crises políticas que aparecem nos noticiários.

 

Do mesmo modo que Cabo Verde não pode ser reduzido à seca, pobreza ou emigração.

 

Um povo é sempre maior do que os seus problemas.

 

 

8. A XENOFOBIA TAMBÉM PODE EXISTIR NO SENTIDO CONTRÁRIO — E PRECISAMOS SER COERENTES

 

Se queremos falar seriamente de xenofobia, precisamos aplicar o mesmo princípio a todos.

 

Não podemos condenar um cabo-verdiano por insultar um guineense e depois justificar um guineense que insulta todos os cabo-verdianos.

 

Isso não seria consciência.

 

Seria tribalismo moral.

 

Se um guineense diz:

 

“Todos os cabo-verdianos são arrogantes.”

 

Isso é generalização.

 

Se alguém diz:

 

“Cabo-verdianos não são africanos.”

 

Isso apaga a identidade africana de um povo inteiro.

 

Se alguém responsabiliza todo cabo-verdiano por conflitos políticos ocorridos décadas atrás, também está a transformar história em preconceito.

 

É necessário fazer esta distinção porque combater xenofobia significa defender um princípio, não uma equipa.

 

Eu não quero substituir uma superioridade por outra.

 

Não quero inverter a humilhação.

 

Não quero que o humilhado de ontem se transforme no humilhador de amanhã.

 

Quero quebrar o mecanismo.

 

A dignidade guineense não depende da inferiorização cabo-verdiana.

 

A dignidade cabo-verdiana não depende da inferiorização guineense.

 

Essa é uma diferença fundamental.

 

O objetivo não deve ser decidir:

 

CABO VERDE E GUINÉ-BISSAU: DOIS POVOS IRMÃOS

A XENOFOBIA NÃO PODE APAGAR A NOSSA HISTÓRIA

Por SABIDO KATA INCHINADU BRABU


INTRODUÇÃO — QUANDO DOIS IRMÃOS ESQUECEM A MESMA HISTÓRIA

Há assuntos que não podem ser tratados apenas com emoção.

Há assuntos que exigem memória.

E falar da xenofobia entre cabo-verdianos e guineenses é falar precisamente de memória: daquilo que lembramos, daquilo que esquecemos e daquilo que, muitas vezes, nunca nos ensinaram corretamente.

Cabo Verde e Guiné-Bissau são duas nações diferentes. Cada povo possui a sua história, as suas culturas, as suas línguas, as suas tradições e a sua própria experiência nacional.

Reconhecer essa diferença é fundamental.

Mas reconhecer a diferença não significa negar aquilo que historicamente nos aproximou.

Durante a luta anticolonial, os nomes Guiné e Cabo Verde foram colocados lado a lado no próprio nome do PAIGC — Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. A organização foi fundada em 1956 e conduziu a luta de libertação contra o domínio colonial português. Amílcar Cabral tornou-se a figura central desse movimento e um dos principais pensadores africanos da libertação do século XX.

Mais importante ainda: a unidade entre guineenses e cabo-verdianos não era simplesmente uma coincidência no nome do partido.

Fazia parte de um projeto político.

Documentos históricos sobre o programa do PAIGC mostram que se defendiam direitos e deveres iguais, colaboração fraterna entre guineenses e cabo-verdianos e oposição às tentativas de divisão dos dois povos. Essa unidade era apresentada dentro de uma conceção mais ampla de unidade africana.

É por isso que existe uma profunda contradição histórica quando, décadas depois, encontramos um cabo-verdiano a desprezar um guineense simplesmente porque ele é guineense — ou um guineense a desprezar um cabo-verdiano simplesmente porque ele é cabo-verdiano.

Não precisamos fingir que somos exatamente iguais.

Não somos.

Mas também não podemos fingir que as nossas histórias nunca se cruzaram.

Cruzaram-se.

E cruzaram-se profundamente.

Este texto não pretende acusar todos os cabo-verdianos de xenofobia.

Também não pretende acusar todos os guineenses.

Isso seria intelectualmente errado e moralmente injusto.

O objetivo é outro: identificar preconceitos onde eles existem, compreender as suas raízes, analisar as contradições históricas e defender uma relação entre os dois povos baseada na dignidade.

Porque não existe verdadeira consciência africana quando um africano precisa diminuir outro africano para se sentir maior.


1. ANTES DE FALAR DE XENOFOBIA, PRECISAMOS CONHECER A HISTÓRIA

Um dos maiores problemas das sociedades pós-coloniais é que frequentemente discutimos as consequências sem estudar suficientemente as origens.

Discutimos nacionalidade.

Discutimos sotaque.

Discutimos imigração.

Discutimos quem é “mais africano”.

Discutimos quem é “mais civilizado”.

Mas esquecemos de perguntar:

De onde vieram muitas dessas categorias?

Cabo Verde e Guiné-Bissau viveram durante séculos dentro do sistema imperial português, embora de formas diferentes.

A própria administração colonial dos territórios mudou ao longo da história. A Library of Congress observa que a administração conjunta de Cabo Verde e da então Guiné Portuguesa terminou em 1879, passando depois a constituir territórios coloniais separados.

Isto é importante porque demonstra uma coisa: as relações entre os dois territórios não começaram ontem com a imigração moderna.

Existe uma história muito mais longa.

Mas essa história não deve ser romantizada.

A colonização criou hierarquias.

Criou classificações.

Criou divisões jurídicas e sociais.

Criou maneiras diferentes de posicionar populações africanas dentro da estrutura imperial.

Por isso, quando hoje observamos preconceitos entre populações africanas, não devemos concluir automaticamente que tudo foi inventado pelo colonialismo.

Os africanos também possuem agência e responsabilidade pelos preconceitos que reproduzem.

Mas também seria ingénuo analisar as sociedades pós-coloniais como se séculos de administração colonial, classificação racial, desigualdade e assimilação cultural simplesmente tivessem desaparecido no dia da independência.

A independência política não apaga automaticamente as estruturas mentais herdadas do passado.

Uma bandeira pode mudar num dia.

Uma mentalidade pode precisar de gerações.

Essa é uma das questões essenciais para compreender a xenofobia africana.

O colonialismo não ocupou apenas territórios.

Também organizou sociedades.

Produziu categorias.

Criou centros e periferias.

Estabeleceu quem estava próximo do poder e quem estava distante.

Depois da independência, os africanos herdaram Estados.

Mas herdaram também algumas fronteiras, instituições, desigualdades e imaginários produzidos durante a época colonial.

É por isso que descolonizar não pode significar apenas retirar a bandeira colonial.

Descolonizar também significa questionar aquilo que ficou dentro da cabeça.


2. AMÍLCAR CABRAL E O PROJETO DE UNIDADE ENTRE GUINÉ E CABO VERDE

Não se pode discutir seriamente a relação histórica entre Cabo Verde e Guiné-Bissau sem falar de Amílcar Cabral.

Mas Cabral não deve ser transformado numa fotografia pendurada na parede.

Nem numa estátua.

Nem numa frase publicada uma vez por ano.

Um pensador revolucionário perde a sua força quando celebramos o rosto e esquecemos o pensamento.

Cabral nasceu em Bafatá, na atual Guiné-Bissau, em 1924, numa família cabo-verdiana.

A própria vida de Cabral já desmonta qualquer tentativa simplista de colocar Cabo Verde de um lado e Guiné-Bissau do outro como mundos sem ligação.

A luta conduzida pelo PAIGC procurava libertar os dois territórios do domínio colonial português. A Library of Congress regista a fundação do PAIGC em 1956, o início da luta armada em 1963 e o papel central de Cabral no movimento.

A questão da unidade era explícita.

Uma investigação histórica publicada pela Imprensa da Universidade de Coimbra e disponibilizada pela Library of Congress mostra que o programa político do PAIGC defendia colaboração fraternal entre guineenses e cabo-verdianos e rejeitava tentativas de divisão dos dois povos. O projeto era enquadrado numa visão mais ampla de unidade africana.

Isso não significa que todos concordavam.

Não significa que nunca existiram tensões.

Existiram.

E algumas eram profundas.

É precisamente por isso que devemos estudar a história em vez de criar mitologias.

A unidade defendida pelo PAIGC era um projeto político que precisava de ser construído. Não era uma ausência mágica de diferenças ou conflitos.

Esta distinção é fundamental.

Quando digo que Cabo Verde e Guiné-Bissau são povos irmãos, não estou a dizer que são o mesmo povo.

Estou a dizer que existe uma fraternidade histórica construída através de relações humanas, migrações, famílias, cultura e, principalmente, uma experiência política de luta anticolonial que colocou os destinos dos dois territórios lado a lado.

O problema começa quando identidade nacional se transforma em sentimento de superioridade nacional.

Ter orgulho em Cabo Verde não exige desprezar a Guiné-Bissau.

Ter orgulho na Guiné-Bissau não exige desprezar Cabo Verde.

O verdadeiro orgulho não necessita da humilhação do outro.

Quem conhece a própria identidade não precisa destruir a identidade do vizinho.


3. 1980: A RUTURA POLÍTICA QUE NÃO PODE SER CONFUNDIDA COM ÓDIO ENTRE POVOS

Depois das independências, o projeto político de unidade entre Guiné-Bissau e Cabo Verde entrou em crise.

Esse ponto precisa ser explicado porque muitas vezes acontecimentos políticos acabam transformados, na memória popular, em explicações simplistas sobre povos inteiros.

A Guiné-Bissau declarou unilateralmente a independência em 1973, reconhecida por Portugal em 1974. Cabo Verde tornou-se independente em 1975.

O projeto de aproximação política continuou durante os primeiros anos das independências.

Mas em 14 de novembro de 1980 ocorreu um golpe de Estado na Guiné-Bissau liderado por João Bernardo “Nino” Vieira.

A documentação histórica identifica esse momento como decisivo para a rutura do projeto político de unidade Guiné–Cabo Verde.

A partir daí, os caminhos políticos separaram-se.

Mas precisamos compreender algo essencial:

a rutura de um projeto estatal não significa necessariamente a rutura humana entre dois povos.

Governos mudam.

Partidos dividem-se.

Projetos políticos terminam.

Fronteiras permanecem.

Mas famílias, memórias, culturas e movimentos migratórios continuam.

Um dos erros mais perigosos consiste em transformar acontecimentos entre elites políticas em ressentimentos transmitidos de geração em geração.

A história precisa servir para explicar.

Não para fabricar inimigos.

Podemos estudar criticamente as tensões existentes dentro do PAIGC.

Podemos estudar as diferenças entre as experiências políticas dos dois países.

Podemos discutir erros cometidos por dirigentes cabo-verdianos.

Podemos discutir erros cometidos por dirigentes guineenses.

Mas não devemos transformar essa discussão numa acusação hereditária.

Nenhum jovem cabo-verdiano nascido hoje é responsável pelas decisões políticas tomadas em 1980.

Nenhum jovem guineense é responsável por elas.

Conhecer a história significa compreender de onde viemos.

Não significa herdar todos os conflitos dos nossos antepassados.


4. QUANDO “MANDJAKU” DEIXA DE SER UMA PALAVRA E SE TRANSFORMA NUMA HIERARQUIA

Existe uma questão que não pode ser ignorada quando falamos de discriminação contra africanos continentais em Cabo Verde.

É o uso da palavra “mandjaku” ou “mandjaco”.

Precisamos ser rigorosos.

Mandjaco é originalmente a designação de um povo da Guiné-Bissau.

Portanto, o nome de uma identidade africana não é, por natureza, um insulto.

O problema aparece quando o termo é retirado do seu significado étnico e utilizado para designar indiscriminadamente africanos continentais, sobretudo de maneira depreciativa.

E isso não é apenas uma impressão pessoal.

Documentação apresentada no sistema das Nações Unidas relativa a Cabo Verde reconheceu que alguns cabo-verdianos utilizavam “Mandjaco” para se referirem genericamente a estrangeiros provenientes do continente africano e registou que muitas pessoas consideravam esse uso pejorativo.

Outro relatório apresentado ao sistema das Nações Unidas menciona estereótipos e designações quotidianas, incluindo “mandjaku”, que estrangeiros residentes consideravam uma base de diferenciação e discriminação.

Aqui precisamos fazer uma distinção.

Uma palavra não tem apenas dicionário.

Tem contexto.

Tem intenção.

Tem história.

Tem relação de poder.

Se alguém pertence ao povo Manjaco e utiliza a palavra para falar da própria identidade, estamos perante uma coisa.

Quando outra pessoa utiliza a mesma palavra para reduzir diferentes povos africanos a uma categoria inferior, estamos perante outra.

É exatamente aí que começa o problema.

Guineense não é uma etnia.

Dentro da Guiné-Bissau existem diferentes povos, línguas, culturas e tradições.

Da mesma forma, “africano continental” não constitui uma única cultura.

Senegaleses não são guineenses.

Guineenses não são gambianos.

Gambianos não são nigerianos.

Mandjacos não são todos os povos da Guiné-Bissau.

Quando apagamos todas essas diferenças e colocamos milhões de pessoas dentro de uma palavra usada depreciativamente, deixamos de descrever.

Começamos a hierarquizar.

E nenhuma sociedade que pretende combater o racismo pode fechar os olhos quando reproduz internamente mecanismos semelhantes de inferiorização.


5. A XENOFOBIA NÃO É APENAS INSULTO: TAMBÉM PODE APARECER NA VIDA QUOTIDIANA

Muitas pessoas imaginam a xenofobia apenas como alguém gritando:

“Vai para o teu país.”

Mas a discriminação pode aparecer de maneiras muito mais subtis.

Pode aparecer quando um sotaque provoca automaticamente desprezo.

Pode aparecer quando a nacionalidade de alguém é utilizada para presumir criminalidade.

Pode aparecer quando um trabalhador estrangeiro é considerado menos merecedor de respeito.

Pode aparecer quando alguém diz:

“Ele é guineense, mas é uma boa pessoa.”

Reparem na palavra “mas”.

Porque deveria existir um “mas”?

A frase aparentemente positiva pode esconder um preconceito anterior.

Também pode aparecer quando comportamentos negativos de uma pessoa são utilizados para condenar uma nacionalidade inteira.

Se um cabo-verdiano cometer um crime em Portugal, seria absurdo concluir que todos os cabo-verdianos são criminosos.

Então por que razão aplicar essa lógica a um guineense?

Uma investigação citada pela Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania de Cabo Verde indicava que 35% dos imigrantes consultados, principalmente provenientes da CEDEAO, consideravam ter sofrido discriminação. Trata-se de um estudo específico e não de uma medição de todos os cabo-verdianos; portanto, o dado deve ser interpretado dentro desses limites.

Esta nuance é importante.

O dado não permite dizer:

“35% dos cabo-verdianos são xenófobos.”

Isso seria falso.

Permite dizer que, entre os imigrantes abrangidos por aquele diagnóstico, uma parcela significativa declarou ter experimentado discriminação.

São coisas diferentes.

O Comité das Nações Unidas para a Proteção dos Direitos dos Trabalhadores Migrantes também pediu informações a Cabo Verde sobre medidas destinadas a enfrentar discriminação contra trabalhadores migrantes e familiares provenientes dos Estados da CEDEAO.

Mais tarde, o mesmo Comité registou iniciativas cabo-verdianas para combater o problema, incluindo campanhas de sensibilização e objetivos nacionais de combate à discriminação e à xenofobia.

Isto demonstra duas coisas simultaneamente.

Primeiro: existem problemas que merecem ser reconhecidos.

Segundo: também existem instituições e pessoas cabo-verdianas que trabalham para combatê-los.

Uma análise séria precisa dizer as duas coisas.

Caso contrário, combateríamos um preconceito criando outro.


6. O PARADOXO CABO-VERDIANO: UM POVO DE EMIGRANTES DIANTE DA IMIGRAÇÃO AFRICANA

Existe aqui uma contradição que merece reflexão profunda.

Cabo Verde possui uma enorme história de emigração.

Existem comunidades cabo-verdianas em Portugal, França, Países Baixos, Luxemburgo, Estados Unidos, Senegal e muitos outros lugares.

Gerações de cabo-verdianos conheceram a experiência de chegar a outro território e procurar trabalho, casa, dignidade e futuro.

Conheceram o que significa possuir sotaque.

Conheceram o que significa ser estrangeiro.

Conheceram discriminação.

Conheceram saudade.

Conheceram a necessidade de integração sem querer perder a própria cultura.

E depois Cabo Verde começou também a tornar-se país de imigração.

A Organização Internacional para as Migrações já observava que a imigração para Cabo Verde tinha aumentado nas décadas anteriores e que muitos imigrantes eram provenientes de países africanos de língua portuguesa e de Estados da CEDEAO, com participação relevante em setores económicos como construção, comércio e turismo.

Dados apresentados às Nações Unidas mostraram ainda a importância da imigração guineense: entre 2000 e 2015, 40% das autorizações de residência mencionadas nesses dados foram concedidas a cidadãos da Guiné-Bissau.

Isso significa que a presença guineense não é uma pequena nota de rodapé na história recente da imigração cabo-verdiana.

É uma comunidade importante.

E aqui surge uma pergunta necessária:

Como pode um povo que conhece profundamente a experiência da emigração esquecer tão rapidamente aquilo que significa ser imigrante?

Esta pergunta não serve para atacar Cabo Verde.

Serve para exigir coerência.

Quando um cabo-verdiano pede respeito em Lisboa, Paris, Roterdão, Boston ou Luxemburgo, esse pedido é legítimo.

Mas o mesmo princípio precisa valer quando um guineense procura dignidade na Praia, no Sal, na Boa Vista ou em São Vicente.

Direitos humanos não podem funcionar como espelho de uma só direção.

Não podemos exigir no estrangeiro aquilo que recusamos ao estrangeiro em nossa casa.


7. O PERIGO DA SUPERIORIDADE CULTURAL E DA DISTÂNCIA EM RELAÇÃO À ÁFRICA

Aqui entramos numa questão mais delicada.

A identidade cabo-verdiana é africana, atlântica, insular e historicamente marcada por diferentes influências.

Não precisamos apagar nenhuma dessas dimensões.

O problema aparece quando a proximidade cultural com a Europa é utilizada para produzir distância simbólica em relação à África.

Ser africano não exige negar tudo o que veio da Europa.

E reconhecer influências europeias não exige rejeitar África.

A questão é outra:

quando a Europa passa a representar automaticamente progresso e África passa automaticamente a representar atraso, estamos perante uma hierarquia cultural.

E essa hierarquia merece ser interrogada.

Quando alguém considera um português estrangeiro “melhor” do que um guineense estrangeiro simplesmente porque um vem da Europa e outro vem de África, não estamos apenas perante nacionalidade.

Estamos perante uma escala imaginária de valor.

Europa em cima.

África em baixo.

E esse pensamento possui uma história.

É precisamente aqui que uma leitura inspirada em Frantz Fanon se torna útil.

Fanon analisou profundamente como a dominação colonial podia continuar psicologicamente depois de o colonizador já não estar fisicamente presente.

O colonizado pode começar a olhar para si mesmo através das categorias do sistema que o inferiorizou.

Pode aproximar-se simbolicamente do modelo considerado superior e afastar-se daquele que foi ensinado a considerar inferior.

Não significa que todos os cabo-verdianos pensem assim.

Seria absurdo afirmar isso.

Mas significa que qualquer sociedade africana precisa perguntar:

Que imagens aprendemos sobre África?

Quando pensamos em Europa, pensamos primeiro em quê?

Universidades?

Tecnologia?

Organização?

Desenvolvimento?

E quando pensamos em África?

Pobreza?

Guerra?

Doença?

Corrupção?

Se essas forem automaticamente as nossas associações, precisamos perguntar quem construiu esse imaginário.

Porque África também é conhecimento.

África também é filosofia.

África também é ciência.

África também é arte.

África também é resistência.

África também é modernidade.

África também é futuro.

E Guiné-Bissau não pode ser reduzida às crises políticas que aparecem nos noticiários.

Do mesmo modo que Cabo Verde não pode ser reduzido à seca, pobreza ou emigração.

Um povo é sempre maior do que os seus problemas.


8. A XENOFOBIA TAMBÉM PODE EXISTIR NO SENTIDO CONTRÁRIO — E PRECISAMOS SER COERENTES

Se queremos falar seriamente de xenofobia, precisamos aplicar o mesmo princípio a todos.

Não podemos condenar um cabo-verdiano por insultar um guineense e depois justificar um guineense que insulta todos os cabo-verdianos.

Isso não seria consciência.

Seria tribalismo moral.

Se um guineense diz:

“Todos os cabo-verdianos são arrogantes.”

Isso é generalização.

Se alguém diz:

“Cabo-verdianos não são africanos.”

Isso apaga a identidade africana de um povo inteiro.

Se alguém responsabiliza todo cabo-verdiano por conflitos políticos ocorridos décadas atrás, também está a transformar história em preconceito.

É necessário fazer esta distinção porque combater xenofobia significa defender um princípio, não uma equipa.

Eu não quero substituir uma superioridade por outra.

Não quero inverter a humilhação.

Não quero que o humilhado de ontem se transforme no humilhador de amanhã.

Quero quebrar o mecanismo.

A dignidade guineense não depende da inferiorização cabo-verdiana.

A dignidade cabo-verdiana não depende da inferiorização guineense.

Essa é uma diferença fundamental.

O objetivo não deve ser decidir:

“Quem é melhor?”

A pergunta deveria ser:

Por que razão dois povos africanos precisam competir pela dignidade?

Quando transformamos identidade numa competição permanente, alguém precisa sempre estar em baixo para que outro fique em cima.

Esse modelo precisa morrer.

Podemos criticar governos.

Podemos criticar instituições.

Podemos criticar comportamentos sociais.

Podemos denunciar xenofobia.

Podemos discutir colonialismo.

Podemos discutir responsabilidades históricas.

Mas devemos resistir à facilidade de transformar milhões de seres humanos numa caricatura.


9. AS NOVAS GERAÇÕES PRECISAM CONHECER A HISTÓRIA QUE AS REDES SOCIAIS NÃO CONTAM

Existe hoje um novo campo de batalha.

O telemóvel.

TikTok.

Instagram.

Facebook.

YouTube.

WhatsApp.

Uma frase ofensiva publicada por uma pessoa pode chegar a centenas de milhares.

Depois alguém responde.

Outro responde à resposta.

Em poucas horas, um conflito entre duas pessoas transforma-se aparentemente numa guerra entre duas nacionalidades.

“Os guineenses são…”

“Os cabo-verdianos são…”

E começa a generalização.

O algoritmo não conhece Amílcar Cabral.

O algoritmo conhece atenção.

E conflito gera atenção.

Indignação gera comentários.

Insulto gera partilhas.

A reconciliação raramente produz a mesma explosão de interação.

Por isso, precisamos desenvolver uma consciência digital africana.

Quando uma pessoa cabo-verdiana faz uma declaração xenófoba, ela representa a si própria.

Não representa automaticamente Cabo Verde.

Quando uma pessoa guineense responde com outro discurso xenófobo, representa a si própria.

Não representa automaticamente a Guiné-Bissau.

Não devemos permitir que indivíduos transformem milhões de pessoas em exércitos digitais.

As novas gerações precisam conhecer aquilo que existia antes dos vídeos de quinze segundos.

Precisam saber que houve um PAIGC.

Precisam saber por que se chamava Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde.

Precisam conhecer Amílcar Cabral para além das frases de Instagram.

Precisam conhecer as contradições do projeto de unidade.

Precisam conhecer 1980.

Precisam conhecer as migrações.

Precisam compreender que a presença guineense em Cabo Verde é real e historicamente importante.

Um manual apoiado pela UNESCO sobre migração e jornalismo, utilizando dados de 2019, indicava Cabo Verde como um destino africano importante para emigrantes da Guiné-Bissau, estimando cerca de 5.300 bissau-guineenses em Cabo Verde naquele conjunto de dados.

Precisamos também ensinar aquilo que nenhuma estatística consegue medir completamente:

as amizades.

os casamentos.

os filhos.

as famílias misturadas.

os vizinhos.

os colegas.

os estudantes.

os trabalhadores.

as pessoas que atravessam fronteiras e constroem vida noutro lugar.

A xenofobia reduz alguém ao passaporte.

A humanidade devolve-lhe o nome.


10. CABO VERDE E GUINÉ-BISSAU: NÃO PRECISAMOS SER UM ÚNICO PAÍS PARA VOLTARMOS A SER IRMÃOS

Não estou a defender que Cabo Verde e Guiné-Bissau devam tornar-se um único Estado.

A história seguiu outro caminho.

São dois países soberanos.

Cada um possui o direito de escolher o próprio destino.

A unidade que defendo é outra.

É unidade de respeito.

Unidade de memória.

Unidade africana.

Unidade contra a humilhação.

Unidade contra xenofobia.

Unidade na diferença.

Porque unidade não significa uniformidade.

Uma floresta não é forte porque todas as árvores são iguais.

É forte porque diferentes raízes partilham a mesma terra.

Cabo Verde possui a sua experiência.

Guiné-Bissau possui a sua.

Mas existe uma página da história africana em que os nomes dos dois países foram escritos na mesma linha.

Isso não pode ser apagado.

As Nações Unidas, ainda durante a época da libertação, tratavam internacionalmente a luta da Guiné-Bissau e de Cabo Verde dentro do combate dos povos colonizados pela liberdade e independência.

Décadas depois, Cabo Verde criou políticas e campanhas destinadas precisamente a prevenir discriminação e xenofobia no contexto migratório. O Comité das Nações Unidas para os Trabalhadores Migrantes registou, entre outras medidas, a campanha “Cabo Verde para Todos” e objetivos nacionais de combate à discriminação e à xenofobia.

Isso também precisa ser reconhecido.

Combater xenofobia não significa declarar Cabo Verde um país xenófobo.

Significa apoiar os cabo-verdianos que também lutam contra xenofobia.

Significa apoiar os guineenses que recusam responder ao preconceito com outro preconceito.

Significa criar uma geração capaz de dizer:

Eu amo o meu povo sem odiar o teu.

Essa frase parece simples.

Mas contém uma revolução.


CONCLUSÃO — DOIS IRMÃOS PODEM DISCUTIR, MAS NÃO DEVEM ESQUECER QUEM OS COLOCOU UM CONTRA O OUTRO

Imaginem dois irmãos.

Nasceram em lugares diferentes.

Cresceram de maneira diferente.

Um viveu certas experiências.

O outro viveu outras.

Um fala de uma maneira.

O outro fala de outra.

Durante anos caminharam juntos contra uma injustiça maior.

Um dia separaram-se.

Cada um construiu a sua casa.

Décadas passam.

Os filhos já quase não conhecem a história.

Um começa a olhar para o outro e pergunta:

“Quem és tu?”

O outro responde:

“Sou aquele que caminhou contigo.”

Essa imagem ajuda a compreender Cabo Verde e Guiné-Bissau.

Não porque sejam literalmente um único povo.

Não são.

Não porque nunca tenham existido tensões.

Existiram.

Não porque a unidade política imaginada durante a luta de libertação tenha sobrevivido.

Não sobreviveu.

Mas porque existe uma memória histórica que nenhuma fronteira contemporânea consegue apagar.

O PAIGC carregava os dois nomes.

Amílcar Cabral pertence à história dos dois países e, de forma mais ampla, à história da libertação africana.

A luta contra o colonialismo aproximou os dois territórios.

A independência abriu caminhos nacionais diferentes.

O golpe de 1980 aprofundou a separação política.

As migrações voltaram a aproximar pessoas.

E hoje a nossa geração possui uma escolha.

Podemos herdar apenas as divisões.

Ou podemos herdar também as lições.

Eu escolho a memória.

Porque a xenofobia começa muitas vezes quando a memória termina.

Quando esquecemos quem somos, começamos a procurar alguém que possamos colocar abaixo de nós.

Quando esquecemos aquilo que sofremos, começamos a reproduzir sobre outros mecanismos semelhantes de exclusão.

Quando esquecemos África, começamos a competir para saber quem conseguiu afastar-se mais dela.

É precisamente isso que precisamos questionar.

Cabo Verde não precisa deixar de ser Cabo Verde para reconhecer a Guiné-Bissau como povo irmão.

Guiné-Bissau não precisa deixar de ser Guiné-Bissau para reconhecer Cabo Verde como povo irmão.

As nossas línguas não precisam desaparecer.

As nossas bandeiras não precisam desaparecer.

As nossas diferenças não precisam desaparecer.

O que precisa desaparecer é a ideia de que diferença significa inferioridade.

Eu posso ser cabo-verdiano sem ser melhor do que um guineense.

Um guineense pode amar profundamente a Guiné-Bissau sem precisar desprezar Cabo Verde.

É assim que se constrói dignidade.

Não através da superioridade.

Mas através da consciência.

Por isso, quando alguém tentar transformar cabo-verdianos e guineenses em inimigos naturais, eu perguntarei:

Quem ganha quando dois povos africanos passam o tempo a lutar entre si?

Quando alguém utilizar “mandjaku” como insulto, eu perguntarei:

Desde quando o nome de um povo africano se tornou motivo de vergonha?

Quando alguém disser que o africano continental é inferior, eu perguntarei:

Que voz está realmente a falar dentro dessa pessoa?

Quando alguém responder à xenofobia com mais xenofobia, eu direi:

Não podemos curar uma ferida abrindo outra.

E quando alguém disser que Cabo Verde e Guiné-Bissau não têm nada a ver um com o outro, colocarei a história sobre a mesa.

PAIGC.

Guiné.

Cabo Verde.

Amílcar Cabral.

Libertação.

Independência.

Rutura.

Migração.

Memória.

Dez palavras são suficientes para abrir uma biblioteca inteira.

A nossa geração não precisa reconstruir o projeto político do passado.

Precisa recuperar uma coisa ainda mais fundamental:

o respeito entre os povos.

Porque dois irmãos podem viver em casas diferentes.

Podem discordar.

Podem possuir culturas diferentes.

Podem seguir caminhos diferentes.

Mas quando começam a acreditar que precisam odiar-se para afirmar quem são, alguma coisa se perdeu no caminho.

Está na hora de recuperar essa memória.

Não para viver no passado.

Mas para construir um futuro diferente.

Um futuro onde uma criança cabo-verdiana possa conhecer a história da Guiné-Bissau sem preconceito.

Onde uma criança guineense possa conhecer Cabo Verde sem ressentimento.

Onde as duas aprendam quem foi Amílcar Cabral.

Onde aprendam também sobre aqueles que discordaram dele.

Onde conheçam as vitórias e as contradições.

Onde estudem a colonização sem transformar a história numa desculpa eterna.

Onde assumam responsabilidade pelo presente.

Onde entendam que identidade africana não significa que todos temos de ser iguais.

África nunca foi uma única língua.

Nunca foi uma única cultura.

Nunca foi uma única história.

A grandeza africana está precisamente na multiplicidade.

O nosso desafio é aprender a transformar diversidade em força sem transformar diferença em hierarquia.

Esse é o combate.

Não cabo-verdiano contra guineense.

Não ilha contra continente.

Não uma língua contra outra.

Não uma bandeira contra outra.

Mas consciência contra ignorância.

Memória contra apagamento.

Dignidade contra humilhação.

Fraternidade contra xenofobia.

E enquanto existir alguém disposto a lembrar a história, a divisão nunca terá a última palavra.

CABO VERDE E GUINÉ-BISSAU: DOIS PAÍSES, DUAS HISTÓRIAS NACIONAIS, MUITAS DIFERENÇAS — MAS UMA MEMÓRIA DE LUTA QUE NOS OBRIGA A PENSAR ANTES DE TRANSFORMARMOS O IRMÃO EM ESTRANGEIRO.

NÃO HÁ ESPAÇO PARA XENOFOBIA ENTRE POVOS QUE PARTILHARAM A LUTA PELA LIBERTAÇÃO.

A ÁFRICA NÃO PRECISA DE MAIS MUROS DENTRO DE ÁFRICA.

PRECISA DE MEMÓRIA, DIGNIDADE, RESPEITO E CONSCIÊNCIA.

PIDE/DGS E SERVIÇOS SECRETOS FRANCESES

A GUERRA CLANDESTINA EM TORNO DA GUINÉ E CABO VERDE

Por SABIDO KATA INCHINADU BRABU

Para compreender a luta de libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, não basta olhar para aquilo que acontecia no campo de batalha.

Existia também uma guerra escondida.

Uma guerra de informação.

De vigilância.

De agentes.

De contactos secretos.

De infiltração.

De propaganda.

De operações clandestinas.

E é aqui que aparecem dois nomes que precisam ser explicados: PIDE/DGS, do lado português, e SDECE, do lado francês.


1. O QUE ERA A PIDE?

A PIDE — Polícia Internacional e de Defesa do Estado — era a polícia política da ditadura portuguesa do Estado Novo.

Em 1969, foi substituída pela DGS — Direção-Geral de Segurança.

Mudar o nome, porém, não significou simplesmente apagar as estruturas de informação e repressão que tinham sido construídas.

Nas colónias portuguesas, os serviços de segurança acompanhavam os movimentos nacionalistas africanos, recolhiam informações e procuravam identificar as suas redes, dirigentes e vulnerabilidades.

O PAIGC era, naturalmente, um alvo fundamental.

E Amílcar Cabral era um dos principais adversários políticos do colonialismo português.

A PIDE/DGS queria saber:

Quem trabalhava com Cabral?

Quem atravessava as fronteiras?

Quem ajudava o PAIGC?

Quem estava descontente dentro do movimento?

Que governos africanos apoiavam Cabral?

Que conflitos existiam entre diferentes organizações nacionalistas?

A informação era uma arma.

Porque conhecer as divisões do adversário permite explorá-las.


2. O QUE ERA O SDECE FRANCÊS?

Do lado francês existia o SDECE — Service de Documentation Extérieure et de Contre-Espionnage.

Era o serviço francês de informações externas da época, antecessor da atual DGSE.

A França continuava a possuir enorme influência política, militar e diplomática na África Ocidental depois das independências formais das antigas colónias francesas.

E isso é particularmente importante porque a luta do PAIGC acontecia numa região onde estavam dois países fundamentais:

Senegal e República da Guiné.

A República da Guiné de Ahmed Sékou Touré permitiu que o PAIGC utilizasse Conacri como uma das suas principais bases externas.

O Senegal de Léopold Sédar Senghor também era geograficamente fundamental.

Portanto, aquilo que acontecia em Dakar e Conacri podia afetar diretamente a guerra na Guiné Portuguesa.


3. PIDE/DGS E SERVIÇOS FRANCESES MANTIVERAM CONTACTOS

Aqui entramos numa parte particularmente importante.

Existem investigações baseadas em arquivos segundo as quais a polícia política portuguesa procurava informações e cooperação junto de serviços estrangeiros, incluindo os franceses.

Ou seja:

Portugal não observava o PAIGC isoladamente.

Existia circulação internacional de informação.

Isso fazia sentido do ponto de vista estratégico.

A França conhecia profundamente a África Ocidental francófona.

Portugal precisava compreender aquilo que acontecia nos países vizinhos da Guiné Portuguesa.

E o PAIGC utilizava precisamente esses espaços africanos independentes para desenvolver a sua atividade política, diplomática e logística.

Assim, informação sobre Senegal, República da Guiné, movimentos de oposição, dirigentes africanos e atividades do PAIGC possuía enorme valor.


4. SÉKOU TOURÉ ERA UM PROBLEMA CENTRAL PARA PORTUGAL

Para perceber esta história precisamos falar de Ahmed Sékou Touré.

A República da Guiné conquistou a independência da França em 1958.

Sékou Touré tornou-se uma das figuras africanas associadas à rejeição do domínio colonial e aproximou-se de diferentes movimentos de libertação.

Conacri tornou-se fundamental para o PAIGC.

Amílcar Cabral vivia e trabalhava politicamente a partir desse espaço.

Portanto, para Portugal existia um problema estratégico:

como derrotar um movimento que possuía uma retaguarda fora do território controlado por Portugal?

Uma resposta seria atacar essa retaguarda.

Foi exatamente nesse contexto que surgiu uma das operações mais extraordinárias da Guerra Colonial:

a Operação Mar Verde.


5. OPERAÇÃO MAR VERDE

Em novembro de 1970, forças envolvidas numa operação portuguesa atacaram Conacri.

Entre os objetivos estavam atingir estruturas ligadas ao PAIGC, libertar prisioneiros portugueses e tentar alterar violentamente a situação política da República da Guiné.

Amílcar Cabral também estava entre os alvos que Portugal pretendia neutralizar.

A operação demonstra uma coisa fundamental:

a guerra já não estava confinada à Guiné Portuguesa.

Portugal estava disposto a atravessar fronteiras para tentar destruir as condições que permitiam ao PAIGC continuar a luta.

Conacri era importante porque oferecia espaço político e estratégico ao movimento de Cabral.

Atacar Conacri significava, portanto, atingir simultaneamente Sékou Touré e a retaguarda do PAIGC.


6. E ONDE ENTRAVAM OS FRANCESES?

É precisamente aqui que precisamos ser rigorosos.

Existem documentos e investigações que apontam para contactos entre os serviços portugueses e o SDECE francês, incluindo circulação de informação e contactos relativos à situação da República da Guiné.

Documentação posteriormente revelada sobre planos clandestinos depois do assassinato de Cabral descreve contactos entre portugueses, franceses, senegaleses e outros participantes ligados a projetos contra o regime de Sékou Touré.

Isto é muito importante.

Mas não devemos transformar essa evidência numa afirmação maior do que aquilo que conseguimos demonstrar.

Não é historicamente seguro dizer simplesmente:

“A França comandou a Operação Mar Verde.”

A responsabilidade portuguesa pela operação está muito mais claramente documentada.

O que podemos dizer é que existiam interesses franceses na região, contactos entre serviços e projetos clandestinos posteriores envolvendo elementos ligados aos serviços franceses.

Essa diferença é essencial.


7. POR QUE SÉKOU TOURÉ ERA TÃO IMPORTANTE?

Porque derrubar Sékou Touré teria consequências enormes.

Não apenas para a República da Guiné.

Também para o PAIGC.

Se Cabral perdesse a possibilidade de operar a partir de Conacri, a luta poderia tornar-se muito mais difícil.

Portanto, quando analisamos operações contra Sékou Touré, precisamos observar também o efeito indireto que poderiam produzir sobre o PAIGC.

É aqui que os interesses podiam convergir.

Portugal queria derrotar o PAIGC.

Portugal queria enfraquecer Cabral.

Portugal queria neutralizar a utilização da República da Guiné como retaguarda da luta.

Outros atores tinham os seus próprios interesses relativamente ao regime de Sékou Touré.

Isso não significa que todos obedeciam a um único comando.

Significa que, em determinados momentos, interesses diferentes podiam encontrar um inimigo comum.


8. O SENEGAL ERA OUTRA PEÇA FUNDAMENTAL

O Senegal também precisa entrar nesta história.

Léopold Sédar Senghor mantinha relações estreitas com a França.

Ao mesmo tempo, a posição do Senegal perante o PAIGC não permaneceu igual durante toda a guerra.

Existiram períodos de tensão e vigilância.

Arquivos do próprio PAIGC conservam documentação secreta da segurança senegalesa relativa às atividades do movimento no Senegal e respostas do PAIGC às acusações feitas pelas autoridades senegalesas.

Mas existiu também cooperação.

Cabral procurou diretamente o apoio de Senghor.

Pediu autorização para estruturas do PAIGC em Dakar e Ziguinchor, apoio político internacional, bolsas de estudo, utilização da rádio senegalesa e outras formas de colaboração.

Portanto, novamente:

a história não cabe numa fórmula simples de “Senegal contra PAIGC”.

As relações mudaram.

Houve tensão.

Houve negociação.

E houve cooperação.


9. O ASSASSINATO DE AMÍLCAR CABRAL

Em 20 de janeiro de 1973, Amílcar Cabral foi assassinado em Conacri por elementos do próprio PAIGC.

Aqui é onde precisamos ter máximo cuidado histórico.

Existem há décadas suspeitas e acusações relativas à participação ou influência portuguesa.

Sabemos que Portugal considerava Cabral um inimigo central.

Sabemos que operações anteriores portuguesas tinham contemplado a sua neutralização.

Sabemos que os serviços portugueses acompanhavam intensamente o PAIGC.

Mas isso não significa que possamos declarar como facto definitivamente provado que a PIDE ordenou diretamente o assassinato.

Um relatório de inteligência norte-americano elaborado poucas semanas depois afirmava que não existia então prova ligando diretamente o Governo português ao assassinato, embora também dissesse que uma possível cumplicidade portuguesa não podia ser excluída.

Essa distinção continua importante.

Uma coisa é suspeita histórica.

Outra é prova documental conclusiva.

Não precisamos fabricar certeza onde ela não existe.

Porque aquilo que está comprovado já é suficientemente grave.


10. DEPOIS DE CABRAL, AS OPERAÇÕES CLANDESTINAS NÃO TERMINARAM

Existe uma parte menos conhecida desta história.

Depois da morte de Cabral, continuaram a surgir projetos destinados a alterar pela força a situação política na República da Guiné.

Documentos divulgados posteriormente descrevem negociações envolvendo portugueses, franceses, brasileiros, senegaleses e outros elementos em torno de um novo projeto contra Sékou Touré.

Nessa documentação aparecem referências ao SDECE francês.

São mencionados contactos entre participantes portugueses e elementos ligados aos serviços franceses, bem como apoio logístico a reuniões e contactos realizados na Europa.

É precisamente aqui que a dimensão francesa fica mais concreta.

Não estamos apenas a falar genericamente de “influência francesa em África”.

Estamos a falar de documentação que aponta para contactos entre estruturas clandestinas portuguesas e francesas em projetos dirigidos contra o regime de Conacri.

E qualquer operação capaz de destruir o governo que acolhia o PAIGC poderia alterar profundamente a situação da luta na Guiné-Bissau.


A CONCLUSÃO QUE PRECISAMOS RETIRAR

A guerra pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde não foi apenas uma guerra africana contra soldados portugueses.

Foi também uma guerra internacional.

Portugal tinha a PIDE/DGS.

A França tinha o SDECE.

Outros Estados tinham os seus próprios serviços e interesses.

Senegal tinha a sua política.

Sékou Touré tinha a sua.

A União Soviética tinha interesses.

Cuba apoiava movimentos de libertação.

Os Estados Unidos observavam cuidadosamente aquilo que acontecia.

E no centro dessa enorme teia estava um movimento africano tentando libertar dois territórios:

o PAIGC.

É por isso que precisamos abandonar uma visão infantil da história onde existem apenas dois lados perfeitamente definidos.

A realidade era muito mais complexa.

Existiam agentes.

Existiam informadores.

Existiam movimentos rivais.

Existiam interesses estrangeiros.

Existiam divisões internas.

Existiam operações clandestinas.

Existiam alianças temporárias.

Existiam mudanças de posição.

Portugal procurou explorar essas contradições.

Serviços estrangeiros recolhiam e partilhavam informações de acordo com os seus próprios interesses.

E os dirigentes africanos precisavam navegar nesse mundo enquanto conduziam uma luta de libertação.

Mas existe uma lição que permanece atual:

quando dois povos africanos começam a transformar as suas diferenças em ódio permanente, devemos conhecer a história antes de concluir que essas divisões nasceram naturalmente.

Isso não significa culpar serviços secretos por cada conflito atual.

Significa compreender que divisões políticas e identitárias sempre tiveram valor estratégico para quem queria enfraquecer movimentos de libertação.

A PIDE sabia disso.

Outros serviços de informação sabiam disso.

Cabral também sabia.

Por isso a unidade era tão importante para ele.

Não uma unidade cega.

Não uma unidade sem diferenças.

Mas uma unidade suficientemente consciente para impedir que as contradições internas destruíssem aquilo que o inimigo externo não conseguia destruir sozinho.

Essa talvez seja uma das maiores lições deixadas pela história da Guiné-Bissau e de Cabo Verde:

POVOS QUE NÃO CONHECEM A GUERRA INVISÍVEL TRAVADA CONTRA A SUA LIBERTAÇÃO CORREM O RISCO DE CONFUNDIR VELHAS DIVISÕES POLÍTICAS COM INIMIZADES NATURAIS.

A história precisa ser estudada.

Os arquivos precisam ser abertos.

As responsabilidades precisam ser investigadas.

Mas sem substituir documentos por mitos.

Porque a consciência africana não precisa de uma história inventada.

 

DA LUTA ANTICOLONIAL À XENOFOBIA CONTEMPORÂNEA

E aqui chegamos ao presente.

A xenofobia que hoje pode surgir entre cabo-verdianos e guineenses não pode ser analisada ignorando a herança do colonialismo e das políticas de divisão que procuraram fragmentar povos submetidos ao mesmo sistema colonial.

O colonialismo português tem responsabilidade histórica na construção e exploração de divisões sociais e identitárias. Dividir populações, estabelecer categorias e explorar diferenças podia enfraquecer a solidariedade entre aqueles que estavam submetidos à mesma dominação.

E essa lógica pode ser reproduzida dos dois lados.

Quando um cabo-verdiano utiliza “guineense” como insulto, inferioriza alguém por ser africano continental ou utiliza “mandjaku” de maneira depreciativa, existe xenofobia.

Mas quando um guineense faz o mesmo contra um cabo-verdiano, também existe xenofobia.

Quando alguém chama depreciativamente aos cabo-verdianos de “portugueses”, como se não fossem africanos; quando afirma que os cabo-verdianos se acham superiores aos outros africanos; quando transforma a mestiçagem ou a relação histórica de Cabo Verde com Portugal numa arma para negar a africanidade dos cabo-verdianos; ou quando generaliza e apresenta todos os cabo-verdianos como racistas, arrogantes ou inimigos dos guineenses, está igualmente a transformar diferenças em preconceito e hostilidade.

Não importa de que lado venha.

A lógica é a mesma: pegar numa diferença, transformá-la numa hierarquia; transformar a hierarquia em ressentimento; o ressentimento em conflito; e finalmente fazer dois povos esquecerem aquilo que historicamente os aproximou.

Cabo Verde e Guiné-Bissau estiveram ligados numa luta anticolonial conduzida pelo PAIGC e marcada pelo pensamento de Amílcar Cabral.

Por isso, nenhuma xenofobia deve ser desculpada.

Se um cabo-verdiano inferioriza um guineense, está errado.
Se um guineense inferioriza um cabo-verdiano, está igualmente errado.

A xenofobia não muda de natureza conforme a nacionalidade de quem a pratica.

Dois povos ligados por uma história de luta não precisam transformar as suas diferenças nas fronteiras de um novo conflito.

 

 

 

A história verdadeira já possui força suficiente.

SABIDO KATA INCHINADU BRABU